Setor sucroenergético

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O eterno aprendiz da agroenergia

No final de 1982, prestes a se formar, o estudante de engenharia de produção Pedro Mizutani viu um anúncio escrito na lousa da sala de aula na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, na capital paulista. Era uma vaga de emprego para um trabalho na área financeira de uma usina de cana-de-açúcar de Piracicaba (SP). Na época, Pedro pensava em voltar para sua cidade natal, Ribeirão Preto, de onde saíra para estudar.
Trabalhando em um banco na capital paulista, ele sofria com as condições de transporte que o obrigavam a fazer longos deslocamentos entre a faculdade, o trabalho e a casa, além de não se adaptar ao frio que afetava as vias respiratórias do jovem acostumado ao proverbial calor de Ribeirão. Formado, largou o emprego no banco e tomou o rumo do interior. "É aqui mesmo que eu vou ficar. Fico por um tempo e depois vou para Ribeirão Preto."
Quando chegou à Usina Costa Pinto, no começo de 1983, Mizutani foi trabalhar em um escritório que funcionava em um dos quartos de uma antiga casa de colonos da fazenda. Acostumado ao bem-estar do banco, ficou impressionado. "Será que eles vão conseguir pagar o meu salário?", recorda de ter pensado.
O ambiente, de fato, era quase todo estranho. Seus pais tinham saído do Japão ainda muito pequenos. No Brasil, foram parar em Ribeirão Preto em busca do enriquecimento com lavouras de café. O plano, como o de quase todos os imigrantes japoneses, era fazer dinheiro e voltar ao país de origem. Também como quase todos os que vieram, ficaram. Aos sete anos, Pedro começou a trabalhar com a família no comércio de tomates em Ribeirão. Foi assim até entrar na faculdade.
Começou na engenharia mecânica, mas logo passou para a engenharia de produção. Formado, se viu em Piracicaba. Hoje, relembrando sua história, o homem que foi decisivo para a formação de um dos maiores grupos energéticos do mundo, a Cosan, relembra da importância daquele período em na cidade natal. "O tomate me ensinou muita coisa. Quando você começa a trabalhar em feira, você usa muito no ramo executivo. Hoje eu consigo associar muita coisa que eu aprendi em outra dimensão no ramo que eu trabalhava. Aquele aprendizado lá atrás você usa hoje, com outra demanda, mas usa", conta.
Com o início das aquisições da Usina, em 1988, Mizutani precisou assumir uma função maior em uma empresa menor. Teve receio. Passaria de uma usina que produzia cerca de 4 milhões de toneladas para uma que produzia um milhão "Para você dar um salto maior, você tem que agachar um pouco", disse um dos diretores da empresa. "Acabei indo, foi lá que eu conheci o Rubens Ometo", recorda, referindo-se a um dos herdeiros da Costa Pinto e um dos donos da Cosan. "Eu estava num cargo menor, mas numa grande empresa. E assumi um cargo maior numa empresa menor. Os profissionais hoje ficam com medo de assumir uma empresa menor. Quando você está em uma grande empresa, você é parte dela. Quando está em uma pequena, você é o todo. Você crescer junto com a empresa é um fator preponderante na sua vida."
Hoje, Mizutani reconhece a importância da transição. "Foi a grande oportunidade da minha vida porque passei a ter contato direto com acionistas. De lá fui voltando para grandes empresas", relembra.
Formar o conglomerado de usinas que resultou na Cosan foi o maior desafio. "Como consolidar a aquisição de vinte e quatro unidades? Eram acionistas diferentes, com culturas diferentes. Você tem que fazer um processo de aculturação em que todas falem a mesma linguagem e pensem da mesma forma."
Aquele anúncio na lousa o levou a participar da formação de um dos maiores grupos empresariais do país. "Acabei ficando, participando de todo o desenvolvimento desse grupo que é hoje". O passo mais recente foi a criação da Raízen, uma joint venture entre a Shell e a Cosan, e uma das principais empresas do setor energético do mundo. Hoje, Mizutani ocupa a vice-presidência executiva da diretoria de Relações Externas e Estratégia.
"Sempre vai haver oportunidades para um profissional que está disposto a aprender. Você nunca pode parar. Quando você achar que você sabe tudo é o fim da sua carreira profissional e da sua vida também".
Viver cantando
Viver a vida também é importante. Mizutani se orgulha de hobbies como a prática de tênis e, principalmente, de cantar. Já venceu campeonatos estaduais, nacionais e internacionais de karaokê. Tem até mesmo um título de vice-campeão no Japão de seus pais.
E assim como os pais não voltaram ao Japão, Misutami não voltou para Ribeirão como queria inicialmente. Vivem até hoje em Piracicaba, entre suas funções executivas, as aulas que ministra nas faculdades ("a forma mais fácil de se manter atualizado") e as seções de karaokê nos finais de semana.
"Meu grande aprendizado foi que o que melhor sobrevive não é o mais forte, mas o que melhor se adapta. O grande segredo do sucesso profissional é ser adaptado a qualquer tipo de mudança", diz, lembrando o naturalista inglês Charles Darwin. "Acho que esse foi o grande aprendizado da minha vida".
Hoje, Pedro se diz muito preocupado em deixar cultura para as gerações futuras. "Isso também faz a gente viver melhor. São duas coisas importantes, adaptabilidade e conciliar a vida pessoal com a vida profissional."
No fim das contas, faria tudo outra vez. "Foi uma vida fantástica. Se tivesse que começar de novo eu começaria tudo de novo". (Globo Rural 01/07/2016)
 

