Macroeconomia e mercado

Notícias

Usinas de cana já devem mais do que arrecadam em um ano de vendas

Levantamento da Unica mostra que situação financeira de boa parte das produtoras de açúcar e etanol está complicada; relatório do Itaú BBA mostra que as dívidas das usinas cresceram 19 vezes na safra 2013/2014 em comparação com o ciclo 2002/2003.
As usinas de açúcar e etanol do País devem encerrar esta safra, a 2014/2015 (de abril a março), devendo 110% de seu faturamento, de acordo com a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). A receita para o ciclo é estimado em cerca de R$ 70 bilhões. "As empresas vão fechar a safra devendo em torno de R$ 77 bilhões", disse ao 'Estado' Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da Unica.
Altamente endividadas; como reflexo dos investimentos em expansão de novas unidades, sobretudo entre 2003 e 2008, quando o consumo de etanol no mercado interno foi impulsionado pelos carros flex (que usam etanol e gasolina), as usinas continuaram tomando dívida para renovação de seus canaviais, mecanização da colheita de cana, afirmaram especialistas do setor.
A crise do setor começou a se agravar a partir de 2009, o que gerou uma onda de consolidação, com forte entrada de grupos estrangeiros, a exemplo da francesa Louis Dreyfus, dona da Biosev, e a indiana Shree Runuka. Esses dois grupos também estão com alto grau de alavancagem. Aliada à má gestão de uma boa parte das empresas, o não reajuste dos preços da gasolina, que tirou a competitividade do etanol, afetou grande parte das usinas. Neste ano, a queda dos preços do açúcar piorou a situação das empresas.
Levantamento feito pelo banco Itaú BBA mostra que na safra passada, a 2013/2014, a dívida líquida de 65 grupos, que responderam pela moagem de 428 milhões de toneladas de cana (72% do total), atinge R$ 45 bilhões. Esse valor cresceu 15% sobre o ciclo anterior e deverá ser entre 8% e 10% maior nesta safra, afirmou Alexandre Figliolino, diretor do banco. O executivo divulgará esses dados hoje durante a conferência anual da consultoria Datagro. "A dívida do setor até a safra 2013/2014 cresceu 19 vezes, se comparada com o ciclo 2002/2003", disse.
Os dados do banco contemplam as usinas do Centro-Sul, com base em 65 grupos sobre os quais o Itaú BBA teve acesso aos dados. Além do Itaú, os bancos Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES estão entre os maiores credores das usinas.
Fim da safra
Segundo Rodrigues, da Unica, há cerca de 375 usinas em operação este ano. De acordo com ele, 30 unidades correm o risco de não voltarem a moer no ano que vem por causa do alto endividamento. Quase 70 usinas pararam suas atividades desde 2008 e outras cerca de 70 estão em recuperação judicial.
Levantamento da Unica mostra que a colheita no Centro-Sul deve ficar entre 545 milhões a 550 milhões de toneladas, 40 milhões de toneladas a menos que o previsto inicialmente por causa da seca, sobretudo em São Paulo e Minas. O Nordeste deve colher entre 55 milhões a 60 milhões de toneladas. Já a consultoria Datagro prevê moagem de 550,2 milhões de toneladas de cana na safra 2014/15. Para o ciclo 2015/16, a estimativa fica entre 520 milhões a 560 milhões.
Até 30 de setembro, 10 usinas tinham encerrado a moagem por falta de matéria-prima. No mesmo período de 2013, duas tinham encerrado os trabalhos.
"O setor enfrentará uma das piores entressafras da história, com a antecipação do fim da moagem e falta de produto para comercializar durante esse período", disse Figliolino.
O Grupo Virgolino de Oliveira (GVO), com quatro usinas no Centro-Sul, confirmou no domingo, conforme antecipou o Estado, que contratou o banco Moelis para renegociar suas dívidas, sobretudo bonds (títulos da dívida). Sua dívida externa soma cerca de US$ 735 milhões. "Outras companhias, como Aralco (em recuperação judicial), Tonon Bionergia e Usina São João (USJ) estariam renegociando bonds", afirmou uma fonte. Procurada, a USJ diz que não está renegociando títulos, cujos vencimentos são de longo prazo. Tonon e Aralco não retornaram os pedidos de entrevista. (Agência Estado 21/10/2014)
 

