Setor sucroenergético

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Governo vê receita de R$ 1,5 bilhão com volta de PIS/Cofins sobre etanol

Representantes do setor afirmam que volta do tributo pode impactar o preço para o consumidor.

O governo federal prevê uma receita extra de R$ 1,5 bilhão em 2017 com a volta da cobrança de PIS/Cofins de R$ 0,12 por litro do etanol hidratado a partir de 1º de janeiro. Para a equipe econômica de Henrique Meirelles o tributo sobre o combustível renovável será uma das poucas novas fontes extras de receita tributária automática no próximo ano, ou seja, sem que haja a necessidade de qualquer ato presidencial ou mesmo aprovação do Congresso.

A receita com o PIS/Cofins é, no entanto, apenas um pequeno alívio no caixa do governo para cobrir os R$ 55 bilhões que faltam para o cumprimento da meta fiscal do próximo ano, de déficit de R$ 139 bilhões, e faz parte da política de revisões de todas as desonerações concedidas durante o governo da presidente afastada Dilma Rousseff (PT). Em 2016, o universo de desonerações ficará em R$ 271 bilhões.

A desoneração dos R$ 0,12 de PIS/Cofins por litro do etanol hidratado integrava um pacote de bondades concedido por Dilma em abril de 2013 às usinas sucroenergéticas. Outra medida dada à época foi o aumento da mistura do etanol anidro à gasolina de 20% para 25%, porcentual que posteriormente foi ampliado para até 27%.

A suspensão do tributo tem prazo de validade em 31 de dezembro deste ano e a renúncia fiscal superou R$ 5 bilhões no período. Só este ano a previsão é de R$ 1,516 bilhão a menos nos cofres com essa desoneração.

Com o prazo se esgotando, o setor produtivo tenta, junto ao governo, alternativas para evitar o retorno da cobrança do imposto que onera a produção do combustível e não consumo. A presidente executiva da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, disse ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real da Agência Estado, que não há uma solução imediata e o fim desse crédito tributário "vai representar uma perda de competitividade do etanol hidratado".

Isso significa que a alta do preço do etanol hidratado nas usinas deve chegar de alguma forma aos consumidores nos postos de combustíveis, mesmo em valores menores que os R$ 0,12 por litro e ampliar a competitividade da gasolina. Segundo a presidente da Unica, três alternativas são negociadas pelo setor com representantes do governo federal para ao menos minimizar os impactos da volta do PIS/Cofins sobre o etanol.

A primeira opção é a prorrogação da isenção; a segunda é a mudança de alíquota para um novo patamar e a última seria, segundo Farina, "compensação, com outro tipo de instrumento, que preserve o diferencial de competitividade do etanol sobre a gasolina". Essa terceira opção seria o aumento da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) cobrada sobre a gasolina, hoje em R$ 0,10 por litro.

O aumento da Cide atrelada ao retorno do PIS/Cofins ao setor produtivo de etanol manteria a competitividade do combustível de cana em relação ao de petróleo e traria ainda mais receita ao governo federal. No entanto, como a Cide é cobrada diretamente na ponta final do consumo, qualquer aumento significaria inflação. Portanto, essa medida é refutada por uma corrente do governo, principalmente do Banco Central (BC), que luta para trazer o IPCA de 2017 para o centro da meta, em 4,5%.

Ainda de acordo com Farina, nas negociações a Unica já encaminhou ao governo uma série de estudos com os benefícios gerados pela desoneração do etanol, principalmente no emprego, com a retomada do setor, e na balança comercial, com a redução na importação de petróleo e gasolina substituídos pelo etanol. "O setor é um dos poucos que aumentaram o emprego, cresceu sua participação na matriz de combustíveis do ciclo Otto (etanol e gasolina) e espero que tomem uma decisão olhando essas dimensões", disse ela.

Já o diretor financeiro e de relações com investidores do Grupo São Martinho, Felipe Vicchiato, mostrou ceticismo quanto a uma possível permanência da isenção do PIS/Cofins aos produtores e ainda em relação a aumento da Cide sobre a gasolina. Em teleconferência com analistas anteontem, Vicchiatto disse que a volta, em janeiro de 2017, da cobrança ao produtor do tributo "significa perda de produtividade na cadeia, porque aumentará o etanol na bomba e reduzirá o consumo, trazendo um ajuste da demanda à oferta".

