Setor sucroenergético

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Safra de cana tem melhor cenário em uma década

A safra 2016/17 de cana-de-açúcar no Centro-Sul começa oficialmente na próxima sexta-feira, dia 1º de abril, com um "fenômeno" há tempos não visto no mercado sucroalcooleiro. Pela primeira vez em mais de uma década, açúcar e etanol estarão, ao mesmo tempo, em ciclo de alta de preços no Brasil. "Nos últimos anos, houve alternância: enquanto o açúcar estava em alta, o etanol estava na baixa, e vice-versa", afirmou Willian Hernandes, da consultoria FG Agro.

Para a próxima temporada, projeções apontam que ambos estarão na "crista da onda". Nas contas da FG Agro, o preço médio do etanol (hidratado) deve se situar na temporada 2016/17 no patamar de R$ 1,52 por litro, os cálculos consideram o valor dos contratos futuros do hidratado da BM&F/Bovespa no intervalo de abril a dezembro, e embutem uma projeção própria da consultoria para o período de janeiro a março de 2017. Se a estimativa for confirmada, será um preço 16% acima da média de R$ 1,33 por litro do ciclo 2015/16.

O açúcar, por sua vez, "promete" pagar acima disso na temporada vindoura. A projeção da consultoria é de que os preços médios da commodity (em reais) na safra 2016/17 serão 20% acima dos estimados para os preços médio do hidratado no mesmo intervalo. "Em 2015/16, as cotações do açúcar ficaram, em média, 4,5% abaixo dos preços médios do etanol. Agora vão superar o biocombustível que, por sua vez, também vai se superar", estimou Hernandes.

A confluência de ciclos positivos para os dois produtos em uma única safra não ocorria desde a safra 2005/06, conforme dados levantados pela FG Agro. Foi justamente nessa época, que emergiu o "boom" de investimentos em etanol no país, que atraiu milhões de dólares de empresas nacionais e principalmente estrangeiras para construção de novas usinas de cana-de-açúcar no país.

Do lado do açúcar, o que tende a sustentar os preços na próxima temporada é o primeiro déficit global da commodity em cinco anos, mesmo diante de projeções de uma oferta maior no Brasil. Do lado do etanol, a aposta é de uma oferta estável no Brasil na temporada 2016/17, ou até menor frente ao ano passado, para uma demanda de estável a levemente maior, segundo Hernandes.

Conforme as últimas previsões da consultoria, se as usinas do Centro-Sul destinarem 44,4% do caldo da cana para fabricar açúcar em 2016/17 (ante 40,9% em 2015/16), a produção da commodity pode chegar a 35,6 milhões de toneladas, o que seria um recorde, o anterior, de 34,4 milhões de toneladas, foi no ciclo 2013/14.

Para a produção de etanol, a consultoria estima um volume total de 27,6 bilhões de litros em 2016/17 no Centro-Sul, sendo 16,9 bilhões de litros de hidratado, uma retração de 0,5% frente ao estimado para 2015/16. (Valor Econômico 30/03/2016)

 

Kátia Abreu defende Dilma e diz que impeachment não pode ser banalizado

 Ministra da Agricultura disse que vai aguardar decisão do PMDB, seu partido

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, afirmou, nesta terça-feira (29/3), que a instituição do impeachment não pode ser banalizada e que não vê motivos para que a presidente Dilma Rousseff passe por esse processo. Ela foi entrevistada pelo diretor de Redação da Revista Globo Rural, Bruno Blecher, e pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg, no quadro CBN Agronegócios, na rádio CBN.

“O impeachment existe na constituição e, por si só, não é golpe, mas pode se transformar em golpe. É um processo traumático e que deixa feridas na nação. Nos não temos o direito de ser imprudentes”, disse a ministra.

Kátia Abreu questionou o argumento que serve de base para o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, as chamadas pedaladas fiscais. De acordo com a ministra, outros governos adotaram práticas semelhantes e o Tribunal de Contas da União (TCU), ao recomendar a rejeição das contas do governo do ano passado, agiu “com dois pesos e duas medidas”.

