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ADM integra operações na América do Sul

A americana Archer Daniels Midland (ADM), uma das maiores empresas de agronegócios do mundo, com vendas globais de quase US$ 70 bilhões por ano, está reorientando sua estratégia para uma atuação mais integrada na América do Sul, onde concentra parte importante de sua originação de grãos. O gatilho para essa mudança foi disparado no início de abril, com a chegada à liderança da companhia na região de Scott Fredericksen, executivo que está na múlti há mais de três décadas.

"Espero proporcionar uma estratégia para o continente, possivelmente menos isolada do que antes. Meu papel é dar uma orientação global de liderança, de forma mais integrada", resumiu ao Valor Fredericksen, em sua primeira entrevista no novo cargo. Ele sucede Valmor Schaffer, que foi para a concorrente asiática Noble Agri, em outubro do ano passado.

O novo presidente da ADM na América do Sul frisou que seu objetivo não é ser radical, mas que, provavelmente, haverá algumas mudanças. Uma modificação central nesse rearranjo é que, diferentemente de seu antecessor, ele responderá também pela operação na Argentina, segundo país mais importante da região, atrás do Brasil.

Na prática, Fredericksen defende o que chama de "polinização cruzada". "Há especialistas aqui em São Paulo, e a experiência deles poderia ser usada na Argentina. Há especialistas na Argentina, que talvez devessem ser usados em São Paulo. Então, aqueles membros da equipe que estavam concentrados em seus 'pilares' [de atuação], podem começar a trabalhar juntos", explicou.

Fredericksen acumula passagens pelas divisões de transporte (era, até então, presidente da ADM Transportation), de processamento de oleaginosas e de alimentos, três segmentos cruciais para a empresa na América do Sul. A região respondeu por 12,5 milhões (22%), das 56,9 milhões de toneladas de grãos originadas pela companhia no ano passado e, segundo estimativas de mercado não confirmadas pela companhia, por cerca de 10% da receita global.

O executivo destacou que cada divisão da ADM terá suas próprias estratégias, ainda que, coletivamente, continue com o foco em infraestrutura, marca da empresa na América do Sul nos últimos anos. Entre 2011 e 2013, último período em que revelou um plano de investimento, a empresa injetou US$ 400 milhões no Brasil, a maior parte em logística.

De acordo com Fredericksen, não há nenhum novo pacote definido, mas há obras importantes em curso. A ADM está reformando seu terminal no porto de Santos (SP), com um aporte de cerca de R$ 280 milhões, para elevar a capacidade de armazenagem e o volume de grãos movimentados, de 6 milhões para 8 milhões de toneladas anuais. Na saída pelo Norte do país, onde opera desde 2014 um terminal em Vila do Conde, em Barcarena (PA), a companhia também deve concluir até dezembro deste ano uma expansão de 1,5 milhão para 6 milhões de toneladas na capacidade de movimentação. A ADM divide a operação com a suíça Glencore, para quem vendeu 50% de participação no terminal em 2015.

No ano passado, a ADM aventou a possibilidade de ter sua própria frota de barcaças no Norte do país, onde é atendida por fornecedores terceirizados, mas Fredericksen disse que isso não está nos planos imediatos e que, se for necessário, não descarta uma joint venture. Recentemente, a empresa investiu em barcaças no rio Paraguai, ampliando sua frota global de mais de 2,5 mil unidades.

Já na frente de originação, a ADM pretende elevar os volumes movimentados, e crê em oportunidades na Argentina, onde o governo recentemente diminuiu as taxas sobre os embarques de grãos. "Mas acho que será duro o próximo ano", disse Fredericksen, ao avaliar que não vê os preços da soja e do milho muito mais altos na safra 2016/17, que começa a ser plantada nos EUA. Segundo ele, as margens, que é o que realmente importa para a ADM, realçou o executivo, não estão negativas na América do Sul, mas também não estão "tão boas quanto poderiam". "Acho que existem algumas oportunidades para as margens melhorarem, só não vejo isso no curto prazo. A menos que algo ocorra com a safra na América do Norte, mas não parece que isso vá acontecer", avaliou.

