Setor sucroenergético

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Com safra de cana estagnada, Brasil "desligará" mais capacidade de moagem em 2018/19

O Centro-Sul do Brasil, principal região canavieira do mundo, pode iniciar a próxima safra com quase 9 milhões de toneladas de capacidade de moagem "desligada", reflexo de grupos sucroenergéticos endividados ou em busca de redução de custos e otimização da operação em meio à falta de matéria-prima.

O volume, calculado pela Reuters com base em informações apuradas no mercado, pode aumentar para mais de 20 milhões de toneladas considerando alguns grupos em recuperação judicial que ainda vivem incertezas sobre a continuidade das atividades na temporada 2018/19, que começará em abril.

O total parado não necessariamente representará perda de capacidade, até porque as unidades poderão ser reativadas no futuro, mas mostra as dificuldades de um setor com produção de cana estagnada, devido a investimentos insuficientes no passado recente, enquanto aguarda os efeitos de uma nova política de biocombustíveis para retomar a expansão da cultura.

Até o momento, Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, e Biosev, braço sucroenergético da Louis Dreyfus Company, informaram oficialmente que algumas de suas usinas não vão funcionar na próxima safra.

Os dois grupos são os maiores do setor sucroenergético mundial e buscam, com a medida, otimizar as operações.

Citando "escassez de cana", a Raízen informou em novembro que suspenderá as atividades nas usinas de Dois Córregos, em Dois Córregos (SP), e Tamoio, em Araraquara (SP), redirecionando a matéria-prima para outras unidades da empresa, o que não resultará em redução de moagem do grupo.

Procurada, a empresa disse que não detalha a capacidade de moagem das usinas "por razões estratégicas", mas uma fonte próxima à área operacional afirmou que ambas podem processar, juntas, quase 3 milhões de toneladas de cana por ciclo.

"A escassez de cana... levou a Raízen a decidir especificamente por hibernar as menores unidades, notadamente Tamoio e Dois Córregos, mantendo as maiores usinas e reduzindo assim os impactos sociais causados pela otimização. A operação agrícola da Raízen e de seus fornecedores de cana nas regiões... não será impactada", afirmou a companhia, em nota.

Já a Biosev, visando reduzir custos de produção, não operará a usina de Maracaju, em Mato Grosso do Sul, que tem capacidade para esmagar 1,8 milhão de toneladas de cana por temporada.

O total de unidades desligadas pode ser ainda maior caso Abengoa Bioenergia Brasil (ABBR), do conglomerado espanhol Abengoa, e Renuka do Brasil, subsidiária da indiana Shree Renuka Sugars, não tenham fôlego para dar continuidade às atividades.

Ambas, que estão em recuperação judicial, possuem duas usinas cada no Estado de São Paulo.

"A Renuka ainda está avaliando. Não devem operar a Revati (em Brejo Alegre), talvez fiquem com a Madhu (em Promissão). É muita especulação por enquanto", afirmou uma fonte próxima às atividades da empresa, que não descarta que ambas não operem em 2018/19.

A usina Revati, cujo leilão judicial está suspendo a pedido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pode moer quase 4 milhões de toneladas por ciclo.

A Renuka não pôde ser contatada para comentar a respeito.

Já a ABBR, em operação no país desde 2007, corre o risco de ir à falência caso seu plano de recuperação judicial, ainda não apresentado, não seja aprovado pelos credores, avaliou outra fonte ligada a produtores de cana.

A subsidiária da Abengoa afirmou em nota à Reuters que ainda está em negociação com os credores.

Com unidades em São João da Boa Vista e Pirassununga, a ABBR entrou com pedido de recuperação judicial em setembro. Em nota, a matriz na Espanha disse que o setor sucroenergético brasileiro continuará enfrentando "as mesmas dificuldades" atuais em 2018/19, mas frisou que "o objetivo no próximo ano é ter uma operação normal nas (suas) usinas".