Odebrecht Agroindustrial rola dívida bancária de R$ 10 bilhões

Enrolada até o pescoço na Lava Jato, a Odebrecht está prestes a resolver ao menos um de seus problemas: o acordo com bancos para rolar a dívida de R$ 10 bilhões da Agroindustrial. Na noite de sexta, acertavam os últimos detalhes.
A dívida será paga em treze anos. Pelos próximos cinco anos, a empresa não precisará pagar parcelas do financiamento, apenas juros. Entre os credores, estão BNDES e o BB. (Folha de São Paulo 02/07/2016)
 

Avanço na geração por biomassa de cana é limitado

Desde o ano passado as usinas de açúcar e etanol voltaram a respirar ­ houve reajuste dos combustíveis e escassez de açúcar no mercado internacional, com reflexo nas cotações. O realismo tarifário e o contexto mais favorável aos produtores têm servido para reestruturar dívidas e reduzir o peso do endividamento nos balanços das usinas, após a série de anos desfavoráveis. Até aqui, contudo, nada de novos investimentos à vista, a não ser pequenos projetos pontuais de expansão.
A ampliação da geração de energia a partir da biomassa da cana, opção defendida pela Organização das Nações Unidas e ONGs ambientalistas, avança lentamente, dizem os profissionais do setor. Compromissos internacionais à parte, o sentimento geral é que o país não tem sabido aproveitar devidamente esse potencial. "Hoje temos capacidade de produzir energia, a partir da queima do bagaço, equivalente a 27% de toda a energia produzida no país", diz Rui Chammas, diretor-presidente da Biosev. "Até o ano passado a participação da biomassa na matriz energética brasileira era de 6,9%", afirma o executivo.
A lista de entraves passa pelos investimentos necessários para aumentar a capacidade de geração, considerados altos especialmente no caso das caldeiras de alta pressão e nas linhas de transmissão necessárias para ligar a unidade produtora ao sistema elétrico nacional. "Quanto menor a disponibilidade de redes de transmissão e distribuição próximas, maiores são os investimentos necessários para exportar energia adicional de biomassa", avalia Chammas. Ao contrário dos grandes projetos hidrelétricos, em que são feitas licitações à parte para transmitir a energia gerada. "Além do custo de investimento, a disponibilidade de crédito, a disponibilidade de capital das próprias empresas e as taxas de juros também têm impacto na expansão da oferta", diz.
Zilmar de Souza, gerente de bioeletricidade da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), considera que os 20 megawatts/hora gerados no ano passado, o maior volume já produzido pelo país, pode ser considerado "bastante satisfatório". Segundo ele, ainda que em ritmo aquém do que o desejado, esse crescimento tem se mantido nos últimos anos. "Em 2007 e 2008, quando tivemos aquele bom momento do etanol, houve uma expansão muito forte da capacidade, que às vezes demora alguns anos para entrar em geração, e em seguida veio a crise."
Em 2010, recorda o executivo da Unica, a capacidade instalada no país para gerar energia a partir da biomassa cresceu 1.750 megawatts/hora, o equivalente a 12% do que pode gerar Itaipu. Em 2016, segundo estimativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a previsão é instalar 746 megawatts/hora. E, em 2020, mais uma vez segundo a Aneel, será um incremento ainda menor, algo como 149 megawatts/hora. "A biomassa chegou a representar, em 2009 e 2010, cerca de 30% da expansão do setor elétrico, mas neste ano, só cerca de 7%. Se nada for feito, em 2020 esse índice cairá para aproximadamente 3%", diz Souza.
Fornecedora de tecnologia para as usinas geradoras, a americana General Eletric (GE) aposta que nos próximos anos o país mudará de patamar na geração de energia a partir da biomassa, segundo Rickard Schäfer, líder de vendas da divisão distributed power da GE Power para o Brasil. "O mercado de bioenergia ainda está em desenvolvimento no Brasil, no caso da biomassa da cana, mas principalmente no uso de esgoto e de resíduos sólidos para a produção de energia. Temos várias parcerias com empresas de coleta de lixo para gerar biogás", diz Schäfer. "Também temos tecnologia para gerar energia a partir dos resíduos de empresas de agronegócio, como de açúcar e etanol, mas também de setores industriais, como o de bebidas. Vamos viver um boom nessa área nos próximos anos."
Segundo estimativa da GE, o país possui um potencial de gerar "5 gigawatts de energia" a partir apenas dos resíduos de cana-de-açúcar. "Existem várias fontes com excelente potencial de geração de energia e que ainda não estão sendo usados", diz o executivo da GE. Schäfer chama atenção para um aspecto da crise vivida pelo setor sucroalcooleiro nos últimos anos: "Nos anos difíceis, só sobreviveram as usinas que puderam gerar energia a partir de biomassa", avalia Schäfer.
Em parceria com a Sanepar, a empresa paranaense de saneamento básico, e a Cattalini Bioenergia, como sócia na joint­venture criada para tocar o empreendimento, a GE investe para gerar energia a partir de resíduos colocados em biodigestores, inclusive do esgoto. A GE entrou com os motores para a geração de energia térmica e elétrica. "Esse é o primeiro projeto dessa natureza na América Latina. Vemos aí também um potencial muito grande de expansão", diz Schäfer.
Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o físico e exministro do meio ambiente José Goldemberg defende que o país lance um programa amplo nessa área. "Segundo estudos, com 5 milhões de hectares de novas florestas, o que não é tanto assim, o Brasil poderia, queimando biomassa, produzir uma parcela significativa da sua necessidade de eletricidade”. (Valor Econômico 04/07/2016)
 