Setor sucroenergético precisa de medidas que apóiem o investimento

Na palestra “Safra do Setor Sucroenergético 2014/15: Resultados parciais e seus impactos na cadeia produtiva”, realizada no III Simpósio Trabalhista Sindical - CEISE Br e GERHAI, Marcos Antonio Françóia, o diretor da MBF Agribusiness, fez uma rápida explanação sobre a safra 2014/15 e uma análise no que diz respeito à evolução do endividamento, fatores que contribuíram para sua existência e perspectivas futuras para o setor. A palestra foi solicitada pelos organizadores com a intenção de mostrar para os envolvidos nas negociações sindicais que estão por vir, qual é a real situação em que o setor se encontra.
“A crise é resultado de um processo que começou há muitos anos,” explicou.
Para Françóia, na época do Proálcool, mesmo depois que o governo concedeu linhas de crédito para investidores do setor, quem não as usou, acabou fazendo empréstimos a juros muito altos em condições pouco favoráveis. Posteriormente, com as evoluções que culminaram com o fim do Proálcool, muitas empresas ficaram com um endividamento que flutuou de acordo com o tamanho das crises e das bonanças que o setor passou ao longo dos anos.
“Estou dizendo isso, porque naquela época o incentivo foi muito grande. Nós tínhamos usinas de açúcar que foram incentivadas a produzir etanol, com construções de destilarias anexas para essa produção. E outras empresas, investidores, foram incentivados a montarem fábricas de etanol, o que parecia a chance de ouro para muitos, o que foi muito parecido com o que aconteceu em 2005. O setor tinha uma sustentabilidade, com crises primárias que nunca tiveram o poder para quebrá-lo, e mesmo com esse ciclo, o setor vem se mantendo com caixa muito forte. Em relação à gestão, ela era adequada para aquela época” ponderou.
Em 1995 o governo lançou a lei que autorizava a securitização da dívida para devedores de até 200 mil reais e; em 1998, o governo lançou o PESA, quando os produtores de açúcar e etanol puderam prorrogar o pagamento de suas dívidas com juros mínimos de 3% ao ano, por um período que se estenderia em até vinte anos, mas muitos deles não honraram suas dívidas. Uns anos depois, com o “novo proálcool”, o setor endividado parecia ter ganhado novas esperanças. A onda de investimentos a partir de 2005 elevou os custos de produção e a demanda dos produtos não respondeu da mesma forma. Em 2008, com o impacto da crise financeira mundial, as poucas linhas de crédito que faziam o giro do setor sumiram, fazendo com que as dificuldades financeiras se acentuassem.
“Vocês verão, pelos números, que as empresas altamente endividadas precisam de um fôlego de quinze a vinte nos para se recuperarem economicamente. Além disso, precisamos que o governo, por ser um dos principais credores, financie de alguma forma esse endividamento, e diga, ‘sigam daqui para frente e sejam essa potência que podem ser’. Com um novo programa, do tipo do PESA, por exemplo. Instituir este programa, reformulado, pode dar certo”, disse.
Para Françóia, fatores climáticos, política de controle de preços da gasolina e preços baixos também são fatores que ajudaram na derrocada do setor pela segunda vez.
Das 67 usinas em recuperação judicial, com uma dívida de 60 bilhões de reais, 83%, têm dívidas superiores a 100 reais por tonelada.
Em relação ao futuro do setor, Françóia salienta alguns fatos que tem sido destaque na mídia e que podem ser soluções para a crise; como o uso de etanol de milho como alternativa na entressafra, uma política energética voltada ao setor, entre outros. “Não é somente o aumento de combustíveis que irá solucionar os problemas”.
“Conseguiremos solucionar a crise com uma série de medidas, com um plano para investimento em vários setores, como energia e flexibilização e alongamento das dívidas, mas nada é para agora. No caso das empresas do setor que estão em recuperação, elas precisam de um período de quinze a vinte anos para se recuperarem. Qualquer que seja o presidente eleito, ele terá dificuldades para reorganizar a política econômica e o setor não dará respostas tão rapidamente. “Em curto prazo, continuará com dificuldades, mas nem todas as empresas se enquadram nesse perfil”, explicou (Brasil Agro 20/10/2014)
 
 