Além disso, na avaliação do executivo, com o retorno do PIS/Cofins o Grupo São Martinho não considera "por ora" o aumento da Cide pelo governo. "O que a gente sabe é que, olhando do ponto de vista de inflação, a Cide impacta no curto prazo e é mais carga tributária", resumiu. (O Estado de São Paulo 12/08/2016)

 

Usina Carolo realiza leilão de propriedades agrícolas

Imóveis rurais estão situados na cidade de Pontal (SP) e lances poderão ser efetuados por meio do portal Superbid Judicial entre os dias 29/08 e 13/09

A Usina Carolo S/A Açúcar e Álcool promove leilão das áreas rurais denominadas Sítio São José, St. Edwirgen e Santa Rita que estão localizadas na cidade de Pontal, interior do estado de São Paulo. As propriedades estão avaliadas entre R$ 350 mil e R$ 9,6 milhões, sendo que os lances poderão ser ofertados a partir de 70,80% destes valores. O volume arrecadado das alienações será utilizado para pagamento dos credores derivados da legislação do trabalho, assim como decorrentes de acidentes do trabalho.

As áreas agrícolas livres de construções contêm extensão de 8 a 177 mil hectares e boa aceitação para a reprodução de cultura da cana de açúcar.

O leilão está disponível para lances do próximo dia 29/08, às 14h, até o dia 13/09, também às 14h, por meio do portal Superbid Judicial (www.sbjud.com.br), plataforma online de leilões presente em cinco países da América Latina. Também será possível realizar lances presenciais no átrio do Fórum de Pontal, localizado na Rua João dos Reis, 544, na cidade de Pontal (SP), e também no auditório da Superbid Judicial, em São Paulo, localizado na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, 105, Edifício Berrini One - 4o Andar. Mais informações pelo telefone (11) 4950-9400.

Serviço:

Leilão da Usina Carolo S/A Açúcar e Álcool

Data e horário: Com abertura para lances no dia 29/08, às 14h e encerramento no dia 13/09, às 14h
Link para mais informações:

http://www.canaljudicial.com.br/offer/search.htm?status=1&key=pontal (IN, 10/8/16)

 

Empresários de Moçambique querem produzir açúcar em Angola

O governo de Angola vai apoiar o projecto de produção de açúcar que empresários moçambicanos, em parceria com angolanos, pretendem desenvolver na província do Uíge, disse quarta-feira, em Luanda, a ministra da Indústria.

A ministra Bernarda Martins, que falava no final de um encontro com o ministro moçambicano da Indústria e Comércio, Oldemiro Baloi, acrescentou que o projecto em questão está a ser analisado, uma vez que “Angola não produz açúcar em quantidade suficiente para abastecer o país.”

Relativamente a um memorando de entendimento para a cooperação bilateral no sector industrial, a ministra salientou as vantagens para Angola em beneficiar “da experiência que Moçambique tem, nomeadamente em termos institucionais, de qualidade, de apoio às pequenas e médias empresas e na formação.”

Citada pela agência noticiosa Angop, Bernarda Martins qualificou de muito baixo o nível de trocas comerciais entre os dois países e salientou que ao abrigo do memorando de entendimento assinado vão ser dados passos no sentido de inverter a situação existente.

“Temos estado a conversar com empresários do sector privado dos dois países e existe o interesse de empresas moçambicanas investirem em Angola, bem como de empresários angolanos interessados em desenvolver indústrias em Moçambique, sobretudo no fornecimento de matérias-primas como o clínquer para a produção de cimento”, disse ainda a ministra. (Macauhub 11/08/2016)

 

Com recapitalização, acionistas da espanhola Abengoa ficarão com 5% da empresa

Plano de reestruturação do grupo de engenharia e energias renováveis espanhol prevê um perdão de 97% da dívida.

O grupo espanhol de energias renováveis Abengoa, ameaçado de quebra, anunciou nesta quinta-feira a conclusão de um acordo de recapitalização e reestruturação de sua dívida com seus credores e dez fundos de investimentos.

Baseada em Sevilha, a companhia, que acumulou enormes dívidas após fazer empréstimos para financiar um acelerado plano de expansão, vem negociando com os credores desde novembro passado.

