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Pesquisadores mapeiam toda a população de microrganismos da cana

Um único exemplar de cana-de-açúcar é lar de 23.811 tipos de bactérias e 11.727 grupos diferentes de fungos. O achado é de pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que realizaram o mapeamento completo e inédito das comunidades de microrganismos que habitam todos os tecidos da cana, da raiz às folhas.

A pesquisa, realizada no Laboratório Central de Tecnologias de Alto Desempenho em Ciências da Vida (LaCTAD), que conta com o apoio da FAPESP na modalidade Equipamentos Multiusuários (EMU), teve dois artigos publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature; o primeiro no dia 30 de junho, relatando o mapeamento completo do microbioma, o conjunto de microrganismos que vivem nos diferentes órgãos da planta; o segundo, publicado na terça-feira (12/07), apresenta um novo método para o isolamento e o cultivo de coleções dessas populações para o estudo das funções que elas desempenham para a planta.

Isso porque a micro-biota dos vegetais, como a dos animais, medeia interações importantes entre o organismo e o seu meio, entre as quais, nas plantas, está a conversão do nitrogênio atmosférico em compostos nitrogenados, utilizados na síntese de proteínas. Mas, de acordo com os pesquisadores, sem o mapeamento completo do microbioma não seria possível conhecer mais a fundo essa relação, cuja compreensão pode fazer avançar a biotecnologia voltada para a produção agrícola sustentável.

“Existe uma comunidade de microrganismos habitando todos os organismos superiores que é fundamental para o favorecimento do sistema imune nos animais, no homem e nas plantas, atuando inclusive na defesa contra patógenos. No entanto, é de conhecimento da comunidade científica pouco mais do que meia dúzia de funções desempenhadas pelas bactérias e fungos dos vegetais, e estudos que avaliam a diversidade, a estrutura e o impacto dessa microbiota em culturas de importância econômica ainda são raros. Esses dois papers trazem uma nova visão do microbioma da cana e de como acessá-lo para desenvolver tecnologias baseadas na associação entre plantas e microrganismos”, disse Paulo Arruda, professor do Departamento de Genética e Evolução do IB-Unicamp.

Os pesquisadores realizaram um inventário completo da estrutura e da composição das comunidades bacterianas e fúngicas associadas à cana. As mais de 35 mil espécies de bactérias e fungos mapeadas habitam o interior e a superfície de raízes, brotos e folhas.

“Esses milhares de tipos de microrganismos não devem estar contribuindo apenas para a meia dúzia de funções da microbiota da planta que são conhecidas atualmente. Trata-se de uma caixa-preta da biologia a ser desbravada”, disse Arruda, que também coordena o Centro de Biologia Química de Proteínas (SGC-Unicamp), apoiado pela FAPESP por meio do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

Mapa dos microrganismos

A identificação massiva das espécies de microrganismos que habitam a cana foi possível graças ao uso de um sequenciador de segunda geração, cuja tecnologia permite sequenciar marcadores de DNA microbiômico presentes em amostras de raiz, brotos e folhas sem a necessidade de se isolar e cultivar cada espécie de bactéria e fungo em laboratório, como era feito até então.

“Até pouco tempo atrás, por conta das limitações tecnológicas, a pesquisa ficava refém do cultivo de bactérias em laboratório, o que é um trabalho moroso e que resulta numa quantidade muito pequena de amostras, especialmente porque muitas espécies não crescem em meios de cultura. Dessa forma, conhecia-se apenas superficialmente a real diversidade das comunidades de microrganismos que habitam cada tecido da planta”, disse Rafael Soares Correa de Souza, do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) da Unicamp.

Além disso, ainda de acordo com o pesquisador, “a maioria dos trabalhos na área estava focada em analisar o microbioma apenas da raiz, determinando quais são as bactérias e demais microrganismos que se associam a ela e que estariam relacionados à apreensão de nutrientes e outros processos”.

O trabalho desenvolvido com o sequenciamento de segunda geração mapeou o micro-bioma da cana contemplando comunidades que vivem fora e dentro da raiz, do caule e nas folhas em diferentes estágios de desenvolvimento. Os pesquisadores agora dispõem de um “mapa” completo para saber quais são as bactérias e fungos mais abundantes, suas funções e possíveis aplicações biotecnológicas, acessando toda uma diversidade que não podia ser desbravada até então.

