Macroeconomia e mercado

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Dilma, foi a economia que definiu seu destino, querida!

Por Valdo Cruz

No dia em que Dilma Rousseff estará no Senado fazendo sua defesa no julgamento do impeachment, lembro uma entrevista que fiz com a então ministra da Casa Civil. Era setembro de 2009.

Foi manchete da Folha. Já candidata de Lula para 2010, disse: "A tese do Estado mínimo faliu". Definiu o governo petista como nacionalista e estatizante. Só não gostou de ser chamada de intervencionista.

Um economista de ponta me ligou. "Você tirou da Dilma o que ela pensa de economia. Se for eleita, será muito ruim para o país." Relatei o receio a um amigo de Lula. "Não tem esse risco. Ele vai vigiar e controlar o governo dela".

Nos cinco primeiros meses do governo Dilma Rousseff, Antonio Palocci chefiou a Casa Civil como homem de Lula na equipe de sua sucessora. Até ali, a gestão da petista foi num rumo. Ajuste fiscal, aperto nos juros, privatizações.

Após sua queda, lembro-me de um assessor comentar comigo: "Agora, sim, começa o governo dela". No início, foi um sonho. Popularidade alta, faxina no ministério. Gastos acelerados, queda forçada dos juros. Só que deu tudo errado.

Para encobrir os erros, sua equipe pedalou como nunca para bancar a gastança. Surgiu a contabilidade criativa e irregularidades foram cometidas para esconder o descontrole dos gastos públicos.

Dilma foi reeleita, mas deu o argumento jurídico para que seus inimigos aprovassem seu afastamento, que tende a virar definitivo. Ela diz que é golpe. Tem lá suas razões.

Só que, queira ou não, cometeu irregularidades fiscais. Podem não ser graves, mas são crimes. Podem ser frágeis, mas foram usadas diante de sua incapacidade de consertar a economia, que afundou.

Numa situação de prosperidade do país, muita gente faria o que é sempre feito por aqui. Vista grossa e vida que segue. E Dilma ainda estaria no Palácio do Planalto. Enfim, foi a economia, querida. (Folha de São Paulo 29/08/2016)

 

Com nova linha de crédito, BNDES vai socorrer empresas endividadas

No primeiro dia do julgamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado, o governo do presidente interino, Michel Temer, lançou nesta quinta-feira (25) uma linha de crédito de R$ 5 bilhões para socorrer empresários, oferecendo empréstimos para compra de ativos e até ações de companhias em grave situação financeira ou falidas.

O anúncio da medida na reta final do processo de impeachment é parte de um movimento da equipe de Temer para reforçar o apoio do empresariado ao peemedebista.

O programa permite o uso do dinheiro do BNDES para comprar empresas, ou parte delas, que estejam em recuperação judicial, em falência ou situação financeira frágil, na avaliação do banco. Os financiamentos só poderão ser tomados por companhias que ele considerar saudáveis.

A medida era uma demanda de empresários e poderá ser renovada e ampliada caso dê resultados positivos. O governo acredita que ela poderá preservar empregos e reduzir prejuízos de empresas com crédito a receber de firmas em recuperação judicial. O governo diz que o alvo são pequenas e médias empresas.

Principal fonte de financiamento do país para investimentos de longo prazo, o BNDES registrou prejuízo de R$ 2,2 bilhões no primeiro semestre deste ano, atribuindo o rombo a perdas sofridas por empresas que receberam recursos do banco no passado.

A instituição informou ter reavaliado os riscos de diversas operações da sua carteira e reforçou as reservas necessárias para proteger seu patrimônio em caso de calote.

A nova linha de crédito para empresas em dificuldades deve vigorar até agosto de 2017. O governo afirma que o banco não receberá novos subsídios para viabilizá-la. Desde 2009, o BNDES recebeu mais de R$ 411 bilhões do Tesouro para turbinar sua capacidade de financiamento.

O programa também poderá ajudar a limpar a carteira de crédito do próprio BNDES. Empresas que tiverem dívidas com o banco só poderão vender ativos a clientes do programa se quitarem suas pendências com o BNDES.

Saudável

O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, rejeitou a ideia de que o governo está oferecendo socorro a empresas quebradas. "O crédito não será para a empresa em recuperação judicial, mas para uma saudável comprar parte ou todo o ativo da que estiver em recuperação", afirmou.

"Pode ser a linha de produção de uma fábrica ou a empresa inteira", acrescentou a presidente do BNDES, Maria Sílvia Bastos Marques, que assumiu o cargo em junho, após a posse de Michel Temer como presidente interino.

No primeiro semestre deste ano, 1.098 empresas pediram recuperação judicial, recorrendo à Justiça em busca de proteção contra os credores para renegociar as suas dívidas e tentar voltar a operar em condições normais.

A principal empresa nessa situação é a operadora de telefonia Oi, que tem uma dívida de R$ 64,5 bilhões. O braço de investimentos do BNDES é sócio da Oi, com uma participação de 4,63% que perdeu dois terços de seu valor no primeiro semestre.