"O Tribunal aprovou as contas de ex-presidentes com pedaladas e agiu de forma diferente com a presidente Dilma Rousseff. Desde Dom João VI se pratica pedalada no Brasil", afirmou.

A ministra disse que tem conversado com a presidente quase todos os dias. “Ela está confiante de que vai superar tudo isso. Ela sabe da gravidade da situação, mas confia na Justiça e no Congresso”, acrescentou Kátia, para quem Dilma é honesta. “Não encontro nenhuma desonestidade que possa levar ao impeachment”, disse.

De outro lado, Kátia ressaltou que apoia o trabalho de investigação dos casos de corrupção feita pela Justiça brasileira na operação Lava Jato. Ponderou, no entanto, que a ação do Ministério Público deve ser feita de forma isenta e “sem espetáculo”. “Quem merecer tem que ir para a cadeia”, declarou.

Saída do PMDB

A ministra da Agricultura foi reticente em relação à postura do PMDB, de romper com o governo Dilma Rousseff, e o que vai fazer diante da situação. Filiada ao partido, ela disse que primeiro vai analisar a decisão da legenda para tomar sua posição.

Em enquete no site da revista Globo Rural, leitores se mostraram divididos em relação à saída da ministra, respondendo a pergunta “se o PMDB romper com o governo, Kátia Abreu deve deixar o Ministério da Agricultura". Enquanto a entrevista ainda estava no ar, a maioria dos participantes, 54%, votavam pela opção “Sim. Ela deve seguir as determinações do partido”. Os 46% restantes optavam por “Não. Seu trabalho está acima de questões partidárias”.

“Veja como o Brasil está dividido, né? Essa metade dos brasileiros que querem a minha permanência sabe que temos carta branca para atuar em prol do agronegócio”, comentou a ministra, durante a entrevista. “A outra metade, eu respeito”, acrescentou. (Globo Rural 29/03/2016)

 

Cooperativas de crédito crescem mais rápido que bancos em 2015

As cooperativas de crédito brasileiras tiveram crescimento dos financiamentos em ritmo superior ao do sistema bancário do país em 2015, aproveitando-se da alta capilaridade e da oferta de taxas mais competitivas num momento de juros em níveis recordes.

Maior do país no setor, com cerca de 3,2 milhões de sócios, o Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob) fechou o ano passado com 34,7 bilhões de reais em crédito, alta de 9,2 por cento ante 2014. Também com mais de 3 milhões de cooperados, o Sicredi viu sua carteira subir 8,1 por cento no período, a 30,6 bilhões de reais.

O estoque de crédito do sistema financeiro do país subiu 6,6 por cento em 2015, pior evolução da série histórica iniciada em 2007 pelo Banco Central. Se considerado apenas o crédito livre, que desconsidera os financiamentos direcionados, como para habitação e rural, o avanço foi ainda menor, de 3,7 por cento.

Dado o relacionamento mais próximo com os tomadores em relação ao que ocorre na média do setor bancário, as cooperativas também têm conseguido manter níveis de calotes inferiores aos dos bancos de varejo, embora também tenham piorado com a recessão do país.

No Sicoob, o índice de inadimplência acima de 90 dias, subiu de 1,7 por cento para 2,5 por cento no ano passado. No Sicredi, o índice passou de 1,99 para 2,4 por cento. A média do sistema financeiro do país era de 3,4 por cento no fim de 2015.

Diante da retração no setor bancário, as cooperativas estão aproveitando para expandir a oferta de serviços financeiros, incluindo cartões de crédito, consórcios, previdência e seguros.

Mesmo em caderneta de poupança, Sicoob e Sicredi conseguiram captação positiva no ano passado, na contramão do mercado.

Segundo o presidente do Sicoob, Henrique Castilhano Vilares, esses números podem revelar que as cooperativas têm conseguido um relacionamento mais próximo e personalizado com os tomadores de crédito e serviços financeiros do que os bancos.