Para isso, foi desenvolvido um protocolo próprio de preparo do sequenciamento. Os pesquisadores coletaram amostras da raiz, do caule e das folhas separadamente e lavaram cada uma com uma solução especial. A água residual foi submetida a centrifugação de baixa velocidade para que resíduos do solo e do ambiente fossem separados, isolando-se os microrganismos. Em seguida, uma nova centrifugação foi feita, dessa vez, em alta velocidade, para precipitar as células contendo o material genético que seria sequenciado. O mesmo processo foi feito para os microrganismos que habitam o interior da planta, sendo que, para expô-los, os tecidos foram triturados no liquidificador.

Além do mapa, os pesquisadores dispõem de coleções de amostras representativas dos microrganismos que vivem no micro-bioma da planta.

“Essas coleções estão armazenadas de forma a serem facilmente acessadas, o que possibilitará a seleção de microrganismos para compor inóculos que representam diferentes comunidades e que podem ser estudados para que se saiba quais efeitos benéficos eles trazem às plantas. Temos, agora, um mapa e o recurso biológico necessário para o avanço da pesquisa”, disse Jaderson Silveira Leite Armanhi, também do CBMEG.

Além da FAPESP, a pesquisa foi financiada pela companhia energética de origem espanhola Repsol e pela Repsol Sinopec Brasil. Os trabalhos também contaram com a participação de pesquisadores do Centro de Biotecnología y Genómica de Plantas da Universidad Politécnica de Madrid (UPM), na Espanha.

Os resultados do mapeamento são apresentados no artigo Unlocking the bacterial and fungal communities assemblages of sugarcane microbiome, de Rafael Soares Correa de Souza, Vagner Katsumi Okura, Jaderson Silveira Leite Armanhi, Beatriz Jorrín, Núria Lozano, Márcio José da Silva, Manuel González-Guerrero, Laura Migliorini de Araújo, Natália Cristina Verza, Homayoun Chaichian Bagheri, Juan Imperial e Paulo Arruda, disponível para acesso em www.nature.com/articles/srep28774.

Já o artigo Multiplex amplicon sequencing for microbe identification in community-based culture collections, de Jaderson Silveira Leite Armanhi, Rafael Soares Correa de Souza, Laura Migliorini de Araújo, Vagner Katsumi Okura, Piotr Mieczkowski, Juan Imperial e Paulo Arruda, divulgado hoje, pode ser acessado em www.nature.com/articles/srep29543. (Agência Fapesp 13/07/2016)

 

Safra de cana cresce, mas produção de etanol deve estacionar

A safra de cana-de-açúcar 2016/17, iniciada em abril, deverá ser recorde, com 691 milhões de toneladas colhidas, um aumento de 3,8% em relação à safra anterior, encerrada em março. A expansão não resultará em aumento na produção de etanol, que deve até mesmo apresentar ligeira queda, de 0,4% em relação à safra anterior, somando 30,3 bilhões de litros, prevê a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A produção de açúcar deve crescer 12%.

Guilherme Pessini, gerente sênior de agronegócios no Itaú BBA, diz que as usinas privilegiam a produção de açúcar nesta safra em decorrência da valorização do produto no mercado internacional em 50% no prazo de um ano. A razão é o déficit global do produto que pode chegar a 10 milhões de toneladas no ano e ainda se prorrogar por 2017. “Hoje o açúcar gera um ganho 20% maior ao produtor do que o etanol”, afirma.

Em 2015 o consumo de etanol (anidro e hidratado) no país cresceu 19,6% para 28,79 bilhões de litros, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A comercialização de etanol hidratado, que abastece diretamente os veículos, cresceu 37,5%, chegando a 17,86 bilhões de litros. Já o consumo de gasolina automotiva foi de 41,13 bilhões de litros, queda de 7,3%.

Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Cana-de-Açúcar (Única), diz que o maior empenho das usinas em produzir açúcar na atual safra não irá prejudicar a oferta de etanol. “O abastecimento está garantido”, diz. Em 2015 foram exportados pelo país dois bilhões de litros de etanol neste ano será 1,5 bilhão. “A diferença de 500 milhões de litros será encaminhada ao mercado interno”, afirma.

