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Distribuidoras rivais lucram com política de combustíveis da Petrobras

Pelo segundo ano seguido, as duas principais distribuidoras privadas de combustíveis do país se aproveitaram da política de preços da Petrobras para inflar seus lucros.

Acusadas pelos postos de não repassarem as reduções de preços promovidas pela estatal no segundo semestre, Raízen (que opera com a marca Shell) e Ipiranga conseguiram ampliar o Ebitda (indicador da capacidade de geração de caixa) em mais de 10% no ano passado.

As duas empresas dividem com a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, o controle sobre as vendas de combustíveis no país.

Nos últimos anos, têm aproveitado os preços mais altos da Petrobras para importar gasolina e diesel mais baratos no exterior.

Em 2016, 83,6% das importações de diesel no país foram feitas por empresas privadas. No caso da gasolina, 40,3%.

Em balanços divulgados nesta semana, os controladores de Raízen e Ipiranga comemoraram os bons resultados, mesmo em um ano de queda nas vendas.

A primeira fechou o ano com aumento de 12% na geração de caixa medida pelo Ebitda, para R$ 2,2 bilhões. A Ipiranga experimentou aumento semelhante, de 11%, para R$ 3,1 bilhões.

Entre os fatores que levaram ao bom desempenho, a Raízen aponta a estratégia de suprimento e comercialização, enquanto a Ipiranga cita oportunidades nos custos de combustíveis.

Para analistas, as empresas se beneficiaram das oportunidades para importar combustível mais barato quando a Petrobras manteve os preços acima do mercado internacional e souberam gerir seus estoques quando a estatal passou a mexer nos preços, no segundo semestre.

"Para os próximos trimestres, os resultados irão responder à nova política de preços da Petrobras, anunciada no mês passado e seguida por corte nos preços de diesel e gasolina, o que deve inibir a ampliação de margem dos distribuidores via importações", escreveram Wesley Bernabé e Viviane Silva, do BB Investimentos, em relatório sobre a Ultrapar, controladora da Ipiranga.

Em teleconferência na semana passada para detalhar o resultado financeiro, a diretora de relações com investidores da Cosan, Paula Kovarsky minimizou o peso das importações no balanço da controlada Raízen (que também pertence à Shell).

"Quando a gente fala de estratégia de comercialização e suprimento de produtos, isso vai muito além da importação. Aqui tem gestão de estoques e tem otimização logística", disse ela.

LONGE DA BOMBA

Dados da ANP mostraram que, após os dois primeiros cortes de preços promovidos pela Petrobras em outubro de 2016, as distribuidoras levaram cinco semanas para começar a entregar combustível mais barato.

Sete semanas após os cortes, porém, os preços ainda não haviam chegado para os consumidores.

A concentração do mercado de combustíveis é motivo de preocupação para órgãos de defesa da concorrência.

Em parecer sobre compra da rede AleSat pela Ipiranga, a área técnica do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) cita a reduzida quantidade de empresas no setor e a dificuldade para que rivais ampliem sua posição para recomendar que a operação de R$ 2,1 bilhões anunciada em junho de 2016 seja rejeitada.

Cita, ainda, o poder que as empresas têm para formar preços em um mercado tão concentrado.

"Se ela [venda da AleSat] for aprovada, a Ipiranga, a Raízen e a BR Distribuidora estarão em zona confortável para induzir ou impor a coordenação sobre centenas de mercados relevantes de revenda espalhados por todo o país, em grandes e pequenas cidades", diz o relatório. (Folha de São Paulo 25/02/2017)

 

"Meia agricultura" é uma visão do passado; é preciso fazer o certo

É consenso que a safra de soja do país neste ano, após a queda em 2016, vai voltar ao normal e bater recorde.

Mato Grosso, o principal Estado produtor supera a marca de 2016, e deve chegar a 30,5 milhões de toneladas.

Após percorrer próximo de 20 mil quilômetros pelo Estado, o tradicional Rally da Safra, expedição que passa por lavouras avaliando a situação da produção, aponta esse cenário favorável.
Duas variáveis estão fora de poder de ação dos produtores: clima e oscilações do mercado. Mas aumenta o entendimento que outras ações são controláveis e podem aumentar a renda no campo.

Comercialização e redução de custos estão entre elas. Por isso, o produtor quer a formação de grupos para atuação tanto na compra de insumos como na venda da produção.

Uma das principais discussões nesta safra são as classificações de impurezas e de umidade da soja. Produto tirado do mesmo lote, quando avaliado por diversas tradings, mostra percentuais de classificação muito variados.