"Diferente das instituições financeiras convencionais, os resultados das cooperativas retornam para o associado", disse Vilares em documento enviado à Reuters. O Sicoob se apresenta como a sétima maior instituição financeira do país, com um patrimônio líquido de 13,88 bilhões de reais. (Reuters 29/03/2016)

 

Açúcar: Mercado paulista remunera quase o mesmo que exportação, aponta Cepea

Os preços externos do açúcar subiram na maior parte de março, enquanto os valores no mercado spot (à vista) de São Paulo caíram. Como resultado, a remuneração obtida com a venda do cristal no mercado paulista foi praticamente a mesma que a recebida pela exportação, segundo mostram cálculos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP.

A venda da commodity no mercado paulista se mostra mais vantajosa que as exportações desde o final de outubro/15. No entanto, de 21 a 24 de março, a vantagem do spot paulista sobre a exportação foi de apenas 1,03 real/saca de 50 kg (ou de 1,37%). Enquanto a média semanal do Indicador de Açúcar Cristal CEPEA/ESALQ foi de R$ 76,59/sc (com queda de 0,62% frente à da semana anterior), as cotações do contrato nº 11 da ICE Futures (Bolsa de Nova York), com vencimento em Maio/16, equivaleriam a R$ 75,56/sc (a média semanal deste contrato subiu 4,66%). Para esse cálculo, foram consideradas as médias semanais de US$ 52,67/t de fobização, de US$ 77,92/t de prêmio de qualidade (esta foi a quarta semana seguida de queda deste prêmio) e dólar a R$ 3,6415 (desvalorização de 0,97%).

No mercado internacional, as altas têm sido impulsionadas pela menor produção mundial de açúcar, em decorrência de problemas climáticos enfrentados principalmente por países asiáticos. A consultoria F.O. Licht elevou a previsão de déficit global de açúcar de 6,5 milhões de toneladas para 7,2 milhões de toneladas. Os embarques da Tailândia – segundo maior exportador global – nesta temporada devem ser 20% inferiores aos da safra passada, somando cerca de 7,1 milhões de toneladas, segundo o Escritório do Conselho de Cana e Açúcar do país. O Brasil exportou 4,199 milhões de toneladas de açúcar de janeiro a fevereiro deste ano, volume 22,4% superior ao do mesmo período do ano passado, segundo a Secex.

Já no spot paulista, a pressão vem, principalmente, do início antecipado da moagem da safra 2016/17 por parte de algumas usinas. A Unica estima que 120 unidades produtoras estejam em operação no Centro-Sul até o final de março, em comparação com as 75 do início deste mês. Além disso, as chuvas neste mês têm sido rápidas, não interrompendo a colheita da cana-de-açúcar por longos períodos. A demanda, por sua vez, segue relativamente baixa. Nessa segunda-feira, 28, o Indicador CEPEA/ESALQ do açúcar cristal cor Icumsa entre 130 e 180, mercado paulista, fechou a R$ 76,84/saca de 50 kg, baixa de 3,23% no acumulado parcial deste mês. (Cepea / ESALQ 29/03/2016)

 

Etanol: Mais usinas iniciam moagem e preço cai

O número de usinas moendo no estado de São Paulo vem aumentando, o que tem elevado a oferta de etanol no mercado paulista e, consequentemente, pressionado as cotações do combustível. O Indicador CEPEA/ESALQ semanal do hidratado (estado de São Paulo) registrou queda de 4,7%, passando para R$ 1,8424/litro (sem impostos, a retirar) entre 21 e 24 de março.

O Indicador do anidro recuou 1,3%, a R$ 2,0578/litro (sem impostos, a retirar). A queda do hidratado na última semana foi a maior do ano, pressionada também pela demanda relativamente baixa das distribuidoras, as compras têm sido pontuais, apenas para reposição de estoques. Nem mesmo o feriado prolongado da Semana Santa motivou maiores aquisições. (Reuters 29/03/2016)

 

Preço do etanol nos postos do Brasil avança 7,9% na entressafra

O preço médio do etanol hidratado, utilizado diretamente no tanque dos veículos, acumulou alta de 7,9% nos postos brasileiros nesta entressafra de cana-de-açúcar 2015/16, entre janeiro e março. A valorização, típica para esta época do ano e acentuada pela demanda robusta de 2015, porém, foi menor do que a de 8,1% observada em igual momento de 2014/15. Os dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), compilados pelo Broadcast Agro, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

Na média nacional, o litro do biocombustível passou de R$ 2,666 no início do ano para R$ 2,878 na semana passada. Em igual intervalo de 2015, o litro do álcool variou de R$ 2,048 para R$ 2,214. Assim, embora a alta de agora tenha sido menos intensa, os preços do hidratado continuam acima daqueles verificados há um ano - o aumento é de 30% se considerada a posição na última semana.