Álcool de segunda geração ainda precisa conseguir escala industrial

A transição da fase experimental para a produção em escala industrial da tecnologia do etanol de segunda geração (E2G) ainda não se completou. O E2G é produzido a partir de biomassas. No Brasil são utilizadas novas variedades de cana, com maior conteúdo energético, e também o bagaço e a palha da cana. O potencial dessa fonte de energia é significativo. Relatório do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aponta o E2G como capaz de eliminar a dependência brasileira por combustíveis importados, gerar um novo ciclo de investimentos em química renovável e estabelecer o Brasil como referência mundial em biorrefinarias. Mas nenhuma das usinas que utiliza a tecnologia trabalha a plena carga.
A pioneira foi a usina Bioflex 1, que entrou em operação em setembro de 2014 em São Miguel dos Campos, Alagoas. A unidade, pertencente à GranBio, recebeu investimentos de R$ 350 milhões e tem uma capacidade projetada para 82 milhões de litros anuais. Em 2015, a usina produziu quatro milhões de litros de etanol. Em abril deste ano, a empresa paralisou temporariamente sua fábrica para fazer ajustes na unidade de pré-tratamento da biomassa ­ uma das principais etapas da produção do E2G.
Alan Hiltner, vice­presidente de negócios da GranBio, diz que a previsão é que a usina volte a operar em breve e aumente gradativamente a produção até chegar aos 100% de capacidade. "Alguns desafios precisam ser superados para o desenvolvimento da indústria do E2G. São prerrogativas do pioneirismo", diz.
A GranBio, em 2014, chegou a anunciar planos para produzir, por meio de parcerias, um bilhão de litros de E2G por ano até 2020. Agora está mais cautelosa. "Os próximos investimentos em unidades industriais serão anunciados após a resolução das questões tecnológicas relacionadas à Bioflex 1", diz.
Outro propósito da GranBio é o desenvolvimento de novas variedades de cana com mais conteúdo energético, a chamada cana-energia. Em março, a companhia lançou as primeiras variedades comerciais da cana vertix, que apresenta uma produtividade de 180 toneladas por hectare, praticamente o dobro da cana tradicional. "É uma matéria-prima mais barata e produtiva para etanol de primeira e segunda geração."
A Raízen inaugurou sua primeira usina de E2G em novembro de 2014, após investimentos de R$ 230 milhões. A unidade em Piracicaba (SP) foi erguida ao lado da usina de etanol convencional Costa Pinto, que pertence ao grupo, com capacidade para produzir 40 milhões de litros por ano. João Alberto Abreu, vice­presidente da Raízen, informa que em 2015 a unidade produziu um milhão de litros e, nos cinco primeiros meses de 2016, a produção atingiu 1,3 milhão de litros.
O problema constatado é que a biomassa chega à produção com muita impureza mineral, terra principalmente, gerando desgaste nos equipamentos mecânicos. "Estamos desenvolvendo processos para reduzir essas impurezas", diz. Segundo Abreu, não há previsão para a resolução dos problemas.
A Raízen, informa o executivo, mantém seus planos iniciais de erguer novas usinas E2G ao lado de suas unidades convencionais para facilitar a logística da palha e do bagaço, mas o sinal verde para novas instalações depende da evolução do processo. "Os investimentos só serão retomados quando a produção do E2G se demonstre estável e plena", diz.
A terceira linha de produção de E2G no Brasil foi instalada na Usina São Manoel, no interior paulista, ligada ao sistema Copersucar. Trata-se de uma unidade de demonstração desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), com capacidade para três milhões de litros por safra. Por ora, opera em regime não continuo.
Viler Janeiro, diretor de assuntos corporativos do CTC, diz que a unidade em São Manuel enfrenta as mesmas dificuldades observadas nas outras usinas de E2G e que a instituição trabalha na busca de soluções técnica e economicamente viáveis. "A viabilidade econômica está a caminho", diz.
Janeiro avalia que em cinco anos a tecnologia de E2G deve estar competitiva. "À medida que os desafios sejam superados, a difusão da tecnologia deve ser bastante rápida", afirma. "O Brasil tem potencial enorme para produção de E2G, principalmente em função da disponibilidade de biomassa da cana". A CTC, informa, está em contato com vários potenciais interessados na tecnologia. (Valor Econômico 04/07/2016)
 