"Todo ano temos um ou outro problema relacionado à classificação", diz Arlindo Cancian, presidente do Sindicato Rural de Canarana (MT). Na avaliação dos produtores, a soja precisa sair da fazenda já com classificação.

"Passamos a vida olhando para abertura de áreas e busca de produtividade, mas necessitamos melhorar a renda por meio de outras ações", diz Wilson Fucks, produtor de Querência, no vale do Araguaia.

Sindicato, cooperativas e associações estão no foco desses produtores. "Precisamos aprender a trabalhar com isso e, em grupos menores, fazermos "pool" de compras e de vendas para uma atuação mais efetiva."

Para o agricultor Elio Carlos de Oliveira, é hora de uma revisão de conceitos. O produtor, devido à grande quantidade de afazeres, acabou se esquecendo dessas coisas, também importantes.

O vice-presidente do Sindicato Rural de Querência, Osmar Fizzo, concorda: "é preciso gestão profissional".

Ainda há espaço para aumento de área na região do Araguaia, uma vez que boa parte das pastagens da região encontra-se em estado degradado e deve "virar" agricultura, afirma José Geraldo Netto, da regional da Bayer.

Mas na avaliação dele ainda há uma carência de informações e as empresas buscam suprir as demandas básicas dos produtores com serviços e inovações.

André Debastiani, coordenador do Rally da Safra, afirma que "o que me impressiona é que Mato Grosso está saindo das 50 sacas de produtividade". Os produtores estão deixando de olhar apenas para a lavoura e passam a cuidar mais do "negócio,"

Cancian acredita em mudanças na região, apesar das dificuldades atuais com logística e armazenagem. O pecuarista, sempre mais acomodado, começa a se preocupar, o que é bom para elevar a produtividade da pecuária e dar mais área à lavoura.

Cresce entre produtores a visão de que a agricultura não aceita mais "meia agricultura". É preciso fazer o certo.

O resultado final para o produtor "não é o quanto ele planta, mas o quanto sobra após o fim da colheita", diz Alexandre Alvady Di Domenico, da Agrocam. (Folha de São Paulo 28/02/2017)

 

Commodities de exportação seguem em alta

Sustentadas por fundamentos e câmbio, as principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil encerraram fevereiro com preços superiores aos registrados no mesmo mês do ano passado nas principais bolsas americanas.

Cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega mostram que as maiores ganhos ainda são os das "soft" commodities negociadas em Nova York (açúcar, algodão, suco de laranja e café), mas em Chicago os grãos mais vendidos pelo país no exterior (soja e milho) permanecem com suas cotações firmes.

No caso das "soft", há em comum, pelo lado dos fundamentos, problemas que limitam a oferta, inclusive no Brasil, que lidera as exportações mundiais de açúcar, café e suco de laranja. Nesse contexto, também há um importante "empurrão" cambial, já que, no mês passado, a cotação média do dólar em relação ao real foi quase 22% menor que a média de fevereiro de 2016, queda que tira rentabilidade dos embarques do país.

Esse movimento, que também tem influência sobre o comportamento dos preços em Chicago, é normal. Quando o dólar cai em relação ao real, teoricamente desestimula os embarques brasileiros, o que abre espaço para altas de preços em Nova York, um raciocínio que vale para outros exportadores.

Assim, ainda que tenha perdido força, a cotação média dos contratos de segunda posição do açúcar fechou fevereiro com variação positiva de 53,11% em relação ao resultado do mesmo mês do ano passado. A entressafra no Brasil colabora para manter o atual patamar de preços, e a equação mundial entre oferta e demanda pode estender a fase "altista" por mais algum tempo.

Segundo a FCStone, a demanda global deverá novamente superar a oferta na safra internacional 2017/18, que terá início em outubro próximo. Nos cálculos da consultoria, a produção deverá crescer 5,6% em relação ao ciclo 2016/17, para 186,3 milhões de toneladas, e o consumo deverá aumentar apenas 1%, para 186,8 milhões.

Se confirmadas essas previsões, que já levam em conta a tendência de expansão da produção européia de açúcar de beterraba, os estoques no fim da temporada estarão no menor nível desde 2011/12 (63,1 milhões de toneladas).

O encolhimento dos estoques também está na base das justificativas das altas das cotações de café e suco de laranja, cujas exportações mundiais são igualmente lideradas pelo Brasil. No país, as respectivas produções foram golpeadas por intempéries provocadas pelo El Niño em 2016, e a recuperações não serão plenas neste ano.

Com a demanda mundial ainda fraca, o suco aparentemente parou de subiu em Nova York, mas os contratos futuros de segunda posição de entrega da commodity encerrou fevereiro com valor médio 26,41% superior ao do mesmo mês do ano passado. As cotações do café também perderam ímpeto, mas subiram 24,66% em igual comparação.

