Macroeconomia e mercado

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Cana e soja: casamento que pode ser rentável para o produtor canavieiro

Há 35 anos, o Condomínio Agrícola Santa Izabel, localizado em Guariba, SP, realiza nas áreas de plantio de cana-de-açúcar o sistema de rotação de cultura com soja. 

Segundo Alysson Strack, gerente corporativo de produção agrícola da Santa Izabel, a história da empresa em rotação com a oleaginosa mostra que soja e cana são culturas sinérgicas e não concorrentes.

Mas por que não fazer rotação nas áreas de cana com um outro grão bastante plantado na região de Ribeirão Preto, o amendoim? “Seria uma boa opção, é uma ótima cultura e tem função agronômica parecida com a da soja, mas a vantagem da soja hoje é que consegue liberar área para o plantio de cana mais rapidamente e é uma cultura de alta liquidez. Pode-se vender soja em qualquer lugar”, explica Strack.

No condomínio Santa Izabel, toda área em reforma de cana é rotacionada com soja. “Em 100% de nossa área de plantio de cana é colocada a cultura da soja no intervalo. Além disso, também faz parte do nosso negócio plantar nas áreas próprias e fazer parcerias com a usina.” Ele relata que a equipe da Santa Izabel cultiva e colhe a soja em determinada área da usina parceira, que depois é devolvida para o plantio da cana.

Na última safra, o condomínio Santa Izabel plantou em torno de 1.500 hectares de soja em rotação com cana, com produtividade de 66 sacas por hectare. Toda soja produzida pela empresa é encaminhada para a Coplana, que faz o beneficiamento e a comercialização do grão.

LAGARTA INDESEJADA

Na região do Condomínio Santa Izabel a cana-de-açúcar é predominante. Uma cultura que não tem sofrido muito com o ataque da Helicoverpa armigera, que em outras partes do país tem causado muito prejuízo em plantações de soja, milho e algodão.

Mas há três anos a Helicoverpa apareceu na região de Guariba e tem atrapalhado a produção de soja do Condomínio Santa Izabel. “É uma praga chave, pois causa danos diretamente na vagem. E são danos graves, reduzindo a produtividade drasticamente.”

A solução encontrada, segundo Strack, foi plantar uma variedade lançada recentemente pela Monsanto, a soja intacta, que é mais resistente às principais lagartas que atacam o cultivo e o manejo da soja. (Cana Online 01/06/2015)

 

Açúcar: preços fecham mistos a semana nas bolsas de NY e Londres

Na última sexta-feira (29), os preços do açúcar no mercado internacional fecharam mistos.

Na bolsa de Nova York, os negócios foram cotados a 11,98 centavos de dólar por libra-peso, no vencimento julho/15. Uma valorização de quatro pontos. No lote outubro/15, a commodity teve uma ligeira alta de um ponto. Já nas telas março, maio e julho/16 houve queda, que oscilou de seis a oito pontos no comparativo com a véspera.

O Diretor da Archer Consulting, Arnaldo Luiz Corrêa fez uma análise sobre os preços da semana. Ele explicou que a desvalorização do real ajudou a empurrar os preços para baixo. "Houve um declínio de mais de 20 dólares por tonelada nas duas primeiras posições negociadas na bolsa de NY. Os demais meses caíram entre 10 e 17 dólares por tonelada. O spread outubro/2015 março/2016 aqui muitas vezes apontado como uma excelente oportunidade de compra se desvalorizou ainda mais. Ou seja, o mercado está dando um desconto equivalente a 27,58% ao ano para o vencimento outubro/2015 em relação ao março/2016. É algo como um desconto de R$ 140 por tonelada para o açúcar de outubro. E nem assim o comprador se coça. Que fase", comentou Corrêa.