Açúcar: Redução da moagem

Os contratos futuros do açúcar demerara registraram alta na última sexta-feira, refletindo o menor ritmo de moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil.
Os papéis com vencimento em março de 2017 fecharam o pregão a 20,84 centavos de dólar a libra-peso, valorização de 41 pontos.
De acordo com relatório da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), o processamento de cana no Centro-Sul do Brasil ao longo da primeira quinzena de junho foi 34,9% menor que o observado no mesmo período do ano passado, totalizando 25,8 milhões de toneladas.
Com a moagem mais lenta, a produção de açúcar foi 39,4% menor na mesma comparação.
Em São Paulo, o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal ficou em R$ 87,90 a saca de 50 quilos na sexta-feira, alta de 0,05%. (Valor Econômico 04/07/2016)
 

Safra cresce, mas produção de etanol deve estacionar

A safra de cana-de-açúcar 2016/2017, iniciada em abril, deverá ser recorde, com 691 milhões de toneladas colhidas, um aumento de 3,8% em relação à safra anterior, encerrada em março. A expansão não resultará em aumento na produção de etanol, que deve até mesmo apresentar ligeira queda, de 0,4%, em relação à safra anterior, somando 30,3 bilhões de litros, prevê a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A produção de açúcar deve crescer 12%.
Guilherme Pessini, gerente sênior de agronegócios no Itaú BBA, diz que as usinas privilegiam a produção de açúcar nesta safra em decorrência da valorização do produto no mercado internacional em 50% no prazo de um ano. A razão é um déficit global do produto que pode chegar a 10 milhões de toneladas no ano e ainda se prorrogar por 2017. "Hoje o açúcar gera um ganho 20% maior ao produtor do que o etanol", afirma.
Em 2015 o consumo de etanol (anidro e hidratado) no país cresceu 19,6% para 28,79 bilhões de litros, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A comercialização de etanol hidratado, que abastece diretamente os veículos, cresceu 37,5%, chegando a 17,86 bilhões de litros. Já o consumo de gasolina automotiva foi de 41,13 bilhões de litros, queda de 7,3%.
Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), diz que o maior empenho das usinas em produzir açúcar na atual safra não irá prejudicar a oferta de etanol. "O abastecimento está garantido", diz. Em 2015 foram exportados pelo país dois bilhões de litros de etanol, neste ano será 1,5 bilhão. "A diferença de 500 milhões de litros será encaminhada ao mercado interno", afirma.
O crescimento na demanda por açúcar e etanol não são suficientes, por ora, para estimular investimentos em expansão da capacidade produtiva do setor. Desde 2010, um total de 70 usinas encerrou atividades no país e várias entraram em recuperação judicial. A dívida das empresas do setor, segundo estimativa do Rabobank, ronda R$ 94 bilhões. "A prioridade do usineiro hoje é equalizar a estrutura financeira e investir na renovação do canavial", diz Andy Duff, analista do Rabobank.
Por dificuldades financeiras, a taxa de renovação da área plantada caiu de 21% em 2011 para 10% em 2015, conforme dados da Unica, reduzindo a produtividade da colheita. "A safra atual só é recorde devido a condições climáticas favoráveis", diz o analista.
Os problemas do setor têm origem em um ciclo de cinco anos, encerrado agora, de baixa nas cotações internacionais do açúcar, que coincidiu, no Brasil, com a estratégia do governo federal adotada desde 2010 de interferir nos preços dos combustíveis para controlar a inflação. "Estamos iniciando um ciclo de alta, mas é um ciclo. Não há um cenário de longo prazo que permita planejar aumento da capacidade de produção", diz João Alberto Abreu, vice-presidente da Raízen, companhia que em suas projeções iniciais estima uma colheita de 60 a 64 milhões de toneladas de cana na safra 2016/2017 e destinar, como faz historicamente, por volta de 57% do total para a produção de açúcar.
Joacyr Costa Filho, diretor da Tereos para o Brasil, diz que a retomada dos investimentos no setor só ocorrerá com estabilidade nas políticas de preços dos combustíveis no país e a adoção de um marco regulatório do setor que crie incentivos aos combustíveis renováveis, garantindo a competitividade diante dos combustíveis fósseis. "O etanol gera benefícios ao ambiente e a saúde pública, são diferenciais que devem ser valorizados", diz. Na safra 2016/2017, a Tereos projeta uma produção de 1,7 milhão de toneladas de açúcar e 710 mil m³ de etanol.