O crescimento na demanda por açúcar e etanol não são suficientes, por ora, para estimular investimentos em expansão da capacidade produtiva do setor. Desde 2010, um total de 70 usinas encerrou atividades no país e várias entraram em recuperação judicial. A dívida das empresas do setor, segundo estimativa do Rabobank, ronda R$ 94 bilhões. “A prioridade do usineiro hoje é equalizar a estrutura financeira e investir na renovação do canavial”, diz Andy Duff, analista do Rabobank.

Por dificuldades financeiras, a taxa de renovação da área plantada caiu de 21% em 2011 para 10% em 2015, conforme dados da Única, reduzindo a produtividade da colheita. “A safra atual só é recorde devido a condições climáticas favoráveis”, diz o analista.

Os problemas do setor têm origem em um ciclo de cinco anos, encerrado agora, de baixa nas cotações internacionais do açúcar, que coincidiu, no Brasil, com a estratégia do governo federal adotada desde 2010 de interferir nos preços dos combustíveis para controlar a inflação.

“Estamos iniciando um ciclo de alta, mas é um ciclo. Não há um cenário de longo prazo que permita planejar aumento da capacidade de produção”, diz João Alberto Abreu, vice-presidente da Raízen, companhia que em suas projeções iniciais estima uma colheita de 60 a 64 milhões de toneladas de cana na safra 2016/17 e destinar, como faz historicamente, por volta de 57% do total para a produção de açúcar.

Jacyr Costa Filho, diretor da Tereos para o Brasil, diz que a retomada dos investimentos no setor só ocorrerá com estabilidade nas políticos de preços dos combustíveis no país e a adoção de um marco regulatório do setor que crie incentivos aos combustíveis renováveis, garantindo a competitivdade diante dos combustíveis fósseis”.

“O etanol gera benefícios ao ambiente e a saúde pública, são diferenciais que devem ser valorizados”, diz. Na safra 2016/17, a Tereos projeta uma produção de 1,7 milhão de toneladas de açúcar e 710 mil m3 de etanol.

No ano passado, em Paris, na Conferência das Partes (CoP-21) sobre o Clima da ONU, o governo brasileiro assumiu o compromisso de ampliar de 6% para 18% até 2030 a participação dos biocombustíveis na matriz energética do país.

Nos cálculos da Única a meta exigirá uma produção anual de 50 bilhões de litros de etanol. “O anúncio na CoP-21 não foi acompanhado, até agora, de nenhuma política para viabilizar essa meta”, diz Pádua Rodrigues. (Assessoria de Comunicação 13/07/2016)

 

Raízen participa da Youth Speak e Junior Enterprise World Conference

Voltados para jovens profissionais, eventos debatem questões relevantes para a sociedade.
A Raízen participa neste mês de dois eventos voltados para jovens profissionais: Youth Speak, que acontece hoje, em São Paulo, e Junior Enterprise World Conference, que ocorre de 20 a 27, em Florianópolis. Ambos têm como propósito levar ao debate questões importantes para a sociedade, como a importância do desenvolvimento sustentável e o combate à corrupção.

O Youth Speak é um evento que reúne líderes jovens e personalidades para formar uma diversificada gama de conhecimento e reflexão para inspirar conversas em torno de assuntos globais. O fórum tem como objetivo criar um ambiente onde as pessoas de diversas origens podem criar ideias, compartilhar pensamentos e ganhar novas perspectivas para criar resultados acionáveis para empurrar o mundo para a frente.

Já o Junior Enterprise World Conference fomenta a co-criação, colaboração cooperação para a solução de problemas complexos. O intuito é promover um espaço de diálogo e debate entre profissionais experientes com profissionais recém-formados em busca de uma nova era, a da mudança.

A Raízen participa de ambos os eventos. O primeiro contará com a presença do presidente da companhia, Luis Henrique Guimarães. Já o Junior Enterprise World Conference receberá o vice-presidente executivo de Etanol, Açúcar e Bioenergia, João Alberto Abreu.

Sobre a Raízen

A Raízen se destaca como uma das empresas de energia mais competitivas do mundo e uma das maiores em faturamento no Brasil, atuando em todas as etapas do processo: cultivo da cana, produção de açúcar, etanol e energia, comercialização, logística interna e de exportação, distribuição e varejo de combustíveis.