Em São Paulo, principal Estado produtor e consumidor, a valorização nesta entressafra foi de 7,2%, para R$ 2,744 por litro. A alta também foi menor do que aquela registrada nos três primeiros meses de 2015, de 8,5%, para R$ 2,075 por litro.

Um dos motivos apontados para a alta mais acentuada na entressafra de 2014/15 é a recomposição da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), em fevereiro do ano passado. A incidência do tributo em R$ 0,10 por litro de gasolina acabou por impulsionar também o etanol hidratado, seu concorrente direto.

Vale lembrar que o aumento das cotações do álcool é comum no início de cada ano, pois é quando o Centro-Sul do Brasil, principal área produtora de cana-de-açúcar, fabrica menos etanol. A expectativa é de que a produção aumente já a partir do mês que vem, quando tem início oficial a safra 2016/17 na região.

Conforme cálculos da Datagro, os estoques de hidratado em 31 de março devem alcançar 300 milhões de litros, bem menos que os de 1,2 bilhão de litros reportados em igual data do ano passado. A razão para queda está no consumo aquecido de 2015, que chegou a superar os 1,6 bilhão de litros em alguns meses. (Agência Estado 29/03/2016)

 

Governo da Índia estima produção de açúcar ainda menor que a esperada

A Índia reduziu a estimativa de produção de açúcar em 1,4 por cento ante a projeção oficial anterior, disse uma fonte do governo do país nesta terça-feira, uma situação que potencialmente impulsiona os preços e ajuda as usinas em dificuldades financeiras após seis anos consecutivos de excedente na produção.

O país, maior consumidor global e segundo produtor mundial, deverá produzir 25,64 milhões de toneladas de açúcar na temporada de moagem de cana que começou em outubro de 2015, no segundo ano seguido em que a seca cortou a produtividade do canavial.

A nova estimativa foi elaborada após uma reunião de funcionários dos principais Estados produtores, disse a fonte.

A produção do Estado de Maharashtra deve atingir 8,5 milhões de toneladas de açúcar, enquanto Uttar Pradesh produzirá 7 milhões de toneladas. Já Karnataka deve fabricar 3,7 milhões toneladas do adoçante, disse a fonte.

Os preços do açúcar na Índia, que só fica atrás do Brasil em produção, subiram quase 10 por cento desde janeiro, e uma queda na estimativa indiana poderia dar sustentação aos já elevados preços mundiais. (Reuters 29/03/2016)

 

CCEE eleva projeção de preço spot da energia em 2016 com menos chuva no Nordeste

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) reviu para cima suas projeções para o preço da eletricidade no mercado spot, devido a menos chuvas que o esperado nas áreas das hidrelétricas.

O destaque da revisão ficou por conta do sub-mercado Nordeste, onde a previsão de média do ano saltou para 152,58 reais por megawatt-hora, ante 46 reais na previsão anterior, divulgada no mês passado.

Já o preço spot, ou Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), para o sub-mercado Sudeste/Centro-Oeste deverá ficar em uma média de 50,52 reais por megawatt-hora no ano, ante projeção anterior de 35 reais, estimou a CCEE em apresentação publicada em seu site nesta segunda-feira.

No Sudeste, a perspectiva é de que os preços iniciem uma trajetória de alta em julho, até um pico de 81 reais por megawatt-hora em setembro e outubro.

Já no Nordeste a CCEE espera um preço mais elevado, de 285 reais por megawatt-hora, já em abril, ante média de 249 reais em março. A partir daí os preços cairiam até um mínimo de 73 reais por megawatt-hora em agosto, mas não chegariam a atingir o piso de 30 reais, como estimado no mês passado.

