Macroeconomia e mercado

Notícias

Oferta de etanol volta a crescer no país

"Em termos de remuneração, o açúcar deixou de ser atrativo. Em primeiro lugar temos o anidro, na seqüência o hidratado e só depois o açúcar"

A oferta de etanol hidratado em São Paulo, principal Estado produtor e consumidor do país, está aumentando. A necessidade de "gerar caixa" vem fazendo com que usinas priorizem a comercialização do biocombustível em um momento sazonalmente de maior produção de açúcar. Ao contrário do etanol, que tem liquidez quase imediata, o açúcar tem neste momento mercado menos favorável com preços mais baixos. De acordo com representantes do setor ouvidos pela reportagem, a não ser que haja alguma novidade no mercado internacional de açúcar, a tendência de crescimento na oferta de etanol deve se manter até o fim da safra.

"Em termos de remuneração, o açúcar deixou de ser atrativo. Em primeiro lugar temos o anidro, na seqüência o hidratado e só depois o açúcar", afirma José Dirlei Marcello, gerente de planejamento da SCA, uma das maiores tradings de etanol do país, sobre a escala de produção do setor sucroalcooleiro neste momento. "Há um arrocho de crédito, os embarques de açúcar estão menores e a situação das usinas está mais delicada neste ano. Então, elas buscam vender etanol para gerar capital de giro", complementa Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro. "Além disso, os custos estão maiores e a safra será menor por causa da seca", acrescentou.

Em alguns momentos do primeiro semestre, o açúcar chegou a ser mais atrativo que o hidratado em razão do salto de quase 20% dos preços na Bolsa de Nova York. Na ocasião, o mercado era sustentado pela perspectiva de perdas expressivas no Centro-Sul do Brasil, em virtude da severa estiagem em janeiro e fevereiro. Desde abril, contudo, a oferta global, ainda volumosa, passou a dar o tom e o ímpeto de ganho se perdeu. No acumulado de 2014, o açúcar voltou a acumular desvalorização, de cerca de 2%.

A remuneração pouco vantajosa no que se refere a açúcar se reflete em margens pequenas e até negativas, em alguns casos, dos produtores. Modelo desenvolvido pela Archer Consulting mostra que o custo do produto colocado na usina é hoje de R$ 34,98 a saca de 50 quilos. Para uma usina localizada na região de Ribeirão Preto (SP), isso equivale a 16,25 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos. Levando-se em conta que o desconto do FOB para embarque em agosto é de 0,75 centavo de dólar, a cotação na Bolsa de Nova York precisaria estar em 17 centavos de dólar por libra-peso, o que se observa apenas no contrato com vencimento em março de 2015 em diante.

Desvalorização

Por ora, o aumento da oferta de hidratado tem reflexos nos preços. Conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), o litro do biocombustível acumula desvalorização de 3% nas duas últimas semanas, cotado hoje a R$ 1,2055, sem impostos e a retirar na usina. Apesar de ser 11% maior na comparação com igual período do ano passado, o valor se aproxima da mínima registrada em 2014, de R$ 1,1871 por litro, na semana terminada em 9 de maio.

Mirian Bacchi, pesquisadora do Cepea, pondera, contudo, que a comercialização maior de hidratado por parte das usinas, que elevará a oferta, não significará necessariamente incremento de demanda, "a menos que o preço caia bastante a ponto de estimular o consumo". "As usinas ainda apostam na comercialização (para gerar caixa), mas isso não quer dizer que a demanda vai aumentar", diz. No acumulado de 2014 até maio as vendas de hidratado nos postos eram 12% menores em volume que em igual período de 2013. Segundo Mirian, a economia enfraquecida é um dos fatores que explicam a queda do consumo. (Agência Estado 30/07/2014)

COMENTÁRIO MACRO E MERCADO

Mundo

1) A reunião entre as autoridades argentinas e os fundos holdouts terminou no início da madrugada desta quarta-feira sem um acordo, mas com a promessa de que as conversas sejam retomadas ao longo do dia de hoje. Com o prazo para um acordo terminando hoje, membros da associação de bancos da Argentina (Adeba) estão trabalhando em um plano de última hora para ajudar o país a evitar um calote.

2) A população argentina, preocupada com os efeitos de um eventual calote do país, aumentou a procura por dólares. Nas últimas duas semanas, o dólar no mercado paralelo subiu 5,7%, o que elevou para 56,4% a diferença em relação ao câmbio oficial. Ontem, o dólar paralelo fechou a 12,80 pesos, 26 centavos abaixo do pico histórico de 13,06 em 23 de janeiro.