A companhia conta com cerca de 30 mil funcionários, que trabalham todos os dias para gerar soluções sustentáveis que contribuam para o desenvolvimento do país, como a produção de bioeletricidade e etanol de segunda geração a partir dos co-produtos da cana-de-açúcar.

Com 24 unidades produtoras, a Raízen produz cerca de 2 bilhões de litros de etanol por ano, 4,5 milhões de toneladas de açúcar e tem capacidade para gerar cerca de 940 MW de energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar. A empresa também está presente em 63 aeroportos, possui 63 terminais de distribuição e comercializa aproximadamente 25 bilhões de litros de combustíveis para os segmentos de transporte, indústria e varejo.

Conta com uma rede formada por 5.809 postos de serviço com a marca Shell, responsáveis pela comercialização de combustíveis e mais de 951 lojas de conveniência Shell Select. Além disso, a companhia mantém a Fundação Raízen, que busca estar próxima da comunidade, oferecendo qualificação profissional, educação e cidadania. Criada há mais de 14 anos, possui seis núcleos no interior do estado de São Paulo e um em Goiás e já beneficiou mais de 13 mil alunos e mais de 4 milhões de pessoas com ações realizadas desde 2012. (Assessoria de Comunicação 13/07/2016)

 

Gestores do Grupo João Lyra querem volta à recuperação judicial

Entendimento é que pedido de falência teria sido um erro e só agravou problemas.

O Grupo João Lyra, que teve falência decretada pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL) em 2014, está apostando na volta à recuperação judicial. A informação foi confirmada à reportagem da Tribuna Independente por um grupo de assessores.

Para os gestores, o decreto de falência não deu certo e teria levado apenas à depredação do patrimônio com a ocupação das terras da Usina Laginha e destruição do maquinário.

A Laginha Agro Industrial S/A pediu recuperação judicial em 2008 e o comitê gestor vê com bons olhos a volta a esse estágio. (Tribuna Hoje 13/07/2016)

 

Acordo elevará embarque de açúcar do país para UE

O Brasil poderá exportar mais 114 mil toneladas de açúcar por ano aos países da União Européia (UE) com tarifa menor, dentro de um acordo que as duas partes vão anunciar nesta quinta-feira na Organização Mundial do Comércio (OMC).

O acordo é uma forma de a UE pagar compensações ao Brasil em razão da entrada da Croácia no bloco em julho de 2013. Os croatas cobravam tarifa de importação menor, mas, uma vez dentro da UE, tiveram que impor as alíquotas do bloco, que são mais elevadas.

A alíquota plena de importação para açúcar na UE é acima de € 300 por tonelada, praticamente proibitiva para o comércio da commodity. Assim, o comércio de açúcar para o mercado europeu é administrado por meio de cotas com alíquota menor.

Atualmente, o Brasil se beneficia de duas cotas anuais que perfazem 587 mil toneladas, com alíquota de € 98 por tonelada. Uma delas é voltada para o Nordeste exportar 334 mil toneladas. A segunda é de 253 mil toneladas, aberta a todos os países, mas ocupada em 90% pelo Centro-Sul.

Pelo acordo, haverá aumento de 78 mil toneladas na cota destinada aos produtores do Nordeste. E a tarifa de importação imposta pelos europeus, que é de € 98, cairá nesse caso para € 11, que era a tarifa de importação da Croácia antes de entrar no bloco. No sétimo ano, a alíquota sobe para € 54 por tonelada, e no oitavo ano volta aos € 98 por tonelada. Na cota geral, que o Brasil preenche quase inteiramente, o volume adicional será de 36 mil toneladas, devendo beneficiar especificamente o Centro-Sul.

Em 2015, o Brasil exportou 24 milhões de toneladas de açúcar bruto e refinado, sendo que 490 mil toneladas foram à UE, segundo o Ministério da Agricultura.

A expectativa é de que, como mais açúcar do Nordeste vai poder ser exportado para a UE, os produtores do Centro-Sul terão mais espaço no próprio mercado doméstico.

O acordo ficou aquém das expectativas do setor sucroalcooleiro do Brasil. Segundo Elizabeth Farina, presidente da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), o pleito era zerar a tarifa para uma volume que corresponde à média do quanto a Croácia importou nos três anos anteriores à sua entrada na UE. "Não foi o que a gente gostaria, mas foi o melhor que o governo conseguiu", avaliou Farina.