As quatro usinas de ABBR e Renuka do Brasil têm capacidade combinada para moer mais de 16,5 milhões de toneladas por safra. Assim, caso também não operem em 2018/19, levariam o centro-sul a "desligar" mais de 20 milhões de toneladas em capacidade de esmagamento.

MENOS CANA

Pelas estimativas do setor, o centro-sul do Brasil conta hoje com capacidade para moer de 620 milhões a 640 milhões de toneladas de cana por safra, de modo que o possível "desligamento" daquelas usinas não deve interferir no processamento final do próximo ciclo.

De acordo com a média de estimativas colhidas pela Reuters no início de dezembro, a região deverá moer cerca de 590 milhões de toneladas em 2018/19.

"Não vemos impacto no curto prazo, porque a próxima safra terá uma oferta de cana inferior (à capacidade de moagem)", resumiu o diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Pádua Rodrigues, em nota.

"A moagem final de safra depende da capacidade nominal diária de cada unidade, dos dias corridos de safra, do tempo aproveitado para moagem", acrescentou.  

Especialistas, no entanto, alertam que essa "perda" ressalta as dificuldades pelas quais ainda passa o setor sucroenergético, que em governos anteriores sofreu com controle das cotações domésticas da gasolina, além de baixos preços internacionais do açúcar, acumulando dívidas bilionárias e vendo mais de 70 usinas fecharem as portas.

"É mais um sintoma do que uma preocupação...Em geral, as usinas 'desligam' as plantas para tentar otimizar a operação. Lançam mão desse recurso em grande parte porque o setor não tem aumentado a área plantada nos últimos anos. A área está declinante, e a idade média de canaviais está muito elevada", afirmou o analista de açúcar e etanol da INTL FCStone, João Paulo Botelho.

Na mesma linha, o sócio-diretor da JOB Economia e Planejamento, Julio Maria Borges, comentou que "o setor parou de crescer nas últimas safras".

"Estão 'desligando' usinas para otimizar a operação, pois há mais capacidade para moer do que cana", destacou.

Dados divulgados na terça-feira pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que os canaviais deverão ocupar 9,2 milhões de hectares no centro-sul em 2017/18, queda de 1,3 por cento ante 2016/17.

Nessa conjuntura, o setor aposta no RenovaBio, recentemente aprovado pelo Congresso Nacional, como um meio de reverter a situação e voltar a investir.

O RenovaBio está alinhado aos compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo do Clima de Paris, incluindo o corte de 43 por cento das emissões de gases do efeito estufa até 2030, o que demandará uma produção de cerca de 50 bilhões de litros de etanol, praticamente o dobro do fabricado atualmente, segundo a Unica.

Pelas estimativas do setor, o programa pode gerar ainda investimentos de 1,4 trilhão de reais até 2030.

"No futuro, com a recuperação da produtividade agrícola, maior oferta de cana, o setor terá que ampliar a capacidade instalada", comentou Rodrigues, da Unica, entidade que não detalhou o tamanho da capacidade instalada de moagem no centro-sul do Brasil. (Reuters 20/12/2017)

 

Açúcar: Reversão em NY

Uma cobertura de posições vendidas dos fundos reverteu ontem as perdas acumuladas pelos contratos futuros do açúcar na bolsa de Nova York na semana passada, quando o mercado foi pressionado pelas previsões de superávit na oferta mundial.

Os contratos com vencimento em maio fecharam ontem a 14,23 centavos de dólar a libra-peso, alta de 59 pontos. Na semana passada, haviam caído 45 pontos.

A alta coincidiu com o corte de 1,7% nas estimativas da Conab para a colheita de cana-de-açúcar no Brasil em 2017/18, para 635,6 milhões de toneladas (queda de 3,3% ante o ciclo anterior), com uma área 3,4% menor.