No ano passado, em Paris, na Conferência das Partes (CoP­21) sobre o Clima da ONU, o governo brasileiro assumiu o compromisso de ampliar de 6% para 18% até 2030 a participação dos biocombustíveis na matriz energética do país. Nos cálculos da Unica a meta exigirá uma produção anual de 50 bilhões de litros de etanol. "O anúncio na CoP­21 não foi acompanhado, até agora, de nenhuma política para viabilizar essa meta", diz Pádua Rodrigues. (Valor Econômico 04/07/2016)

 

 

 

La Niña pode ter efeitos diversos sobre os canaviais brasileiros

De acordo com a INTL FCStone, o fenômeno deve ter intensidade fraca e atingir o pico no segundo semestre
As principais culturas agrícolas brasileiras estariam suscetíveis a um efeito moderado da provável transição do El Niño para o La Niña – fenômeno que consiste na diminuição da temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico Tropical Central e Oriental, e causa mudanças nos padrões de temperatura e precipitação ao redor do mundo.

Em estudo especial que prevê os impactos climáticos deste fenômeno no campo, a INTL FCStone destaca que, para os grãos (soja e milho) e para a cana-de-açúcar, o La Niña tenderia a ter impactos mais intensos nos períodos de plantio e desenvolvimento das lavouras, com um clima mais seco. (INTL FCStone01/07/2016)

 

 

 