Há maior otimismo, contudo, no segmento de ingredientes alimentícios. A ADM concluirá entre o terceiro e o quarto trimestre deste ano uma fábrica de proteína de soja para consumo humano em Campo Grande (MS), que atenderá à demanda da América do Sul e eventualmente venderá a outras partes do mundo. A unidade, que absorveu cerca de US$ 250 milhões, terá capacidade para quase 60 mil toneladas anualmente.

Fredericksen lembrou que a múlti investiu nos últimos anos em palma e em etanol na região, no mês passado, vendeu uma usina em Limeira do Oeste (MG); e que talvez isso a tenha "distraído" por um tempo. Mesmo assim, disse que o caminho é concentrar esforços no que a empresa faz de melhor e permanecer com atenção a negócios "complementares". "Esse segmento de ingredientes alimentícios não será nosso grande 'core', mas vejo algo interessante, mais próximo do consumidor", concluiu. (Valor Econômico 20/04/2016)

 

Suicídio político: CNA declara ‘guerra aberta’ contra ministra Kátia

Comrpometido com uma posição pró-impeachment de Dilma Rousseff, um dia após a Câmara autorizar a abertura do processo de impeachment da presidente o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, disse ao Valor Econômico que vários presidentes de entidades patronais de setores como a indústria, o comércio e os transportes devem manifestar apoio ao vice-presidente Michel Temer na semana que vem, em encontro em São Paulo.

Na ocasião que ainda está sendo acertada pelo empresariado, as confederações, aí incluída a própria CNA, vão “provocar” Temer para que faça um pacto com o setor empresarial para recuperação da economia brasileira no caso de o pemedebista assumir a Presidência da República. A ideia também é apresentar seus pedidos para um eventual novo governo do pemedebista.

O maior envolvimento da CNA no xadrez de Brasília acontece num momento em que a crise política mexe diretamente com a estrutura de poder interna da rede de federações e sindicatos da entidade, que já vem declarando guerra aberta contra a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, amiga e defensora ferrenha de Dilma.

Segundo Martins, a palavra de ordem entre diretores da instituição é impedi-la de retomar a presidência da entidade, a ministra é presidente licenciada da CNA desde o início de 2015. Várias federações devem sugerir a Kátia que renuncie ao comando da Confederação e se “for necessário vamos convocar novas eleições”.

Em fala dura, Martins avalia que a posição de Kátia Abreu como liderança política máxima do setor do agronegócio “chegou ao fim” e que ela cometeu um “suicídio político” no momento em que escolheu defender o atual governo e “cortou o cordão umbilical” que tinha com os produtores rurais e com a própria CNA.

“A diretoria (da CNA) já se posicionou que não aceita mais o retorno dela à presidência e as federações estão com esse mesmo propósito”, destacou ele, lembrando que 26 das 27 federações de agricultura e pecuária vinculadas à entidade não apoiam a volta da ministra. “A casa está consciente de que vamos aos extremos para evitar o retorno dela, e essa não é uma palavra do presidente, e sim de todos os diretores”, frisou.

Martins sempre foi um dos principais aliados de Kátia nos oito anos em que ela presidiu a entidade de classe e, ao longo do ano passado – o primeiro da gestão da senadora à frente do ministério -, esteve leal à ministra e totalmente alinhado com as bandeiras políticas dela. Diz, contudo, que sua relação como atual presidente da CNA com Kátia Abreu, enquanto permanecer ministra da Agricultura, “vai parar”. O aprofundamento da crise política e o fato de Kátia não ficar do lado do segmento rural em relação ao governo levou a essa situação, explica.

Em reunião na semana passada com a CNA, 14 entidades representativas do setor, a maioria delas presididas por empresários aliados ou amigos de Kátia Abreu manifestaram apoio à estratégia da CNA a favor do impeachment de Dilma. Entre elas estavam a Aprosoja (produtores de soja), a Abiec (indústria do setor de carne bovina), a Abramilho (produtores de milho) e a Abrafrutas (produtores e exportadores de frutas).