O algodão está em ascensão graças a sinais mais otimistas no quadro da demanda mundial e, em relação a fevereiro de 2016, registrou alta de 28,92%. O cacau, por sua vez, permanece em queda, a média de fevereiro foi, 29,98% menor que a do mesmo mês do ano passado, mas em razão da demanda mais restrita.

Na bolsa de Chicago, onde são transacionadas as commodities agrícolas de maior liquidez, movimentos financeiros relacionados a outros mercados ajudam a oferecer sustentação aos contratos de soja, milho e trigo. Os dois primeiros encerraram fevereiro com cotações médias maiores que em fevereiro de 2016, 19,65% e 2,35%, respectivamente, e o trigo com uma queda modesta (3,05%).

Nesses mercados, entretanto, os fundamentos sugerem alguma perda de sustentação nos próximos meses, já que a oferta global continua abundante e não há sinais de problemas expressivos. As primeiras estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) para a produção de grãos no país na próxima safra (2017/18) indicaram que os volumes continuarão fartos. Os americanos lideram a produção mundial de soja, milho e trigo. (Valor Econômico 01/03/2017)

 

Commodities Agrícolas

Açúcar: Correção em NY: Os contratos futuros do açúcar demerara apresentaram leve alta ontem na bolsa de Nova York após quatro sessões consecutivas de queda. Os papéis com vencimento em maio fecharam a 19,23 centavos de dólar a libra-peso, com avanço de 8 pontos. A correção nos preços da commodity acontece em meio ao vencimento dos papéis de primeira posição e ao enfraquecimento das negociações devido o feriado de Carnaval no Brasil. Segundo o banco Société Générale, cerca de 1,4 milhão de toneladas de açúcar foram entregues com o vencimento dos contratos de primeira posição ontem. No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal em São Paulo ficou em R$ 81,34 a saca de 50 quilos na última sexta-feira, com queda de 0,83%.

Cacau: Novas perdas: As perspectivas de um oferta abundante de cacau na safra 2016/17 seguem pressionando os contratos futuros da amêndoa na bolsa de Nova York. Os papéis com vencimento em maio fecharam ontem a US$ 1.909 a tonelada, queda de US$ 73. Segundo estimativa divulgada pelo Organização Internacional do Cacau (ICCO, na sigla em inglês), o superávit na oferta mundial na atual temporada deverá atingir 264 mil toneladas, reflexo do crescimento na produção no oeste da África. O órgão estima um aumento de 20% no volume colhido na Costa do Marfim e de 15% em Gana. No mercado interno, o preço médio pago ao produtor em Ilhéus e Itabuna, na Bahia, ficou estável em US$ 101,60 a arroba na última sexta-feira, segundo a Central Nacional de Produtores de Cacau.

Soja: Chuva no Brasil: As previsões de chuva no Centro-Oeste do Brasil deram fôlego às cotações da soja na bolsa de Chicago ontem. Os papéis com vencimento em maio fecharam a US$ 10,3575 o bushel, avanço de 13,75 centavos. Há consenso entre as previsões de mercado de que o país registrará uma produção de mais de 100 milhões de toneladas, sendo as mais otimistas de um recorde de 109 milhões de toneladas. Os investidores, no entanto, estão atentos aos potenciais atrasos na colheita. Em Mato Grosso, principal Estado produtor do Brasil, as previsões mais recentes apontam a possibilidade de chuva de intensidade forte a moderada nos próximos sete dias. Na última sexta-feira, o indicador Esalq/BM&Fbovespa para a soja em Paranaguá ficou em R$ 71,90 a saca de 650 quilos, com alta de 0,14%.

Milho: Alta em Chicago: Especulações sobre possíveis mudanças no mandato de etanol nos Estados Unidos deram sustentação aos contratos futuros do milho na bolsa de Chicago ontem. Os papéis com vencimento em maio fecharam a US$ 3,7375 o bushel, avanço de 5,5 centavos. A Associação de Combustíveis Renováveis, que representa a indústria de etanol nos EUA, disse ontem ter obtido informação de que o governo Donald Trump deve realizar mudanças na forma como o biocombustível é misturado à gasolina no país, o que traders consideram que poderia estimular o setor de etanol. Mas a Casa Branca negou que haverá mudança nas regras para combustíveis renováveis. No mercado interno, o indicador Esalq/BM&FBovespa para o milho ficou estável em R$ 36,10 a saca na sexta-feira. (Valor Econômico 01/03/2017)