Em comunicado, a Abengoa anunciou que o acordo propõe converter 70% de seus créditos atuais em 40% do capital da empresa reestruturada.

Com isso, a empresa recebeu da justiça um prazo de até o fim de outubro para ter até 75% de seus credores apoiando a proposta. Esse é o prazo em que termina o processo de proteção aos credores instaurados desde o ano passado.

De acordo com comunicado da companhia, após negociações com bancos e hedge funds, a Abengoa vai receber uma injeção de dinheiro de 1,169 bilhão de euros.

O valor inclui o refinanciamento de empréstimos recebidos nos últimos meses por parte de uma série de fundos (Abrams Capital, The Baupost Group, Canyon Capital Advisors, Centerbridge Partners, the D. E. Shaw group, Elliott Management, Hayfin Capital Management, KKR Credit, Oaktree Capital Management y Värde). Em troca do refinanciamento, os fundos passarão a controlar 50% do capital de Abengoa.

A injeção de dinheiro ficará completa com novas linhas financiamento, nas quais as entidades financiadoras neste segmento de recapitalização terão direito a 5% do capital da empresa.

Em um comunicado enviado à Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV) espanhola e noticiado pela agência EFE, a empresa de engenharia e energias afirmou que no que diz respeito à reestruturação da dívida, o acordo prevê um alívio de 97% e o refinanciamento a dez anos dos 3% restantes. No entanto, os credores que concordem ao plano de reestruturação poderão optar por "condições alternativas".

Depois de finalizado este processo, os atuais acionistas da Abengoa verão reduzida a sua participação na empresa a 5% do capital, porcentagem esta que pode aumentar até mais 5% caso liquidem todos os novos créditos em prazo de oito anos.

Isto significa que o atual principal acionista da companhia, a Inversión Corporativa, onde estão agrupadas as participações da família Benjumea e de outros sócios fundadores, passará de uma posição de 50,5% no capital da empresa a pouco mais de 2,5%. (Down Jones 12/08/2016)

 

Lincoln Junqueira foca exportação de açúcar

Diversificar a produção segue no foco do grupo sucroalcooleiro Lincoln Junqueira, mas o bom momento do mercado internacional de açúcar vem ajudando a companhia a definir suas prioridades. Aproveitando a demanda externa, a holding que controla a Usina Alta Mogiana e o Grupo Alto Alegre, tem elevado a aposta no embarque de açúcar VHP.

Com essa estratégia, a companhia conseguiu sair de um prejuízo de R$ 151 milhões na safra 2014/15 e registrou lucro líquido de R$ 189 milhões em 2015/16. A reviravolta foi ditada sobretudo pela disparada do açúcar, que sozinho gerou receita pouco superior a R$ 1,8 bilhão, 27% mais do que no ciclo anterior. No total, a receita líquida aumentou 30% no exercício, para R$ 2,5 bilhões.

Metade da receita com açúcar foi obtida com exportação, e, dessa parcela, quase 60% veio do VHP, utilizados pelas refinarias estrangeiras. Há cinco anos, os embarques do produto representavam 30% da receita com exportação de açúcar.

Esse avanço do VHP começou a ser desenhado há dez anos, quando o grupo construiu a unidade Santo Inácio, voltada só para a fabricação do produto. E ganhou corpo em 2010, com a aquisição da unidade Florestópolis, também direcionada apenas ao VHP. A estratégia de crescer no Paraná foi traçada já com vistas ao acesso ao porto de Paranaguá.

Para a safra atual, o grupo Lincoln Junqueira espera que os embarques de açúcar VHP cresçam mais que as exportações totais de açúcar. Após embarcar 660 mil toneladas de açúcar na safra passada (62% de VHP), a expectativa é que as vendas externas subam para 750 mil toneladas em 2016/17, com 67% de participação do VHP. Com isso, o grupo poderá destinar na safra atual mais açúcar ao exterior que ao mercado interno, que continua com demanda fraca.

Outra frente preocupante é a cogeração. Na safra passada, a comercialização de energia bateu a meta e garantiu, sozinha, receita de R$ 191 milhões. Mas a diretoria do grupo acredita que será difícil repetir a dose na safra atual, já que o mercado interno de energia também não é motivo para euforia.