E agora José – Por Arnaldo Luiz Corrêa

Sirvo-me do famoso poema do mais influente poeta, contista e cronista brasileiro, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Seu poema "José" escrito à época da II Guerra Mundial levantava dúvidas sobre o futuro e o destino cheio de incertezas que afligia a todos naqueles tempos difíceis que, não obstante as vicissitudes, não desanimava a força de José que prosseguia seu caminho, mesmo sem saber para onde ir.
O mercado de açúcar está como o José, de Drummond. Pergunta a si mesmo para onde vai depois que essa exagerada onda altista passar? E levanta dúvidas sobre o futuro dos preços apesar de o atual quadro não ter a dramaticidade do personagem Drummondiano.
Quem em sã consciência acreditava que veríamos esse nível de preços tão prematuramente? Os fundamentos do açúcar, discutidos aqui à exaustão, apontavam acertadamente para preços acima dos níveis que estávamos acostumados no final do último trimestre de 2015 quando os preços médios estavam ao redor de 14.50 centavos de dólar por libra-peso. Assinalamos que os preços poderiam ir alcançar 18 centavos no último trimestre de 2016. No mundo real, eles bateram 18 no início de junho, 19 dois dias depois, 20 em duas semanas e 21 centavos de dólar por libra-peso antes do mês de junho expirar. Para onde vamos, José?
Várias teorias procuram decifrar esse quebra-cabeças. Veja bem: um mercado que - em tese - sobe sob a perspectiva de falta do produto não deveria apresentar empresas entregando mais de um milhão de toneladas no vencimento julho (expirado na quinta-feira), mas apresentou. O argumento é que a entrega representa não um problema de demanda, mas sim uma acomodação das dificuldades logísticas que deverão surgir ao longo dos próximos meses. O fato de o recebedor ter a bolsa como contraparte ao invés de correr o risco do não cumprimento contratual por parte de usinas do Centro-Sul com problemas creditícios é um argumento forte, mas não explica tudo.
Se a China pode ser um provável comprador de açúcar ao longo deste ano em função dos problemas climáticos que afligem não apenas aquele país, mas também a Índia, a Tailândia e o Brasil, porque uma trading chinesa entregaria açúcar contra o vencimento julho? Será que ela sabe de algo que o restante dos mortais não sabe? Se o mercado sobe porque – segundo alguns – os vendidos a descoberto compram opções de compra para diminuir o impacto das chamadas de margem, porque então a volatilidade das opções caiu?
O mais sintomático nesse mercado agitado é o que um trader comentou sobre a “teoria do Capeta”, uma maneira jocosa de zombar dos responsáveis pela área comercial daquelas usinas que tratam o negócio de maneira adequada, tendo feito os hedges de venda nos momentos apropriados e, agora, tem que ouvir de seus respectivos conselhos de administração e acionistas observações sobre “gente que fez o hedge em níveis muito mais altos”. É fato que as empresas menos favorecidas financeiramente, não conseguiram efetuar o hedge da safra 2016/2017 por absoluta falta de crédito e se veem agora bafejadas pela sorte e com a oportunidade de fazer suas proteções a preços 500-600 pontos acima da média de empresas muito bem administradas. É um soco no baço, mas é verdade. Vamos ver empresas AAA com nível médio de fixações em NY muito abaixo das empresas ZZZ.
