Setor sucroenergético

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Governo notifica Petrobrás, Ipiranga e Raízen sobre repasse na venda de diesel

Ministério da Justiça informou que a ouvidoria do órgão recebeu 98 denúncias de postos dando conta de que as distribuidoras não estavam transferindo o desconto fornecido pelo governo.

O Ministério da Justiça notificou as distribuidoras Petrobrás, Ipiranga, Raízen, Alesat, Ciapetro, Royal Fic e Zema para que esclareçam a suposta ausência de repasse integral do desconto na comercialização de diesel aos postos de combustíveis. A concessão do desconto de R$ 0,46 no litro do diesel foi uma das medidas adotadas pelo governo federal na negociação com caminhoneiros para encerrar a greve da categoria no fim de maio.

Em nota distribuída à imprensa na noite de ontem, o Ministério informa que a ouvidoria do órgão recebeu 98 denúncias de postos dando conta de que as distribuidoras não estavam transferindo o desconto fornecido pelo governo.

As empresas têm 10 dias, contados da notificação, para fornecer os esclarecimentos solicitados ao Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), órgão da Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça (Senacon). As distribuidoras também têm que apresentar à Secretaria as notas fiscais de venda do diesel em cada Estado.

O Ministério explica que, se as distribuidoras não responderem aos questionamentos no prazo estipulado, a Senacon poderá instaurar processo administrativo contra elas e aplicar multa que pode chegar a mais de R$ 9 milhões.

A nota informa ainda que o ministro da Justiça, Torquato Jardim, enviou correspondência a todos os governadores pedindo apoio para o cumprimento das medidas em torno da concessão do desconto. "A tarefa de defender o consumidor pressupõe uma ação coordenada de todos os agentes públicos e compete aos Procons estaduais e municipais o monitoramento da redução do valor do diesel ao consumidor final", disse.

De acordo com balanço do Procon, desde o início da vigência do desconto sobre o diesel, 1.179 ações de fiscalização já foram realizadas no País. (O Estado de São Paulo 27/06/2018 às 08h: 52m)

 

Com dívida em R$ 12,7 bilhões, Atvos (ex-Odebrecht Agro) volta à mesa com bancos

Dois anos após ter recebido um aporte de R$ 6 bilhões, a Atvos (ex-Odebrecht Agroindustrial) está de volta à mesa de negociação com os bancos, na tentativa de melhorar o perfil de sua dívida, que alcançava R$ 12,7 bilhões no final de março.

Uma das demandas da companhia é o não pagamento do juro sobre os compromissos, conversa que já vinha sendo conduzida com as instituições financeiras encabeçadas por um grande grupo estrangeiro, que negociava a aquisição da empresa meses atrás.

Está difícil

Uma renegociação do principal também está na mesa, ainda que os maiores vencimentos estejam previstos mais para frente. No entanto, as condições financeiras da companhia seguem frágeis.

O caixa da Atvos, de acordo com suas demonstrações contábeis divulgadas nesta semana, estava em R$ 156,3 milhões ao final de março, distante, portanto, do necessário para cumprir seus compromissos.

Compromisso

Procurada, a Atvos reiterou que a greve dos caminhoneiros gerou impacto negativo em suas operações e que a renegociação do juro com os credores tem sido transparente.

A Atvos informou ainda que o compromisso será honrado. A companhia esclareceu que está focada na geração de fluxo de caixa para honrar suas obrigações de longo prazo. (O Estado de São Paulo 28/06/2018)

 

Eleições e política de preço impopular para combustíveis põem açúcar em risco no Brasil

Em um posto de gasolina em São Paulo, Luís Matos enche o tanque de seu carro. Mas, em vez de ir dirigindo para o trabalho, ele vai deixar o carro estacionado até o fim de semana.

“Desde o ano passado, tenho tentado usar menos o carro e mais a moto para economizar gasolina”, disse o dentista, de 37 anos, que agora só usa o carro no fim de semana. “Os custos do combustível estão altos demais e eu simplesmente não posso pagar”.

Matos é um dos milhões de brasileiros que reduziram o uso do carro depois que os custos do combustível dispararam a um recorde. Como muitos outros na maior economia da América Latina, ele também luta para se adaptar às oscilações diárias na bomba depois que a estatal Petrobras encerrou uma década de limites ao preço da gasolina.

Essa medida alinhou os preços nacionais da gasolina ao mercado internacional de petróleo. Também equilibrou o mercado para o etanol. A maioria dos motoristas brasileiros dirige carros flexíveis, que podem funcionar com etanol ou com uma mistura de gasolina e biocombustível.

Política impopular

A nova política alegrou a atribulada indústria brasileira de açúcar, a maior do mundo, que produz etanol a partir da cana-de-açúcar. Mas, no geral, ela revelou-se impopular em um país onde a população é quase completamente dependente do transporte rodoviário e onde 21 por cento dos trabalhadores não ganham o salário mínimo mensal de R$ 954 (US$ 253).

A eleição presidencial de outubro poderia trazer mudanças. O candidato que lidera as pesquisas mais recentes, Jair Bolsonaro, diz que o Brasil precisa rever o monopólio da Petrobras. Candidata a favor do meio ambiente, Marina Silva, atualmente em segundo lugar, diz que os preços dos combustíveis não deveriam ser ajustados diariamente. Ciro Gomes, o candidato de esquerda que está em terceiro lugar, quer limitar as margens de lucro da empresa.