Segundo dados do grupo, o negócio de cogeração vinha gerando margem Ebitda de cerca de 85%, o melhor desempenho entre suas áreas de atuação. Neste ano, porém, a queda do consumo de energia e o retorno das chuvas, que permitiu a recuperação da produção das hidrelétricas, derrubaram o preço do megawatt-hora no mercado físico (spot) e a rentabilidade na área.

Não menos importante, o negócio de etanol respondeu por um quarto da receita da Não menos importante, o negócio de etanol respondeu por um quarto da receita da companhia na safra 2015/16 e contribuiu para gerar caixa principalmente na entressafra, já que o grupo segurou o máximo possível as vendas do etanol anidro (misturado à gasolina) e aproveitou a recuperação dos preços a partir do fim do ano.

A melhora dos resultados operacionais foi potencializada pela valorização do dólar em relação ao real, que alavancou a receita com as exportações de açúcar. Por outro lado, esse comportamento cambial pesou sobre a dívida líquida da companhia, que aumentou 6%, para R$ 1,5 bilhão. As despesas financeiras cresceram quase 50% na safra e somaram R$ 706,9 mil, pressionando o desempenho financeiro.

A companhia ressalta, entretanto, que houve um alívio na relação entre o endividamento líquido em relação ao lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização (Ebitda). Com um Ebitda de R$ 1,014 bilhão, a alavancagem do grupo diminuiu de 2,31 vezes, na temporada 2014/15, para 1,46 vez na safra passada, dentro da meta da diretoria (1,5). Com a recente queda do dólar, o grupo espera reduzir despesas financeiras, mantendo a alavancagem na meta. (Valor Econômico 12/08/2016)

 

Governo recebe projeto hídrico que pode dobrar produção de cana

Um projeto que pode mudar o problema de déficit hídrico no cultivo da cana está sendo desenvolvido pela Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana) e seus pilares foram apresentados para o secretário nacional de Irrigação, Ricardo Santa Rita, ontem (10), em Brasília. O projeto visa reter a água abundante da quadra chuvosa em pequenas propriedades através de micro barragens, evitando seu desperdício e utilizando-a durante o período mais seco. A medida, se aprovada pelo governo, pode dobrar a produção e evitar a morte da planta com o armazenamento da água da chuva, otimizando o seu uso.

O problema de déficit hídrico sobre a agricultura prejudica a produção nacional e o faturamento do produtor que depende da regularidade da chuva. A produção canavieira do NE, por exemplo, enfrenta problemas hídricos todos os anos, independente dos períodos cíclicos de seca. O ciclo pluviométrico é marcado por bons volumes de chuva em poucos meses e o restante fica bem baixo, sobretudo quando a planta precisa de água para rebrotar, em destaque entre novembro a janeiro. Com isso, a produção cai significativamente e promove a morte da socaria.

"Com as mudanças climáticas,convivemos até com estiagem em meses da quadra chuvosa, a exemplo do mês de julho que costuma ter um elevado índice pluviométrico, mas este ano foi seco,ficando 40% abaixo da média histórica do período na Zona canavieira do NE",disse Alexandre Andrade Lima (Foto), presidente da Feplana ao defender o projeto para o secretário de Irrigação. O dirigente lembrou que a água armazenada poderia inclusive ser usada nesta condição pelos pequenos produtores que não têm recursos para instalar as suas barragens.

Além de garantir a segurança hídrica para a produção dos pequenos canavieiros e ainda evitando que a água da chuva deságue no mar sem nenhuma função, estas barragens de salvação, como estão sendo chamadas pela Feplana, podem contribuir e até dobrar a produção da cana e evitar um prejuízo ainda maior com a morte da socaria da planta, que pode durar até seis safras se irrigadas de forma adequada.

As barragens de salvação são indispensáveis para os canaviais do NE e fundamentais para as demais regiões produtores que carecem de uma segurança hídrica mínima. O secretário de Irrigação se mostrou muito interessado pela proposta e pediu para que a Feplana a entregasse detalhadamente. A entidade ficou de enviar até o início do próximo mês.