Operações em que o novo programa financiar a compra de ativos de empresas em crise econômica ou com risco de crédito elevado só poderão ser feitas diretamente pelo BNDES e não poderão ser executadas por outros agentes financeiros da instituição.

O governo também anunciou nesta quinta-feira um aumento, de R$ 7,7 bilhões para R$ 10 bilhões, do orçamento da linha de crédito do BNDES para capital de giro. Como o programa já existia, R$ 6 bilhões já foram concedidos, segundo o banco. Dessa forma, ainda há R$ 4 bilhões de crédito disponível.

Do total do orçamento de R$ 10 bilhões, R$ 7 bilhões serão destinados exclusivamente a empresas menores, com faturamento de até R$ 90 milhões.

Saiba mais sobre a recuperação judicial

O que é recuperação judicial?

É uma proteção dada a empresas que não conseguem pagar suas dívidas, para evitar que credores peçam a falência delas

Qual a vantagem para a empresa?

Ela pode continuar funcionando normalmente -na falência, ela seria fechada e seus bens vendidos para pagar os credores

Clientes são afetados?

Não.

E os acionistas?

Sim. Quando a empresa tem ações em Bolsa, as negociações com esses papeis ficam suspensas assim que é feito o pedido à Justiça

Quais os próximos passos?

Após o pedido aceito, a empresa tem 60 dias para apresentar um plano detalhado de como vai saldar suas dívidas (forma de pagamento, prazos, de onde virá o dinheiro). Se o plano não for apresentado, o juiz decreta falência. Apresentado o plano, os credores têm 30 dias para se manifestar; se não concordarem, há nova decisão em assembleia em até 6 meses. Aprovado o plano, a empresa precisa cumprir todas as obrigações previstas em um prazo de 2 anos, a não ser que negocie alterações. Se os credores não aceitarem o plano, a empresa vai à falência. (Folha de São Paulo 26/08/2016)

 

Commodities Agrícolas

Açúcar: Déficit crescente: Novas estimativas de déficit para a oferta mundial de açúcar na atual (2015/16) e na próxima safra (2016/17) deram sustentação aos contratos futuros da commodity no último pregão da semana passada. Os papéis com vencimento em março de 2017 fecharam a 21,09 centavos de dólar a libra-peso, avanço de 7 pontos. De acordo com a consultoria FCStone, o consumo mundial de açúcar deverá superar a oferta em 9,3 milhões de toneladas na atual temporada. Na safra 2016/17, o saldo negativo deverá ser de 9,7 milhões de toneladas. O déficit reflete a queda nos investimentos nos principais países produtores após os impactos do El Niño nas últimas safras. Em São Paulo, o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal ficou em R$ 86,74 a saca de 50 quilos, alta de 0,97%.

Café: Receio com floração: Especulações sobre a floração precoce dos cafezais brasileiros deram força às cotações do café na última sexta-feira na bolsa de Nova York. Os contratos com vencimento em dezembro fecharam a US$ 1,4485 a libra-peso, alta de 40 pontos. A floração um pouco antes do esperado preocupa o mercado. Isso porque, caso haja menos chuva que o necessário para esse período, as flores podem cair antes da formação das cerejas de café, gerando uma menor produção no país. O dólar também ajudou a dar sustentação ao café com uma queda ante o real no início do pregão. Mas a moeda americana acabou fechando em alta diante da perspectiva de manutenção da atual taxa de juros nos EUA. No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para o arábica ficou em R$ 482,49 a saca, alta de 0,29%.

Soja: Abundância: A perspectiva de que os EUA colham uma safra recorde de soja voltou a derrubar o valor dos contratos da oleaginosa na bolsa de Chicago. Os papéis com vencimento em novembro fecharam a US$ 9,6725 o bushel, recuo de 8,25 centavos. De acordo com estimativa da consultoria americana Pro Farmer, os EUA deverão colher 110 milhões de toneladas de soja na safra 2015/16, o maior volume já registrado no país. A safra abundante reflete as condições da oleaginosa plantada no país. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), 72% das lavouras estavam em condições boas ou excelentes até o último 21. No mercado interno, o indicador Esalq/BM&FBovespa para a soja em Paranaguá ficou em R$ 81,52 a saca de 60 quilos, queda de 1,14%.

Milho: Condições excepcionais: As boas condições das lavouras de milho nos EUA, com perspectiva de produção recorde na safra 2016/17, derrubaram as cotações do grão em Chicago no último pregão da semana passada. Os papéis com vencimento em dezembro fecharam a US$ 3,25 o bushel, recuo de 7 centavos. De acordo com projeção da consultoria americana Pro Farmer, a produção de milho nos EUA deverá ser de 400 milhões de toneladas no ciclo 2016/17, bem acima das 345,49 milhões de toneladas projetadas pelo USDA para o período. As previsões climáticas de chuvas isoladas para o Meio-Oeste do país ao longo do fim de semana também pressionaram os contratos. No mercado interno, o indicador Esalq/BM&FBovespa ficou em R$ 43,71 a saca de 60 quilos, recuo de 1,51%. (Valor Econômico 29/08/2016)