Ele disse ainda que "nos últimos quinze anos, o preço mais baixo observado durante toda a safra, tomando como base o fechamento do primeiro mês de negociação na bolsa de açúcar de NY, ocorreu, em 80% dos casos, no trimestre abril/maio/junho e jamais ocorreu no segundo semestre do ano. As altas, por outro lado, são mais esparsas com ligeira incidência nos primeiros dois meses do ano calendário. Na curva de preços analisada pela Archer, se assumirmos que o menor preço da safra será mesmo o de 11,83 centavos de dólar por libra peso negociado na semana passada, o valor médio da 2015/2016 é apontado pelo modelo como sendo de 15,51 centavos de dólar por libra peso", concluiu o Diretor.

Em Londres, os preços do açúcar também ficaram mistos. Na tela agosto/15, ele foi negociado a US$ 349,10 a tonelada, alta de US$ 1,70. Nos lotes outubro e dezembro/15, os preços subiram 90 e 20 cents, respectivamente. Já nas telas março e maio/16, a commodity caiu 30 cents.

Mercado interno

De acordo com os índices do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), da USP, a saca de 50 quilos do tipo cristal foi cotada a R$ 50,05, retração de 0,48% no comparativo com a véspera. (Cana Online 01/06/2015)

 

Bagaço de cana pode substituir petróleo na produção de solventes

A Química Verde tem a sustentabilidade como ponto de partida. Refere-se a produtos e processos diretamente relacionados ao uso de tecnologias limpas.

Um dos campos mais avançados dentro da cadeia de valor da cana-de-açúcar e que liga o setor com o futuro é a Química Verde, que abre um vasto espectro de possibilidades de produtos de alta qualidade e menor impacto ambiental.

Segundo a pesquisadora Maria Teresa Borges Pimenta Barbosa, do CTBE (Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol), Química Verde é o desenvolvimento de tecnologias para obtenção tanto de processos como de produtos químicos que possam minimizar ou eliminar substâncias prejudiciais tanto à saúde como ao meio ambiente.

A Química Verde tem a sustentabilidade como ponto de partida. Refere-se a produtos e processos diretamente relacionados ao uso de tecnologias limpas, em que há controle mais rigoroso quanto à menor emissão de poluentes, menor produção de resíduos e efluentes, uso de menos energia, mínima aplicação de produtos tóxicos, redução de impactos ambientais.

E diferentes alternativas podem ser consideradas, como os processos em que se substitui o petróleo e seus derivados por biocombustíveis para a obtenção do mesmo produto, por exemplo: utilizar o bagaço da cana como matéria-prima para a produção de solventes, hoje feitos com petróleo.

O avanço da Química Verde é uma tendência crescente, segundo a pesquisadora.

“No momento, buscamos chegar a produtos de química verde cujos processos sejam viáveis. Com muitos deles ainda estamos em fase de desenvolvimento e estes processos também vão sofrer as mesmas dificuldades para depois se estabelecerem. A tecnologia ainda está em amadurecimento”, explica.

A viabilidade da cana para a química verde

No Brasil, o investimento neste tipo de tecnologia é promissor, mas requer a continuidade dos investimentos para ganhar viabilidade econômica.

A área de cana-de-açúcar para etanol no país representa em torno de 1,2% das áreas agricultáveis, o que é menos de 25% da área ocupada para a produção de milho e 12,5% da área ocupada com a soja. Considerando, por exemplo, a quantidade de etanol necessária para produzir 200 mil toneladas de eteno verde (a matéria-prima para o polietileno), seria necessário em canaviais o correspondente a apenas 0,02% das áreas agricultáveis brasileiras. (Cana Online 01/06/2015)

 

Moçambique construirá usina de etanol com dinheiro do Kuwait

Projeto está orçado em US$ 1,5 bilhão.

A  kuwaitiana Al-Bader International Development Company anunciou investimento de U$1.5 bilhão para implantação de unidade produtora de etanol em Moçambique.

A usina será construída no distrito de Massingir, localizado no interior da província de Gaza. Conforme informado pelo porta-voz da a Al-Bader, Ali Mahmoud. Segundo o executivo, as obras estão previstas para começar em três meses.