No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal em São Paulo ficou em R$ 68,94 a saca de 50 quilos, com queda de 0,59%. (Valor Econômico 21/12/2017)

 

Após dois anos em queda, consumo de combustível volta a crescer em 2017

Após dois anos seguidos de retração, o mercado brasileiro de combustíveis entrou novamente na rota do crescimento e caminha para fechar o ano com uma alta de 0,5% nas vendas de diesel e de 1,4% no ciclo Otto (veículos leves, que consomem gasolina e/ou etanol). Para 2018, a expectativa é que o consumo, como um todo, cresça "pelo menos 2%", disse o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Leonardo Gadotti Filho.

Estudo elaborado pela consultoria Strategy&, da PwC, indica que o mercado brasileiro entrará numa curva de crescimento nos próximos anos e projeta que as vendas de combustíveis (diesel, gasolina, etanol e biodiesel) deverão crescer 58% entre 2016 e 2030, para 177 bilhões de litros, puxadas sobretudo pelo aumento do consumo de biocombustíveis - necessário para cumprimento das metas de redução de emissões da COP-21.

"Estamos otimistas para o ano que vem. O combustível reage rápido a mudanças na economia. Sempre largando com o diesel, puxado pelo consumo no transporte e indústrias, seguido pelo Ciclo Otto, com o aumento das rendas das famílias", disse Gadotti.

A Strategy& estima que o crescimento do mercado exigirá, num cenário base, até 2030, investimentos de R$ 75 bilhões a R$ 80 bilhões no aumento da capacidade de produção dos combustíveis; mais R$ 12 bilhões a R$ 15 bilhões em infraestrutura.

Segundo Gadotti, diante dessa necessidade de investimentos, há um senso de urgência na criação de um ambiente regulatório atrativo para a entrada de novos agentes. Caso contrário, sem novas refinarias e investimentos em infraestrutura para importar, o país pode enfrentar entraves no abastecimento, sobretudo diante da sinalização da Petrobras, principal empresa do setor, de que reduzirá seu protagonismo no mercado. "Precisamos antecipar o ambiente regulatório para suportar [os investimentos necessários]", alertou Gadotti.

O executivo comenta que os passos tomados pelo governo, na estruturação de um novo marco regulatório, e pela Petrobras, a partir da definição de uma política de preços para os combustíveis, "estão na direção correta". "Mas precisam ser validados pelo próximo governo que vem aí. O primeiro ponto [para atração dos investimentos] é a previsibilidade, se a liberdade de mercado que está sendo construída no setor vai permanecer. Para isso regulação e legislação têm que ser fortes o suficiente para trazer segurança jurídica", avalia.

Ele destaca que o setor precisa de uma regulação "muito bem arrumada e implementada" e que a Agência Nacional de Petróleo (ANP) terá um protagonismo nesse sentido.

Em meio às discussões sobre o novo marco regulatório do setor, Gadotti anunciou que o Sindicom deixará, a partir de janeiro, de ser um sindicato patronal, para se tornar uma associação. Rebatizada de Plural, a entidade passará a representar não só o setor de distribuição de combustíveis e lubrificantes como também atuará na promoção de discussões regulatórias e legislativas ligadas aos segmentos de logística e abastecimento.

Entre os temas prioritários defendidos pelo setor, estão questões tributárias (hoje existe uma disparidade muito grande de alíquotas de um Estado para outro); além de mais celeridade no licenciamento e ajustes no marco regulatório dos portos, que, na avaliação do executivo, tem sido insuficiente para atrair investimentos. (Valor Econômico 21/12/2017)

 

Para Unica, retorno dos leilões de energia é positivo, mas é preciso continuidade

Nesta semana aconteceram os Leilões de Geração A-4 e A-6 para a contratação de energia elétrica de novos empreendimentos de geração com início de suprimento em 1º de janeiro de 2021 e 2023, respectivamente.