Apesar de o Nordeste ter recebido uma cota maior para exportar açúcar à UE e uma tarifa temporariamente reduzida, o acordo desapontou o segmento regional. "A quantidade é pequena. Mesmo para o Nordeste, é uma quantidade ínfima", disse Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar).

A Croácia tinha tarifa de importação menor também para certas carnes. A UE, que impõe alíquota maior, aceitou agora compensar o Brasil com cota adicional de 4,7 mil toneladas para a carne de frango, sem tarifa. Também abriu cota de 600 toneladas para a entrada de carne de peru brasileira, livre de tarifa. (Valor Econômico 14/07/2016)

 

Motorista já encontra álcool abaixo de R$ 2

O motorista da capital paulista começa a encontrar o álcool mais barato nos postos.

O litro custa menos de R$ 2 em alguns locais pesquisados pelo Agora.

O recuo nos preços aumenta a vantagem do etanol sobre a gasolina.

Em todos os 22 postos consultados ontem, era mais vantajoso abastecer com o álcool, mesmo onde o combustível ainda custava acima de R$ 2 por litro.

Sempre que o consumidor ficar em dúvida sobre o combustível mais vantajoso financeiramente, ele deve fazer a seguinte conta: dividir o valor do litro do álcool pelo da gasolina.

Se o resultado for um número maior do que 0,7, é melhor usar a gasolina.

Esse cálculo considera a diferença no rendimento dos dois tipos de combustível. (Jornal Agora São Paulo 14/07/2016)

 

Saiba como o etanol fez do Brasil um líder de tecnologia

Quando você vai à feira e toma caldo de cana, você pode não se dar conta, mas está consumindo um produto que o Brasil conhece melhor do que ninguém. A cana de açúcar, o etanol e derivados desse cultivo compõem uma área que o país lidera em termos de tecnologia. Embora não pareça, o setor de energia demanda um grande potencial de desenvolvimento tecnológico. E com o etanol, nós viramos referência mundial.

Cultivo antigo

A cana de açúcar é cultivada no Brasil há centenas de anos, mas o etanol só ganhou projeção a partir de 1975. Nesse ano, o governo iniciou o programa Proalcool, que incentivava a pesquisa e o desenvolvimento desse setor.

De acordo com Flávio Castellari, diretor executivo do APLA (Arranjo Produtivo Local do Álcool), a medida era estratégica: naquela época, o mundo passava pelo que ficou conhecido como o primeiro choque do petróleo. Naquele momento, o preço do insumo sofreu um aumento vertiginoso, o que impactou seriamente a economia de países que dependiam desse produto para sua matriz energética.

O Brasil viu na situação uma oportunidade: como a cana - um cultivo no qual o país já tinha séculos de experiência - podia eventualmente se tornar uma fonte de energia, nossa dependência do petróleo poderia ser reduzida. Além disso, desenvolver a tecnologia para tirar energia da cana de açúcar faria do país um líder regional no setor energético.

O investimento compensou. Atualmente, segundo Castellari, o Brasil exporta mais de 675 milhões de toneladas de cana por ano e produz 38 milhões de toneladas de açúcar e 29 bilhões de litros de etanol. Em termos de energia, mais de 100 TWh (terawatts hora) foram gerados pela cana nos últimos dez anos. A usina de Itaipu, para efeito de comparação, gera cerca de 89 TWh por ano.

Vantagens

De acordo com o diretor do APLA, além de ajudar o país a superar a dependência energética do petróleo, o etanol também traz uma série de vantagens sobre ele. A primeira delas é referente ao meio ambiente. Por tratar-se de uma energia renovável, gerada a partir de carbono capturado diretamente da atmosfera (e não do subsolo do terrestre, como o petróleo), o etanol é uma energia muito mais limpa e sustentável que a gasolina e o diesel, por exemplo.

Mas o etanol também tem uma vantagem social sobre a cana de açúcar. Sendo um produto em parte agrícola (já que a cana precisa ser cultivada), ele também gera um desenvolvimento regional interessante para o país. O mercado da cana de açúcar acaba por integrar regiões agrícolas que muitas vezes acabam ficando distantes dos ciclos econômicos que geram desenvolvimento, diferente do que acontece com o petróleo.