Em projeto paralelo, a Al-Bader pretende construir uma indústria para produção de carvão liquefeito.

Orçada em US$13 bilhões, a unidade será implantada na província moçambicana de Tete. (Jornal Cana 01/06/2015)

 

Setor Sucroenergético: Medidas incompletas

Se o momento macroeconômico brasileiro é caro à maioria dos projetos de investimento produtivo, para a indústria sucroalcooleira a conta é ainda mais alta,Imersa em uma crise que já fechou dezenas de usinas, empurrou outras mais à recuperação judicial, numa conta estimada em cerca de US$ 80 bilhões em dívidas, o setor espera definições que coloquem um norte para sua estratégia de recuperação."O primeiro elemento de conversa é o que de fato se espera do etanol, pois essa é uma decisão que o setor não pode tomar"; diz Elizabeth Farina. Diretora presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) desde o final de 2012, a economista avalia que medidas como a volta da Cide ainda são insuficientes como sinalizadores de uma política de longo prazo. Em conversa telefônica, Elizabeth reitera o potencial produtivo do etanol no Brasil e ataca o epicentro do sismo que abalou o setor; a intervenção do governo na formação de preços dos combustíveis."O fato é que as usinas continuam sangrando"afirma à Conjuntura Econômica.

Conjuntura Econômica - No ano passado, a Unica endureceu seu posicionamento quanto à situação das usinas de etanol, declarando que o governo havia quebrado o setor. Como avalia a volta da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para a gasolina e o diesel e o aumento do percentual de etanol anidro na gasolina C?

São medidas positivas. A Cide foi instituída em dezembro de 2001 e esteve presente por todo o período de expansão da indústria do etanol, nos anos 2000, até ser zerada em 2012. Foi um sinalizador importante de diferencial de competitividade. Restaurá-la era uma demanda nossa, reconhecendo que o etanol traz um conjunto de benefícios para a sociedade que não estão embutidos no preço de bomba. É uma remuneração por externalidades positivas geradas principalmente em termos de meio ambiente. O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, de 25% para 27%, também é positivo, porque cria uma demanda associada à gasolina em torno de 1 bilhão de litros por ano. Teve também a revisão do valor do PIS/Cofins da gasolina, que tinha se deteriorado ao longo do tempo. Reconhecemos isso e ficamos esperançosos de que essas tomadas de decisão façam parte de uma visão de mais longo prazo do etanol na matriz energética brasileira e não simplesmente medidas emergenciais que, mesmo dando importância ao etanol, visem principalmente à questão do orçamento fiscal do Estado.

Ou seja, essas ações ainda não são lidas como a volta de uma política para o setor?

Essa é a grande questão que se coloca hoje. Ainda não há clareza de que o governo tenha lançado mão, ou adotado uma visão de longo prazo de sua matriz energética e que tenha um conjunto de ações, de pretensões para viabilizar essa matriz. Esses sinais foram positivos, mas eles só conseguirão, de tato, alterar o rumo desse setor, se houver uma visão de mais longo prazo de que o etanol é reconhecido como de alto valor para a matriz energética, seja do ponto de vista de abastecimento do mercado, seja do ponto de vista do meio ambiente. Isso está longe de ficar claro. Este é um setor que sofreu bastante com as políticas de preço, tanto quanto a Petrobras, e passou por vários anos numa grande crise, gerando um enorme endividamento, que continua existindo. Falta confiança de que as coisas irão mudar. Sempre fica a dúvida: e se a inflação subir mais, e o governo decidir zerar a Cide de novo para controlá-la?

O ministro das Minas e Energia (Eduardo Braga) fez uma apresentação recente no Senado e mostrou a demanda que se estima para abastecimento em 2023. Ele apontou um déficit no ciclo otto de 26 bilhões de litros de gasolina. Isso não só pesará na balança comercial, como também gerará um estresse sobre a infraestrutura para importar tudo isso. Qual a visão que o ministro trouxe para o etanol?