A audiência com o secretário foi articulada pelo deputado federal Andre Amaral (PMDB/PB), que participou do encontro junto de Andrade Lima. O vice-presidente (Paulo Leal) e o diretor financeiro (Murilo Paraíso) da Feplana também participaram do encontro realizado em Brasília. (Brasil Agro 11/08/2016)

 

Elizabeth Farina: Cana-de-açúcar precisa do retorno da racionalidade econômica

A tempestade perfeita que atingiu as usinas de cana-de-açúcar nos últimos anos deixou marcas irreparáveis no setor, com unidades desativadas e fuga de investimentos. A sombra criada entre os empresários é hoje mais difícil de ser dissipada e justifica a desconfiança diante dos primeiros sinais de retomada, após a recente mudança de política do etanol. Em entrevista à Dinheiro Rural, Elizabeth Farina, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), repetiu várias vezes a palavra previsibilidade. "O que pode ajudar agora é o retorno da racionalidade econômica", diz Farina.

"E importante que essa nova abordagem seja vista como uma regra que veio para ficar." Ela explica o que falta para as usinas acreditarem numa fase mais positiva e mostra porque uma política estável pode colocar o setor num novo patamar. Atualmente, há 379 usinas ativas no País, das quais 305 estão na região Centro-Sul. A previsão da safra 2016/2017 é de 691 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, novo recorde de produção nacional.

Dinheiro Rural

A crise dos últimos anos provocou o fechamento de mais de 85 usinas. O setor da cana-de-açúcar foi superdimensionado no País?

Elizabeth Farina: O controle de preços da gasolina, o ciclo de baixa do açúcar, mais um problema climático geraram a tempestade perfeita que se concretizou no elevadíssimo endividamento das usinas e na queda de produtividade. Elas estavam alavancadas pelas respostas positivas de investimento diante da própria postura do presidente Lula, que fez marketing pelo mundo dizendo que o Brasil seria a Arábia Saudita do combustível verde. Mas a pergunta é difícil porque é contra-factual. Seria diferente se não fosse como foi? A questão é que naquele período não se pensava só o mercado interno, mas também o internacional de maneira importante. Com a crise financeira global, vários programas de incentivo a combustível limpo começaram a ser revistos.

Como está o setor hoje?

O ano de 2015 foi melhor porque a política mudou, com a retomada da tributação sobre a gasolina, o aumento da mistura de etanol na gasolina e a política de vários estados de aumentar o ICMS sobre a gasolina.

Já dá para falar em recuperação em 2016?

Houve melhora, inclusive com a recuperação do preço do açúcar no mercado internacional, mas não foi o suficiente para resolver o endividamento. Ele ainda é bastante elevado para cerca de 30% das usinas. Tem mais umas 30% delas, em que é elevado, mas parece caminhar para ser equacionado. Outras 30% que estão melhores e aproveitando o momento. A perspectiva de instabilidade continua apavorando o setor. Passamos um período de bastante intervencionismo, de políticas públicas difíceis ao setor privado, que espantou o investidor. O que pode ajudar o setor da cana-de-açúcar agora é o retorno da racionalidade econômica. E importante que essa nova abordagem seja vista como uma regra que veio para ficar.

O que é preciso para o investimento voltar?

Se o governo sinalizar que, passando por turbulências, ele mantém as principais regras do jogo em funcionamento, será importante. Leva tempo para construir a confiança, mas é muito fácil perder. Retomar depois é mais desafiador ainda. O presidente Michel Temer, mesmo sendo interino, tem se colocado de maneira muito respeitosa ao agronegócio. Levou uma pessoa do setor para o Ministério da Agricultura, foi à Frente Parlamentar da Agropecuária. Isso é uma sinalização importante, eu nunca havia visto um presidente na frente do agronegócio.

Na agenda fiscal do governo atual, há planos para elevar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) na gasolina, hoje um tributo de R$ 0,10 o litro. Qual seria o nível ideal ao setor?

Nosso embasamento do imposto decorre de um estudo com parâmetros da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) sobre preço de carbono. A metodologia consiste em calcular quanto custa para a sociedade consumir gasolina, geradora de emissões de gases do efeito estufa. O cálculo é de R$ 0,60 por litro para compensar as externalidades positivas do etanol que não aparecem como competitividade na bomba. Não quer dizer que tem de ser R$ 0,60 ou nada, mas pode-se fazer um cronograma de aumentos. A Cide tem de ser vista como um imposto ambiental e é necessária do ponto de vista da correção de preços relativos.

A crise provocou uma série de recuperações judiciais. Essa onda já acabou?