Quando questionado, porém, se tinha pretensões de se candidatar a presidente da CNA, Martins, que é vice-presidente da entidade eleito na chapa de Kátia, diz que não está em campanha pelo cargo e que apenas será candidato caso a diretoria colegiada apoiá-lo. “Hoje é um consenso da casa blindar a CNA de qualquer interferência político-partidária, isso não podemos permitir”.

Em sua conta no Twitter, a ministra disse na madrugada de ontem que continua ao lado de Dilma “acreditando’ em sua honestidade” e que ela “não roubou e não cometeu crime de responsabilidade”. Procurada, Kátia não quis comentar as declarações de Martins. (Brasil Agro 20/04/2016)

 

Commodities Agrícolas

Açúcar: Colheita no Brasil: O clima favorável à colheita de cana no Brasil pressionou as cotações do açúcar na bolsa de Nova York. Ontem, os lotes da commodity com entrega para julho encerraram o pregão a 15,45 centavos de dólar por libra-peso, queda de 12 pontos. Neste mês, a falta de chuva vem favorecendo a colheita, permitindo as usinas sucroalcooleiras do Centro-Sul do país produzirem mais açúcar do que no mesmo período do ano passado. Pelos cálculos do banco Pine, quase 220 usinas já deviam estar em funcionamento em 15 de abril, bem acima das 160 do ano passado. Na semana que vem, a Unica divulgará o balanço da moagem de cana na primeira quinzena de abril. Em São Paulo, o preço do açúcar cristal caiu 0,6% ontem, para R$ 76 por saca, de acordo com o indicador Cepea/Esalq.

Café: Efeito do câmbio: As cotações do café arábica ganharam impulso ontem em Nova York com a queda do dólar ante o real e a retração das vendas dos produtores brasileiros em meio às incertezas políticas. Julho fechou a US$ 1,2790 por libra-peso, alta de 195 pontos (1,55%). A desvalorização da moeda americana em relação o real desestimula as exportações do Brasil. Além disso, o aval da Câmara ao processo de impeachment da presidente Dilma também tem colaborado para manter os produtores mais retraídos, pelas consequências que pode ter sobre o câmbio. Além disso, estimativas de déficit global no ciclo 2016/17 ainda oferecem suporte aos preços. No mercado doméstico, a saca de 60,5 quilos do café de boa qualidade saiu entre R$ 490 e R$ 500, segundo o Escritório Carvalhaes, de Santos.

Cacau: Portos vazios: Diante da queda das entregas de cacau nos portos do oeste da África, os preços da amêndoa subiram ontem na bolsa de Nova York. Os contratos da commodity com vencimento em julho fecharam o pregão a US$ 3.079 por tonelada, alta de US$ 38. Nos portos da Costa do Marfim, que lidera a produção e exportação de cacau, as entregas do produto somaram 8 mil toneladas na última semana, uma queda de 64% ante as 22 mil toneladas entregues no mesmo período do ano passado. Em toda a safra, o volume de cacau que passou pelos portos marfinenses é 4,5% menor do que girou no mesmo período do ciclo passado, segundo a consultoria Zaner Group. Em Ilhéus e Itabuna, ambos na Bahia, preço médio da amêndoa ficou estável ontem, a R$ 146 por arroba, conforme a Central Nacional de Produtores de Cacau.

Trigo: Cobertura de posições: As cotações do trigo ganharam força ontem nas bolsas americana, uma vez que os investidores continuaram cobrindo posições vendidas, contrariando os sinais positivos para as lavouras americanas. Os contratos do cereal com vencimento em julho fecharam a US$ 4,9425 por bushel, com elevação de 13,25 centavos. Em Kansas, onde se negocia um trigo de melhor qualidade, o mesmo vencimento subiu 12,25 cents, para US$ 4,8775. Os traders têm saído de suas posições após o mercado alcançar um saldo vendido muito elevado, segundo analistas. No Paraná, a saca de 60 quilos do cereal foi negociado, em média, por R$ 41,17 ­ valor estável em relação à véspera ­, segundo levantamento realizado pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura. (Valor 20/04/201