Os fundos continuam quebrando recorde atrás de recorde e estão agora com mais de 333 mil contratos comprados no mercado de açúcar em NY. Um número que representa cerca de 17 milhões de toneladas de açúcar, ou aproximadamente 1/3 do volume anual do produto comercializado no mercado internacional.
NY encerrou o pregão da sexta-feira com o vencimento outubro negociando a 20.78 centavos de dólar por libra-peso, uma valorização de mais de 35 dólares por tonelada na semana. Embora a valorização em dólares por tonelada tenha sido substancial, a valorização em reais por tonelada foi bem menor, ou apenas R$ 60. Nos últimos 20 pregões de NY nota-se uma estreita correlação entre a variação da moeda americana em relação ao real e as cotações de açúcar em NY. A correlação chegou a 0.8400, o que demonstra que o real tem sido o principal indicador de tendência no mercado de açúcar em NY. Como o real se valorizou tremendamente nos últimos pregões existe uma predisposição do Banco Central do Brasil em conter a apreciação da moeda brasileira. Minha leitura é que o mercado está pesado e precisa de uma realização para sobreviver. Não acho difícil que o mercado corrija essa abrupta valorização em torno de 300-400 pontos.
Dois parâmetros ouvidos nas rodas de discussão pela semana que passou: um é sobre os valores em reais por tonelada, que alcançou o ponto mais alto em 15/junho a R$ 1.570. Acreditamos que muitas empresas vão fixar seus açúcares a partir de R$ 1.600 por tonelada para 2017/2018 (estima-se que entre 20-25% já estejam fixados). Outro é sobre o fato que acima de 500 euros por tonelada, o produtor europeu se sente mais à vontade de crescer na produção. Esse valor representa aproximadamente 24 centavos de dólar por libra-peso. A compra de uma put (opção de venda) de 19 centavos de dólar por libra-peso e a venda de uma call (opção de compra) a 24 centavos de dólar por libra-peso pode ser uma excelente estratégia.
O destaque da semana foram ¾ de milhão de dólares gastos na compra de calls (opções de compra) de 40 centavos de dólar por libra-peso. Haja otimismo.
E agora, José? A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. E agora, José? Para onde vai esse mercado?
Reserve na sua agenda: estão abertas as inscrições para o 26° Curso Intensivo de Futuros, Opções e Derivativos Agrícolas a ser realizado nos dias 27, 28 e 29 de setembro de 2016 das 9 às 17 horas em São Paulo - SP. Para mais informações contate priscilla@archerconsulting.com.br.
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(Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting - Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.)