Temos 72 casos atualmente. A recuperação decorre de vários fatores e um deles é a rentabilidade corrente, que nem sempre é aproveitada por todas as usinas. Várias delas não se beneficiaram da melhora do ano passado porque já tinham vendido a produção antes desses benefícios chegarem. Embora ainda fosse safra, a necessidade muito grande de caixa acabou fazendo com que muitas vendessem a produção antecipadamente ou para produzir logo em seguida. Por isso, pode haver novos casos. Muitas se endividaram em dólar e há a questão da liquidez, que não permite o benefício da melhora. Para estancar o fechamento de usinas, teria de preservar essa situação de 2015 e as regras do jogo.

Há risco de que essa recuperação seja curta como um voo de galinha?

Somos muito sensíveis à política pública. O que acontece se a política dá uma guinada, com inflação dois dígitos, por exemplo, e precisa congelar o preço da gasolina? Precisamos de previsibilidade das regras.

As usinas que pararam de operar vão voltar? Como ficará o setor?

Em grande parte, o setor passou até por uma racionalização da produção. Como se explica 85 usinas paradas, entre 2008 e 2015, e recorde de produção no ano passado? Se explica porque a parte industrial foi fechada, mas a agrícola foi transferida para outra usina em funcionamento. Portanto, pudemos ter um processo de fechamento de usinas sem queda na produção de etanol. Agora estamos começando a bater no limite da capacidade e, portanto, uma expansão da produção vai depender também de uma expansão das novas usinas. Algumas terão condições de ser retomadas.

Dá para antever um novo ciclo de investimentos?

Ciclo de investimento só se a gente tiver uma sinalização muito firme de que a matriz prevista nos documentos internacionais vai ser perseguida e serão adotadas políticas nessa direção.

Qual será o impacto no setor dos compromissos ambientais assumidos pelo Brasil na COP-21?

Os biocombustíveis devem passar a ser 18% da matriz e, na parte de energia, haverá um crescimento de renováveis para 23%. No programa também tem uma parte de recuperação de terras degradadas e o setor de etanol pode contribuir com isso. Será preciso um planejamento adequado para 2020 e 2030. Considerando que levamos ao menos cinco anos para implantar uma nova usina, estamos atrasados. A estimativa é que o Brasil vá produzir 54 bilhões de litros de etanol em 2030, ou seja, quase dobrar o nível de hoje. Mas temos de começar ontem porque o tempo é curto.

Hoje, qual o principal tema internacional do setor das energias renováveis?

Estamos em meio a uma troca de ofertas entre Mercosul e Europa e não foram incluídos nem o açúcar, que nunca esteve, e nem o etanol, que foi retirado. O pleito é para adicionar ambos. Com a tarifa, da Europa para o açúcar, de 98 euros por tonelada, simplesmente não vamos exportar nada para lá. Nos Estados Unidos, conseguimos preservar a participação do combustível avançando nas exigências de compra pelas distribuidoras, que inclui o nosso etanol. A manutenção é importante porque havia risco de redução e o mercado americano é o nosso maior importador.

Como a senhora avalia as políticas para a bionergia?

Precisa melhorar muito a política e os leilões, para reconhecer as externalidades positivas da biomassa. Atualmente 170 usinas, ou 40% do total colocam bioeletricidade na rede nacional, mas poderia ser mais. Não houve estímulo nos leilões para que as usinas fizessem os investimentos necessários. Um leilão A-5 (energia para cinco anos), por exemplo, dá cinco anos para começar a produzir, com um contrato de fornecimento de até 25 anos. Esse contrato ajuda a reduzir o custo de financiamento.

Precisa de um aprimoramento regulatório, então.

Sim, precisa de um bom aprimoramento. Segundo nossos técnicos, há uma Itaipu adormecida nos nossos canaviais. Falta uma sinalização de regras e mais uma vez é a questão da previsibilidade: o Brasil é um País que quer energia de baixo carbono ou quer explorar o pré-sal, os fósseis, e pronto?

O crédito presumido de PIS/Confins concedido ao setor vence em dezembro. O que UNICA tem conversado com o governo?

Se houver o fim do crédito presumido, haverá nova perda de competitividade do etanol. Pediremos para prorrogar ou compensar com outro imposto, como a Cide. (Unica 11/08/2016)