O gerente de Preço da CCEE, Rodrigo Sacchi, afirmou que as chuvas na região das hidrelétricas do Nordeste foram bastante positivas em fevereiro, mas voltaram a ficar bem abaixo da média de longo prazo em março, o que deve se repetir em abril, puxando os preços para cima.

Ele também comentou que o fenômeno climático El Niño, que tem favorecido muito as chuvas na região Sul do país, começou a perder força nos últimos meses.

"A intensidade dele vem se reduzindo... ele tende à neutralidade em meados do ano", afirmou.

A CCEE agora prevê que os reservatórios das hidrelétricas do país deverão atingir em junho um pico de 62 por cento da capacidade, ante projeção anterior de 71 por cento no mesmo mês. (Reuters 29/03/2016)

 

Recuperação judicial: entra ruim, sai pior

Fraudes, brigas entre empresas e credores, decisões judiciais controversas. Na teoria, a recuperação judicial é uma ótima forma de salvar empresas. Já na prática...

O empresário José Pupin, maior produtor de algodão do Brasil, soube aproveitar como poucos o crédito farto que irrigou a economia nacional até o hoje longínquo ano de 2014. Em quatro anos, sua área plantada dobrou, até atingir quase 110 000 hectares, o equivalente à cidade do Rio de Janeiro.

Dando seus bens como garantia, Pupin tomou 1 bilhão de reais emprestados e viveu anos de ouro, desfilando por Mato Grosso num carro esportivo Maserati Gran Turismo avaliado em 600 000 reais. Demorou pouco mais de um ano para que a casa caísse. O preço do algodão baixou, os clientes frea­ram, o juro subiu.

Em novembro do ano passado, o rei do algodão apelou para a recuperação judicial para evitar a falência. Em tese, seria um processo simples. Bastaria entregar os pedaços de terra aos credores, renegociar as dívidas e usar a geração de caixa das safras seguintes para pagar as prestações. Mas de simples o processo não tem nada.

Pupin lançou mão de uma brecha na lei brasileira que permite aos produtores rurais salvar os bens pessoais. A ideia da lei era proteger os pequenos agricultores. Às vésperas de entrar com o pedido de recuperação judicial, o rei do algodão se cadastrou como produtor rural. Seus bens garantiam 80% da dívida. Armou-se, então, uma confusão que foi parar no Superior Tribunal de Justiça e não tem data para acabar.

Há atualmente no Brasil cerca de 2 500 empresas em recuperação judicial. No grupo, há companhias famosas e uma imensa maioria desconhecida, mas não menos importante. Empreiteiras como OAS e Mendes Júnior, varejistas como Luigi Bertolli e Barred’s, a viação Itapemirim, a fabricante de autopeças Mangels estão vivendo esse processo, que, por razões óbvias, é típico de crises como a que o país vive.

Agro Vista Alegre – Dívida: R$ 300 milhões

Funcionários dizem que o dono da empresa morreu (os credores não encontram a certidão de óbito) e que seu filho se mudou para Portugal. Com isso, o processo de recuperação está paralisado

O número de novos casos foi recorde em 2015 e já cresceu 116% neste ano. A lei de recuperação judicial foi editada há 11 anos para criar um processo organizado que preserve as empresas em crise e permita a seus controladores renegociar dívidas sem risco de entrar em falência.

Cabe a um juiz supostamente especializado liderar o processo: os empresários, normalmente, são afastados da gestão, um novo administrador é definido pela Justiça, as decisões têm de ser aprovadas pela maioria dos credores e os ativos e as garantias dados pela empresa ficam resguardados.

A promessa é de racionalidade. Na teoria, é ótimo. Mas um olhar mais aprofundado sobre a “recuperação judicial como ela é” mostra uma realidade bem distinta. Os casos de sucesso são pouquíssimos, estima-se que apenas uma em cada 100 empresas saia viva e saudável de uma recuperação judicial. E as histórias de brigas, rolos e fraudes são muito mais comuns do que se suspeita.

É no mínimo inusitado que, com um Poder Judiciário tão caótico quanto o brasileiro, investidores e empresários tivessem alguma esperança de que um processo complexo como uma recuperação judicial fosse ordeiro. Os buracos na lei e as chicanas jurídicas disponíveis são fartos. A lei diz que o processo deve demorar dois anos e que apenas um plano pode ser aprovado.