A de que em 2023 se terá um tamanho de produção parecida à de hoje, de 30 bilhões de litros de etanol anidro e hidratado. A gente acha que essa visão do ministério não está errada do ponto de vista das restrições do lado da oferta, das necessidades de investimento para fazer qualquer coisa maior que isso. Mas o fato é que o país vai precisar de 26 bilhões de litros de gasolina em sua matriz de combustível e esse é um espaço que poderia ser ocupado pelo etanol, se o investidor e as usinas tivessem confiança em uma política de longo prazo.

Qual o saldo atual de usinas em operação?

Desde 2008 foram fechadas cerca de 80 usinas, e há 67 em recuperação judicial, parte ainda em operação e outras inativas. Existem hoje 369 usinas operando no país, mas estimamos que este ano ainda haja o fechamento, que não precisa ser para sempre, pode ser o que chamam de hibernação, de mais 15 usinas.

Este ano começou com o rebaixamento de nota de risco de algumas empresas. Como esperam reverter esse quadro?

Do lado da demanda, existe um potencial muito grande. Porém, toda essa situação de crise faz com que haja muitas restrições pela ótica da oferta. Do lado dos investimentos, você olha e fala: a demanda potencial é boa, mas, se os preços forem administrados como foram no passado recente, não adianta ter uma demanda grande, porque o preço está balizado por uma política de governo cujos objetivos podem ser vários que não aqueles de dar sustentação para a integração e o aproveitamento dessa demanda potencial. O fato é que as usinas continuam sangrando. Teria sido pior se não tivesse retomado a Cide agora em 2015, teria sido pior sem a revalorização do PIS/Cofins, teria sido pior sem aumento da quantidade de etanol na gasolina; porém, elas continuam muito mal. Estão carregando endividamentos muito altos, queda de produtividade recorrente de restrições de investimento, de envelhecimento de canavial.

E o açúcar tampouco está ajudando

Exatamente. O preço do açúcar continua muito baixo, pois ainda há elevados estoques, e isso não está resolvendo o problema do etanol. Mas também sofremos de medidas incompletas. Em sua apresentação no Senado, por exemplo, o ministro também listou as políticas que foram adotadas desde 2013 para o setor. Mencionou a redução de PIS/Cofins sobre o etanol, com débito de R$ 0,12 por litro, criando-se um crédito equivalente, ou seja,., gerando acúmulo de créditos ordinários. No processo de produção acumula-se PIS/Cofins que não é ressarcido. Já existia um acúmulo de créditos decorrentes de investimento com créditos de PIS/Cofins elevados. Ou seja, houve alívio no PIS/Cofins, mas todo ano se acumulam R$ 2 bilhões em crédito. Mesmo no caso da Cide, ela voltou bastante abaixo do que foi no passado. Para manter a mesma proporção de 13% do valor de bomba da gasolina, ela teria de ser de R$ 0,62. Consequentemente ainda existe uma série de problemas de implementação dessas políticas, porque não foram totais.

Como vocês projetam a influência do câmbio para a competitividade do etanol e do preço do açúcar?

A Unica não tem uma projeção de câmbio neste momento, até porque está difícil projetar. Em princípio, a desvalorização do real afeta positivamente quem exporta, mas é um quadro heterogêneo, porque beneficia mais quem exporta mais açúcar. Depende também da composição da dívida de cada usina porque, se por um lado o real fraco é positivo na medida em que melhora a competitividade das exportações, por outro pode ser problemático para aquela usina que tem dívida em dólar sem hedge. Cada caso é um caso, e é difícil dar uma resposta agregada para todo o setor.

Qual a expectativa quanto ao mercado exportador? Esperam redução da demanda dos Estados Unidos, principal comprador do etanol brasileiro?