O Leilão A-4 foi realizado no dia 18/12 e ontem (20/12) aconteceu o Leilão A-6. A biomassa havia cadastrado 42 projetos para cada um dos certames, mas comercializou apenas sete (um no A-4 e seis no A-6). Ao todo, os dois leilões contrataram 2.858,8 MW médios, com a biomassa representando menos de 4% em cada um. No geral, a energia adquirida desta fonte foi de 111,2 MW médios, com 8,6 MW médios comercializados no A-4 e 102,6 MW médios no A-6.

Para o gerente em bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Zilmar Souza, apesar do baixo volume comercializado, a retomada de contratação de novos projetos de geração nos leilões regulados em 2017 foi uma boa notícia.

“Os certames ainda têm papel importante na viabilização de projetos de bioeletricidade gerada a partir da biomassa, formada por resíduos urbanos e agrícolas (o bagaço e a palha da cana representam 89% desta fonte). É importante uma sequência regular e crescente de aquisição para este tipo de energia, com a perspectiva de manutenção ou melhora dos preços-teto a cada leilão. Isso dará segurança e previsibilidade ao setor sucroenergético, estimulando a estruturação de um número maior de projetos a cada novo certame”, comenta Souza.

De acordo com o especialista da Unica, se fossem transacionados os 42 projetos cadastrados inicialmente pela biomassa para o Leilão A-6, o volume estimado de investimentos envolvido representaria um aporte de aproximadamente R$ 10 bilhões até 2023 no setor.

O preço médio final do Leilão A-4 foi de R$ 144,51/MWh e de R$ 189,45/MWh no A-6. A fonte solar fotovoltaica foi a que mais vendeu energia no A-4, respondendo por 76% do volume contratado, enquanto as termelétricas a gás natural foram as que mais comercializaram no A-6, responsável por 72% do total negociado no certame. Nos dois certames, esta fonte não renovável, sozinha, abocanhou 67% do total da demanda.

O próximo leilão já está agendado. O Ministério de Minas e Energia recentemente divulgou as diretrizes para o Leilão de Compra de Energia Elétrica Proveniente de Novos Empreendimentos de Geração, denominado Leilão A-4/2018, que deverá ser realizado em 4 de abril de 2018. O início do suprimento de energia elétrica ocorrerá em 1º de janeiro de 2022, com prazo de suprimento de 20 anos para empreendimentos de geração a partir de fonte biomassa, eólica e solar fotovoltaica. (Unica 21/12/2017)

 

Usinas de cana da Índia devem mais do que dobrar oferta de etanol para mistura à gasolina

As usinas de cana-de-açúcar da Índia devem mais do que dobrar a oferta de etanol para mistura à gasolina na safra 2017/18, em meio a um aumento acentuado na produção local de açúcar, disse um órgão da indústria nesta quarta-feira.

Ao contrário do Brasil, onde as usinas produzem etanol diretamente do caldo da cana, na Índia as empresas usam o melaço, um subproduto da produção de açúcar, para fabricar o biocombustível.

Conforme a Associação das Usinas de Açúcar da Índia (Isma, na sigla em inglês), os produtores de etanol e empresas de comercialização de petróleo finalizaram contratos de fornecimento envolvendo um recorde de 1,4 bilhão de litros de etanol na atual temporada, ante 665 milhões de litros no ciclo passado.

A Índia tem como objetivo impulsionar o uso de etanol, que é uma opção de combustível mais limpo em comparação à gasolina no que se refere às emissões de gás carbônico. O governo tem visado uma mistura de 10 por cento de etanol na gasolina.

Petroleiras, no entanto, têm dificuldades em adquirir o biocombustível localmente por causa das taxas fixadas pelo governo, já que governos estaduais impuseram altos impostos sobre o etanol, amplamente utilizado no setor de bebidas alcoólicas.

A produção indiana de etanol deverá aumentar em 2017/18, uma vez que a produção de açúcar deverá subir quase um quarto em relação ao ano anterior, aumentando a oferta de matéria-prima para o álcool, afirmou a Isma. (Reuters 20/12/2017)