Além de ser usado como combustível puro, o etanol também pode ser misturado à gasolina. Isso não gera dano para os carros, embora exija que alguns ajustes sejam feitos na central eletrônica do automóvel. E a tecnologia também favorece o mercado de automóveis mesmo em momentos em que o petróleo - e consequentemente a gasolina - ficam muito caros.

Por volta do ano 2000, o Brasil começou a introduzir os carros flex, que rodavam tanto com gasolina quanto com etanol. Desde então, quase 30 milhões de carros com essa tecnologia já foram vendidos, apesar da desaceleração do mercado de automóveis.

Outros usos

Ainda segundo Castellari, o Brasil agora está desenvolvendo a segunda geração do etanol, ou "etanol 2G". Trata-se de combustível gerado a partir do bagaço da cana, que normalmente é um subproduto da geração de etanol a partir da cana de açúcar. Mais que isso: a ideia final é permitir a geração de etanol a partir de qualquer tipo de celulose.

As vantagens disso seriam imensas. Isso porque toda usina de etanol já tem bagaço de cana. Essa tecnologia permitiria aumentar a produtividade das usinas sem a necessidade de aumentar a área cultivada. Ela também resolveria o problema do descarte do bagaço - já que ele também seria usado para gerar energia. E as empresas poderiam até mesmo passar a vender a energia excedente para as comunidades próximas.

Essa energia poderia complementar a geração energética das hidrelétricas, já que a colheita da cana acontece justamente na época em que chove menos. Por conta da falta de chuvas, os rios ficam menos cheios, e a geração das hidrelétricas é menor. O etanol 2G entraria em cena justamente nesse momento. Segundo Castellari, se o Brasil usasse toda a cana, bagaço e palha de cana possível, poderia produzir anualmente certa de 128 TWh de energia - mais que a usina de Itaipu.

Bioplástico

Há, no entanto, o risco de que outras formas de energia superem o etanol. Os carros elétricos, por exemplo, são uma realidade cada vez mais próxima. E as energias solar e eólica, por exemplo, também estão se desenvolvendo rapidamente. Isso arriscaria invalidar o investimento das indústrias de etanol. Mas felizmente, mesmo essa situação é facilmente contornável.

Isso porque o etanol também pode ser usado para fabricar o bioplástico, uma versão biodegradável do plástico usado em sacolas e embalagens. Além de ser menos danoso ao meio ambiente, o bioplástico também é menos tóxico e mais fácil de reciclar do que sua alternativa derivada de petróleo.

A Coca Cola é uma das empresas que já utilizam o bioplástico no Brasil. Atualmente, cerca de 30% do plástico de suas garrafas PET é desse tipo. A TetraPak também tem usado essa tecnologia em suas embalagens. No total, apenas cerca de 5% do plástico usado no Brasil é bioplástico, pois ainda é mais rentável produzir etanol, mas a expectativa do APLA é que essa porcentagem aumente nos próximos anos.

Benefício social

Além dessas possibilidades, o etanol também pode ser usado como combustível para aviões também. O Brasil já tem o Ipanema, um avião pequena e de baixas altitudes que voa apenas com etanol, e está pesquisando maneiras de usar esse combustível em aeronaves maiores e que que voem mais alto. E as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro já possuem também mais de 400 ônibus que rodam com biodiesel, uma versão mais limpa do diesel usado na frota tradicional.

Mas o etanol também tem outra vantagem social interessante, segundo Castellari: todos os países que produzem a cana de açúcar em grande quantidade são do hemisfério sul. Muitos deles se encaixam na categoria de países em desenvolvimento, e essa tecnologia lhes permite superar a dependência de um produto cujo preço flutua de maneira bastante perigosa para economias menos maduras. Como tal, ele é uma importante tecnologia de promoção de economias menos favorecidas.

O Brasil, por exemplo, teve bastante sucesso em seu uso. O país conseguiu substituir quase 50% do combustível líquido de seus automóveis leves pelo etanol. E, conforme lembra Castellari, "mesmo que todas essas apostas dêem errado, a gente ainda pode misturar a açúcar da cana com limão e cachaça para fazer caipirinha". (Olhar Digital 13/07/2016)