Infinity Bio-Energy – Dívida: R$ 1,5 bilhão

Um dos credores da Infinity, o fundo Alcana Overseas, questiona na Justiça o arrendamento de uma usina sem o consentimento dos bancos e fornecedores a um condenado por homicídio que está foragido

A empresa de energia Infinity Bio-Energy, que fatura 600 milhões e deve 1,5 bilhão de reais, está tentando emplacar o terceiro plano de recuperação desde 2009. Um dos credores questionou a decisão do administrador judicial de arrendar uma das usinas a um foragido da Justiça por assassinato (e que, portanto, não deve aparecer para pagar as contas), mas o juiz não viu problema.

A geradora de energia Tonon, que deve quase 3 bilhões de reais, conseguiu autorização judicial para usar garantias que estavam protegidas em depósito. A empresa alegou ser um bem perecível, por se tratar de cana. Os credores pediram uma liminar para bloquear os gastos.

Tonon – Dívida: R$ 2,8 bilhões

Os acionistas da Tonon pediram e o juiz liberou o uso de garantias dadas a credores. Estes, barram a decisão com uma liminar – mas uma parte dos recursos tinha sido usada

A soberania das decisões dos credores em assembleia também vem sendo questionada por alguns empresários e administradores, criando mais insegurança no processo. Na recuperação judicial do grupo de construção Schahin, a maioria dos bancos e investidores votou contra o plano e a favor da falência.

Mas os acionistas estão recorrendo ao juiz para invalidar os votos dos credores, já que há casos precedentes. Outras canetadas dos juízes não fazem nenhum sentido econômico, mas dificultam o andamento do processo: a recuperação da mineradora Mineração Caraíba corre sob sigilo, e os credores precisam ir a Jaguarari, no interior da Bahia, para tirar cópias do processo e acompanhar as decisões.

De acordo com credores ouvidos por Exame, os casos mais complexos são aqueles em que é quase impossível dizer onde está o dinheiro da empresa ou de seus donos. Antônio Carlos Gonçalves, dono da produtora e comercializadora de soja e milho Ceagro Agrícola, que fatura 800 milhões de reais, levantou 1,5 bilhão com grandes bancos.

A garantia era uma série de contratos de venda de soja — os investidores ficavam com os pagamentos da venda em garantia e, em caso de inadimplência ou rompimento dos contratos, ficavam com a soja. Parecia uma garantia reforçada.

Mais de 4.000 empresas brasileiras pediram recuperação judicial nos últimos cinco anos e a estimativa é de um novo recorde em 2016

Mas não existia tanta soja assim, em julho de 2015, os compradores não receberam as encomendas e, claro, não pagaram as faturas. Os credores alegam, desde então, que a soma de ativos da Ceagro é menor do que os financiamentos que a empresa tomou, e os bancos agora querem saber onde foi parar o dinheiro que emprestaram.

O banco Indusval chegou a gastar alguns milhares de dólares numa investigação para desvendar se o dono mandou dinheiro para o exterior, mas, por enquanto, só encontrou uma conta nos Estados Unidos com 40 000 dólares (o banco nega a investigação). Em outros dois casos, da varejista Gep, dona da marca Luigi Bertolli, e do grupo JJ Martins, dono da rede de concessionárias carioca Barrafor, os empresários juntaram várias empresas no mesmo bolo da recuperação judicial com a intenção de proteger o máximo de bens possível.

Os grupos dizem que caixa e dívida das empresas se misturam, mas os credores questionam como eles escolheram as empresas que ficaram dentro e fora da recuperação. quem emprestou para a subsidiá­ria que tem operação rentável, por exemplo, não gostou. Uma consequência prática da inclusão de empresas saudáveis na recuperação judicial é impedir que seus bens sejam transferidos a credores de outras companhias do mesmo grupo.