Nossas exportações são mais importantes em açúcar do que em etanol. A gente exporta 60% do que produz de açúcar, que representa 43% do mercado internacional. No etanol, a gente já exportou mais (em 2014, segundo o MDIC, a queda das vendas externas de etanol foi de 52%, somando US$ 1,86 bilhão, contra US$ 2,18 bilhões em 2013). As razões são várias. Tem um fator de competitividade, por conta da queda do preço do milho no mercado internacional, o que torna o etanol do milho mais barato. A lógica de operação do etanol de milho é distinta, pelo fato de o milho ser estocável, ser uma commodity. E uma dinâmica diferente da cana, que uma vez colhida tem 24 horas para chegar à usina para ser processada, e não conta com um mercado internacional como matéria-prima. Esse é o fator arbitragem. Mas hoje também há a indefinição em relação ao mandato americano, o renewable fuel standard (RFS), que define a porção do mercado que deve ser abastecida com etanol avançado (categoria do etanol da cana), convencional (milho), celulósico e biodiesel. Há uma variação anual, e um cronograma para o aumento do uso desses renováveis. Os valores estão sendo revistos, e há uma pressão muito grande da indústria do petróleo para reduzir a importância desse mandato. É algo ruim, porque gera insegurança tanto aqui quanto lá.

Em que medida os esforços diplomáticos de maior aproximação entre Brasil e Estados Unidos poderiam influenciar nessa agenda?

A gente trabalhou positivamente para que o etanol brasileiro fosse reconhecido como avançado, e acho que é importante participar das negociações, seja no âmbito do açúcar, seja no de etanol, para preservar esse reconhecimento. As metodologias de análise de redução de emissões continuam sendo aprimoradas, discutidas, a gente tem acompanhado isso tanto na Califórnia quanto no âmbito da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês). Os Estados Unidos abrem espaço para os países participarem de audiências, consultas públicas sobre as propostas de política pública, e temos que agir nesse sentido.

Atualmente, duas americanas, a CHS e a Cargill, têm projetos de investimento no Brasil relacionados a etanol de milho, em parceria com empresas locais. De que forma essa tendência pode impactar a configuração do mercado e o setor sucroalcooleiro?

Por enquanto são iniciativas ainda Pequenas, veremos como irão evoluir. Mas qualquer discussão sobre isso tem que levar em conta que o etanol de cana tem uma eficiência de conversão de energia muito superior à do milho. Em termos de redução de emissões e eficiência energética, o etanol é superior. Há outro fator a ser considerado, que é o de o milho já estar bem mais avançado na incorporação de benefícios de ganho de produtividade associados à transgenia. A cana, por sua vez, ainda não tem nenhuma variedade comercial transgênica, e tem muita pesquisa sendo elaborada, inclusive no Brasil. Portanto, há um espaço muito maior para a cana em termos de ganho de eficiência e produtividade, tanto na pesquisa agropecuária convencional quanto de biotecnologia, e espero que isso se transforme em competitividade.

A crise no setor de etanol também forçou a Unica a se reestruturar. Como foi esse processo e de que forma afetou a agenda de trabalho da associação?

Foi um ajuste grande. Reduzimos o pessoal, alteramos formas de trabalho. Cortamos pela metade a contribuição por tonelada de cana. Juntamente com o conselho, decidimos priorizar as ações institucionais, junto aos governos federal e estadual, porque sabemos que a definição institucional das regras do jogo é fundamental para recuperar competitividade do etanol e ganhar espaço na matriz energética. Na nossa agenda de policy, é muito importante ter a definição de onde se quer chegar com a matriz energética brasileira. Seja do lado de combustíveis líquidos, seja na área de energia elétrica. Se o governo disser: olha, vou valorizar muito o etanol hidratado, porque é um combustível substituto da gasolina, porque é importante para o crescimento, ok, veremos quais as opções para garantir esse crescimento. Se o foco é o anidro, como mistura, é outra coisa. O primeiro elemento de conversa é o que de fato se espera do etanol, pois essa é uma decisão que o setor não pode tomar. Somente com as regras do jogo dadas é que o investidor privado vai buscar as perspectivas de rentabilidade. E nessa área de energia a rentabilidade depende muito de ações governamentais, especialmente no Brasil, pois o passado recente mostra uma intervenção bastante importante na formação de preço, seja em energia elétrica, seja em combustíveis líquidos. Então nossa agenda continua sendo, em primeiro lugar, definir qual a matriz que desejamos; logo, apontar que as iniciativas que foram adotadas até agora são positivas, mas insuficientes; e, tendo definido o papel do etanol na matriz, buscar qual o nível que essas mesmas ações podem alcançar para se tornarem de fato relevantes para mudar o quadro. Todos os itens relacionados a essa agenda, seja de diferenciação tributária, seja de mudanças no Inovar Auto, seja de alterações de leilões associados à biomassa, podem ter evoluído, mas nenhum completou seu processo de implantação.