3) O índice de sentimento econômico da zona do euro subiu para 102,2 em julho, ante 102,1 no mês passado, contrariando a expectativa dos economistas, de recuo para 101,9. Por outro lado, o indicador da União Européia caiu para 105,8, de 106,4 em junho, puxado pela queda dos indicadores nacionais da maioria dos países que compartilham fronteiras com a Rússia e Ucrânia.

4) O Banco Central Europeu (BCE) informou que o padrão de crédito na região sofreu um relaxamento pela primeira vez em sete anos, com todas as categorias registrando alta na demanda por crédito. A expectativa é de que este processo continue, facilitando o acesso ao crédito nos setores de habitação, empréstimo pessoa e consumo.  

5) O PIB da Espanha cresceu 0,6% no segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano, acima da estimativa do Banco Central Espanhol, de alta de 0,5%. Esse foi o melhor resultado trimestral para o país dos últimos seis anos.

6) Ontem, a União Européia decidiu ampliar as sanções à economia russa, colocando ainda mais pressão sobre o governo de Vladimir Putin. As medidas são direcionadas para quatro setores específicos: financeiro, de equipamentos de uso militar, armas e de equipamentos para a produção de petróleo.  

Brasil

1) A indústria automobilística é um dos setores que tem recebido mais investimento externo este ano. No primeiro semestre, os aportes somaram US$ 1,26 bilhão, valor 51,6% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Ao mesmo tempo, o setor diminuiu drasticamente a remessa de lucro para as matrizes. Com esse resultado, é a primeira vez em cinco anos que a entrada de recursos supera a saída na industria automobilística.

2) O FMI afirmou que a situação das contas externas do país é moderadamente frágil, podendo se deteriorar rapidamente em um cenário de queda significativa nos preços das commodities. O fundo ainda citou o Brasil como um dos países emergentes mais vulneráveis às mudanças da economia mundial.

3) Os dados de política monetária e operação de crédito do mês de junho confirmam a tendência de desaceleração do crédito do país, em um cenário de baixa inadimplência e alta taxa de juros. Segundo o BC, a taxa média de juros em junho foi de 43% ao ano para as famílias, maior índice desde 2011. Por outro lado, a inadimplência das famílias recuou 0,2 p.p e das empresas 0,1 p.p., ficando em 6,5% e 3,4%, respectivamente.

4) O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) registrou queda de 0,61% em julho, ante 0,74% em junho, registrando a terceira variação negativa consecutiva do indicador e abaixo da mediana das expectativas. Com esse resultado, a variação acumulada do IGP-M no ano até julho é de 1,83% e, em 12 meses, de 5,32%.

5) Segundo a FGV, neste mês, 29,7% das industrias de material de transportes acumulam produtos além do necessário para atender à demanda. Este é o maior nível de estoque para o setor desde a crise de 2009, quando 31,6% das industrias tinham produtos armazenados acima do necessário. Vale destacar que outros setores como a industria mecânica, fabricantes de vestuário, de minerais não metálicos e de papel e celulose também declararam ter estoques excessivos.

6) A Aneel decidiu adiar, mais uma vez, a data de pagamento da energia de curto prazo pelas distribuidoras. A liquidação de maio poderá ocorrer até dia 28 de agosto. Ao mesmo tempo, o diretor geral da agência afirmou que, os dois empréstimos às distribuidoras, acumulados em R$ 17,7 bilhões, terão impacto de oito pontos percentuais da conta de luz em 2015.

7) A agência de classificação de risco Moody’s criticou o uso político da Petrobras para controlar a inflação. Para a agência, o congelamento dos preços dos combustíveis representa um forte obstáculo para a rentabilidade da companhia e um elevado risco aos investidores.

8) Com a dificuldade de fechar a participação dos bancos privados no novo empréstimos de R$ 6,5 bilhões às distribuidoras de energia, o governo vai precisar da ajuda dos bancos públicos. Além do BNDES, que deve entrar com até R$ 3,5 bilhões, a Caixa Econômica Federal garantiu participação de até R$ 2,5 bilhões, com a maior parte do restante podendo ficar com o Banco do Brasil. A principal indefinição é com relação à participação dos bancos privados, que pedem uma taxa de juros maior do que a da primeira rodada.