Abengoa – Dívida: R$ 2,3 bilhões

A Abengoa depende da agência reguladora Aneel para definir um plano – para vender ativos e concessões, precisa saber se o governo vai manter os contratos e abrir mão de multas

Para os bancos, o caos de processos de recuperação judicial cria um enorme problema. O sistema bancário brasileiro é altamente concentrado, o que faz com que os grandes bancos sejam credores em quase todas as recuperações judiciais. Só o Banco do Brasil é credor em cerca de 2 000 processos.

O problema não é só o prejuízo gerado pelo deságio da dívida, mas os efeitos sobre sua capacidade de conceder crédito. Pelas regras do Banco Central, as dívidas de empresas em recuperação judicial precisam ser integralmente provisionadas, o que piora os índices de inadimplência do banco.

Muitas empresas só conseguirão sair do sufoco se tiverem acesso a novos empréstimos, mas estes também precisam ser provisionados do mesmo jeito. O banco, naturalmente, teme fazer novos financiamentos para ajudar a viabilizar um plano de recuperação, já que corre o risco de jogar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim.

Solução privada

Nos Estados Unidos, é comum que investidores especializados aproveitem esse espaço para emprestar dinheiro a quem é visto como radioativo pelos bancos. Mas, no Brasil, o vaivém de juízes e credores atrapalha bastante.

O medo de brigas é tão grande que, até hoje, apenas a petroleira OGX e a empreiteira OAS recorreram ao financiamento conhecido como “dip” (do inglês debtor in possession), em que o novo credor tem preferência em relação aos demais. Nos dois casos, parte dos credores tentou barrar na Justiça esse direito.

A OGX parou de produzir petróleo em março e hoje é uma empresa inoperante. Na OAS, a briga também foi em vão, já que, depois que a empresa conseguiu a aprovação do financiamento na Justiça, a canadense Brookfield, que daria o financiamento, desistiu do negócio. Não surpreende, portanto, que muitos credores estejam fugindo da recuperação judicial sempre que podem.

Hoje, empresas com dívidas somadas de mais de 100 bilhões de reais estão adotando o que se chama de “reestruturação privada”. O devedor chama meia dúzia de bancos à mesa e discute um plano de reestruturação, sem que os credores tenham de alardear as perdas em seus balanços.

Mas, de novo, parece mais simples na teoria do que é na prática — só funciona se os resultados da empresa melhorarem, o que não tem sido muito fácil numa recessão como a atual. Se isso não acontece, a única saída é a recuperação judicial. E, aí, seja o que Deus quiser. (Exame 29/03/2016)

 

Bertin tem autorizações de mais seis térmicas revogadas

Atrasos no cronograma provocaram prejuízos de R$ 6,25 bilhões, segundo Aneel.

A Agência Nacional de Energia Elétrica revogou as autorizações para implantação das termelétricas MC2 Camaçari II, MC2 Camaçari III, MC2 Governador Mangabeira, MC2 Nossa Senhora do Socorro, MC2 Santo Antônio de Jesus e MC2 Sapeaçu, outorgadas a Bertin Energia. A penalidade é resultante do descumprimento do cronograma de implantação dos empreendimentos, que negociaram energia nos leilões A-3 de 2008 e A-5 de 2011. A Aneel calcula em R$ 6,25 bilhões o prejuízo provocado pelo atraso das usinas.

Além de cassar as outorgas, a agência vai executar as garantias de fiel cumprimento dos contratos. Ela também vai avaliar se cabe a aplicação de outras punições à empresa, entre elas a proibição de assinar contratos com a administração pública.

O processo de extinção das outorgas da Bertin havia sido suspenso por decisão judicial, que condicionou a retomada do processo pela agência à apreciação de uma série de pedidos apresentados pela geradora. A autarquia considerou que todas as condições foram cumpridas com a avaliação dos dois últimos pleitos relacionados às usinas.

No primeiro deles, a agência negou o excludente de responsabilidade pelo atraso da obra, com a postergação das datas para início de suprimentos dos contratos de energia; e indeferiu o pedido de alteração das configurações de instalações de transmissão de uso exclusivo dos empreendimentos. No segundo processo, a agência manteve a decisão de cassar as autorizações.