Um dos principais debates hoje no IBRE é como melhorar a produtividade brasileira, para a qual influem fatores como educação, institucionalidade e tecnologia. Qual a agenda que defendem a respeito?

Há produtividades e produtividades. Quanto à mão de obra, a gente passou por um processo de mudança técnica importante mecanizando toda a colheita da cana; São Paulo já completou essa transição, para atender exigências ambientais, acabando com a queima da cana na colheita. Essa mecanização tem um impacto inicial negativo, e ainda estamos pagando a conta de uma curva de aprendizado importante, com o desenvolvimento de equipamentos adequados, a inserção de novas práticas agronômicas. Primeiro é preciso cair, para depois subir. Nossas projeções são de recuperar os níveis históricos de produtividade de toneladas de cana moída, de 85 milhões de toneladas por hectare, em 2025, para daí avançar mais. Nesta safra, a produtividade média no Centro-Sul este ano foi de 73,9 milhões. A perda deste ano tem algumas particularidades, com uma estiagem, quebra de safra em São Paulo, mas estamos patinando nessa produtividade desde 2011, ficando abaixo da média histórica. Também buscamos desenvolver alguns programas, por iniciativa da Unica, para requalificação da mão de obra que estava sendo liberada da colheita para que fossem operadores de máquinas, atuassem na área de manutenção, e outros para atividades de fora da área de cana, pois quando se mecaniza o número de empregos acaba se reduzindo. Hoje há oferta de emprego de melhor qualidade, mas menor em quantidade. E que continua pesando bastante nos orçamentos.

A área de pesquisa e desenvolvimento tem sido afetada?

O segmento privado tem feito esforço para priorizar esse fator de produtividade, que não pode ser esquecido. Há consciência das pessoas e um grande empenho para que aconteça. A gente tem conversado muito com a ministra da Agricultura (Katia Abreu), que tem se mostrado interessada em apoiar esse setor. Claro que as medidas necessárias extrapolam a área dessa pasta. Mas o segmento agrícola tem feito investimentos importantes, apesar da crise. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que é um órgão privado cujos acionistas são usinas de cana-de-açúcar, continua investindo em tecnologia, seja na transgenia, seja em melhoramentos de variedades, de práticas agronômicas, desenvolvendo etanol de segunda geração em algumas usinas, então tem um investimento importante visando à recuperação dos níveis de produtividade e de ganhos de eficiência.

Agora, tem situações que de fato estão se complicando. A gente reconhece que o ajuste fiscal é necessário, mas uma taxa de juros de 9% para o plano de safra, um aumento de custo bastante elevado para a renovação de canaviais, limites por grupos de disponibilidade de recursos por parte do BNDES, tudo isso encarece o processo produtivo, bem como o investimento em tecnologia. Estamos em um momento bem complexo de atuação, porque de fato estão crescendo custos de financiamento do setor. Hoje isso tem acontecido para todos os setores, mas o de cana-de-açúcar já vem de uma crise grande, sem gordura para queimar. (Revista Conjuntura Econômica 28/05/2015)