COMENTÁRIO MACRO E MERCADO

Mundo
1) China: O PIB da China cresceu 7,3% no terceiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2013, ante 7,5% entre abril e junho. O ritmo de crescimento do terceiro trimestre é o mais lento desde os primeiros três meses de 2009, quando o PIB chinês cresceu 6,6%. Entretanto, o resultado ficou acima da previsão dos analistas, que esperavam alta de 7,2%. No acumulado do ano até setembro, o crescimento foi de 7,4%, igual ao registrado entre janeiro e junho.
2) China: Os investimentos em ativos fixos não rurais na China tiveram alta de 16,1% entre janeiro e setembro deste ano, na comparação com o mesmo período de 2013, levemente abaixo da expectativa dos analistas, de crescimento de 16,2%. O resultado marca uma desaceleração no ritmo de investimento do país. Até agosto, no acumulado do ano, a alta havia sido de 16,5%.
3) China: As vendas no varejo da China subiram 11,6% em setembro ante o mesmo mês do ano passado, desacelerando em relação ao crescimento de 11,9% em agosto, e abaixo da expectativa dos economistas, de alta de 11,8%. Já a produção industrial do país surpreendeu positivamente, registrando alta de 8% em setembro, na comparação mensal, acima do resultado de agosto (6,9%) e da previsão dos analistas (7,5%).
4) Japão: Pelo segundo mês consecutivo, o governo japonês revisou para baixo a sua avaliação da economia do país, destacando que o aumento dos impostos anunciado em abril continua prejudicando a demanda doméstica. No relatório de outubro, o governo também afirmou que os preços ao consumidor estão subindo em um ritmo mais lento. Em setembro, a avaliação era de que a taxa de inflação estava avançando moderadamente.
5) Europa: De acordo com a Bloomberg, ontem o Banco Central Europeu (BCE) comprou bônus cobertos da França e da Espanha. Segundo nova prática de divulgação de relatórios, que começa hoje, o BCE vai informar semanalmente o valor agregado das aquisições, os movimentos em comparação a semana anterior, bem como a abertura das carteiras individuais.
Brasil
1) Setor Externo: Na terceira semana de outubro, a balança comercial brasileira registrou déficit de US$ 724 milhões, resultado de US$ 3,913 bilhões em exportação e US$ 4,637 bilhões em importações. Com isso, no acumulado do ano, a balança comercial tem saldo negativo de US$ 1,278 bilhões. Segundo o Mdic, a média diária das exportações caiu 17,3% nas três primeiras semanas de outubro ante igual período do ano passado, e as importações recuaram 13,7%, na mesma base de comparação.
2) Eleições: A pesquisa Datafolha divulgada ontem apontou empate técnico no segundo turno, porém, pela primeira vez desde o primeiro turno, Dilma Rousseff está à frente de Aécio Neves. Considerando os votos válidos, Dilma subiu de 49% para 52%, e Aécio recuou de 51% para 48%. Um fator que pode explicar o melhor desempenho de Dilma é a melhora na avaliação do seu governo. 42% dos entrevistas julgaram a gestão boa ou ótima, melhor patamar desde junho de 2013.
3) Cana: Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), as usinas de açúcar e etanol do país devem encerrar esta safra (2014/2015) devendo 110% do seu faturamento. Estima-se uma receita para o ciclo de R$ 70 bilhões, mas uma dívida de cerca de R$ 77 bilhões. Além do alto grau de investimento, o não reajuste nos preços da gasolina, diminuiu a competitividade do etanol, e afetou grande parte das usinas. Ainda de acordo o levantamento, há aproximadamente 375 usinas em operação este ano, com cerca de 30 unidades correndo o risco de não voltarem à atividade em 2015. Quase 70 usinas pararam suas atividades desde 2008 e outras 70 estão em recuperação judicial.   
4) Crédito: Apesar da estabilidade nas taxas de inadimplência, o cenário do mercado de crédito começa a preocupar. Segundo dados do Instituto Gestão de Excelência Operacional em Cobrança (Geoc), quase metade dos devedores (47%) só pensa em liquidar suas dívidas no ano que vem e um em cada cinco brasileiros inadimplentes fez novas dívidas sem ter quitado débitos anteriores.
5) Preços: O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) registrou alta de 0,48% em outubro, ante 0,39% em setembro, abaixo da expectativa dos economistas, que esperavam alta de 0,51%. Com esse resultado, no acumulado 12 meses, o índice tem crescimento de 6,62%.