As seis térmicas do grupo Bertin ficariam localizadas no município de Candeias, na Bahia, e teriam 176 MW de capacidade instalada cada uma. O grupo foi autorizado a mudar a localização das usinas para o cluster Aratu, onde elas ocupariam o lugar de outros seis empreendimentos do grupo cujas outorgas haviam sido revogadas pela Aneel, também por atraso no cronograma de implantação.

O diretor Reive Barros, que relatou o processo de revogação, destacou que haveria benefícios para o consumidor caso essas usinas tivessem entrado em operação em 2013. O cumprimento dos contratos seria especialmente importante em 2014 e 2015, em razão da crise hidrológica.

Para o diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, a decisão desta terça-feira, 29 de março, marca o fim de um longo processo, no qual a empresa sempre recorreu de forma insistente. Rufino disse que não faltou oportunidade para que os empreendimentos fossem realizados. “É um caso que deu muito trabalho e teve o desfecho esperado”, avaliou o diretor. (Reuters 29/03/2016)

 

Commoditites Agrícolas

Café: Vendas de fundos: A valorização do dólar em relação a outras moedas no mercado internacional motivou uma onda de vendas por parte de fundos de investimentos e determinou a queda das cotações do café na quinta-feira na bolsa de Nova York, informou a agência Dow Jones Newswires. Os contratos com vencimento em março encerraram a sessão negociados a US$ 1,2785 por libra-peso, queda de 185 pontos, enquanto os papéis para entrega em maio recuaram 190 pontos, para US$ 1,3020. Apesar dos baixos estoques globais do produto, as previsões de boa safra no Brasil pressionam as cotações, conforme traders nova-iorquinos. No mercado doméstico, a saca de 60,5 quilos de café de boa qualidade saiu entre R$ 280 e R$ 290, conforme o Escritório Carvalhaes, de Santos.

Algodão: Consumo desacelerado: Os preços do algodão na bolsa de Nova York tiveram forte queda na quinta-feira com o sinal de que os mais altos preços em dois anos estão desacelerando as exportações dos EUA. Os papéis com vencimento em maio fecharam ontem em 81,82 centavos de dólar por libra-peso, queda de 115 pontos. Também ajudaram a sustentar a queda a avaliação de que o ganho no dólar vai reduzir o apelo pelas commodities como alternativa de investimento. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, informados pela Bloomberg, as exportações americanas na semana encerrada em 25 de fevereiro foram de 133 mil fardos, menos da metade da média semanal registrada neste ano. No mercado interno, a arroba do produto fechou em R$ 44,80 em Rondonópolis, segundo o Imea/MT.

Soja: Piso em três semanas: A valorização do dólar, o avanço da colheita na América do Sul e o limitado interesse de importadores determinaram a queda das cotações da soja na quinta­feira na bolsa de Chicago. Segundo a Dow Jones Newswires, os contratos com vencimento em março fecharam a US$ 9,3250 por bushel, baixa de 22 centavos de dólar, ao passo que os futuros para entrega em maio recuaram 21,50 centavos de dólar, para US$ 9,42. É o mais baixo patamar de preços em três semanas, e se a demanda chinesa não reagir novas retrações poderão acontecer, conforme traders em Chicago. Em Rondonópolis (MT), as ofertas de compra e venda pela saca de 60 quilos ficaram em R$ 29, de acordo com o Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea).

Trigo: Exportações menores: Sinais de que a demanda por trigo americano também pode declinar sustentaram a queda do trigo na quinta-feira nas bolsas americanas. Os futuros para maio na bolsa de Chicago fecharam em US$ 5,0225 o bushel, queda de 13,50 centavos, e o mesmo vencimento em Kansas encerrou o pregão em US$ 5,0775, recuo de 10,25 centavos. Segundo informações do departamento de agricultura dos Estados Unidos, reportadas pela Bloomberg, os exportadores americanos venderam 101,585 mil toneladas na semana finalizada em 25 de fevereiro, queda de 73% em relação à semana anterior. No mercado interno, a saca de 60 quilos do cereal fechou o dia de ontem em queda de 0,46% em R$ 23,91, segundo o Deral, da Secretaria de Agricultura do Paraná. (Valor Econômico 30/03/2016)