“Fixar o preço da gasolina conquistará muitos votos”, disse Jonathan Kingsman, ex-trader e autor de Commodity Conversations, um livro sobre os mercados de commodities agrícolas. “Quem tem certa quantia de dinheiro não se importa com o preço da gasolina, mas, para quem é pobre e está tentando conseguir trabalho, é um verdadeiro problema”.

O debate ocorre justamente quando o fim dos limites de preço da gasolina impulsionou a demanda por etanol e melhorou as perspectivas para o setor. O consumo subiu 41 por cento neste ano até abril, maior alta em dois anos, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

“O etanol está muito competitivo em relação à gasolina na maioria dos estados brasileiros, com preços 20 por cento superiores aos vistos a um ano”, disse Nick Penney, trader sênior da corretora de futuros e opções Sucden Financial, com sede em Londres.

“A eleição no final do ano e uma mudança na política energética de volta aos ’velhos tempos ruins’ dos preços artificialmente baixos da gasolina são uma ameaça”, afirma.

Indústria de açúcar

A volta dos controles de preços da gasolina seria uma notícia terrível para os produtores brasileiros de açúcar. Embora a demanda maior por etanol tenha ajudado, eles continuam lutando com os preços do açúcar, que estão perto dos patamares mais baixos em uma década. Mais de 80 usinas de açúcar fecharam desde 2008, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Cerca de 30 por cento das usinas restantes enfrentam altos níveis de endividamento, disse Elizabeth Farina, presidente do grupo com sede em São Paulo.

A Bunge, uma grande trader e processadora agrícola dos EUA, disse em 15 de junho que adiou uma oferta pública inicial de sua unidade de açúcar no Brasil devido às condições do mercado. A Cofco International, dona chinesa de usinas brasileiras de açúcar, não fará mais investimentos no Brasil antes das eleições, disse Marcelo de Andrade, diretor global de commodities da empresa.

Além da possível mudança na política de precificação dos combustíveis, o Senado aprovou, em uma tentativa de reduzir os preços, uma legislação que permitirá que as usinas contornem os distribuidores e vendam etanol diretamente para os varejistas. Isso poderia prejudicar o RenovaBio, um programa que foi projetado para aumentar a produção e o consumo de biocombustíveis e que foi bem recebido pela indústria.

A greve dos caminhoneiros que paralisou o Brasil no mês passado já deu à indústria açucareira um gostinho de como a opinião pública pode levar a mudanças rápidas na política. Para conter os protestos, o governo interveio para reduzir os preços do diesel, enquanto Pedro Parente, o chefe da Petrobras que introduziu a política de combustível favorável ao mercado, renunciou.

Para o diretor comercial da Usina Alta Mogiana, Luiz Gustavo Figueiredo, as usinas estão mais vulneráveis após a greve e o mercado verá algum tipo de movimento para reduzir o impacto da volatilidade diária do preço do petróleo na bomba.

"A greve dos caminhoneiros fez mais do que simplesmente interromper a logística por uma semana ou duas", disse Andy Duff, analista do Rabobank International, em São Paulo. "Para o setor de cana, o cenário cada vez mais se parece com a caixa de Pandora". (Bloomberg 28/06/2018)

 

Compensação tributária salva a Atvos, da Odebrecht, do prejuízo

Após registrar um prejuízo bilionário na temporada 2016/17, a Atvos Agroindustrial, braço sucroalcooleiro da Odebrecht, apresentou o balanço da safra passada (2017/18), encerrada em março, com um lucro líquido de R$ 308,3 milhões. O resultado positivo se deveu a compensações tributárias.

A companhia, porém, teve uma despesa financeira de mais de R$ 1,5 bilhão, o que a levou a consumir recursos próprios. O caixa da Atvos no fim do exercício era de R$ 156,4 milhões, montante 34% menor do que um ano antes e abaixo da dívida de curto prazo (que vencia em 12 meses) no fim da safra. As informações foram publicadas no Diário Oficial de São Paulo na terça-feira.

A Atvos lançou no balanço um crédito de R$ 1,6 bilhão referente a "compensação de prejuízo fiscal e base negativa", efeito contábil que lhe garantiu o resultado líquido positivo. A empresa também utilizou o benefício fiscal da "depreciação acelerada incentivada rural", um aproveitamento fiscal de gastos com formação de canavial e aquisição de implementos agrícolas, o que assegurou R$ 42,5 milhões como movimento de tributos diferidos.

Sem essas operações, a Atvos teria registrado prejuízo na safra. Antes de pagamento de imposto de renda e da contribuição social, o resultado líquido ficou negativo em R$ 1,3 bilhão.

A receita líquida da empresa no período caiu 4,2%, para R$ 4,242 bilhões. A moagem de cana recuou 8%, para 25,8 milhões de toneladas. Em nota, a Atvos explicou que seu resultado foi "impactado, principalmente, por fatores climáticos, como estiagem prolongada e geadas", além da "queda do preços de etanol no início da safra, decorrente do fim do crédito presumido de PIS e Cofins", em 31 de dezembro de 2016, e "da alta oferta do produto no final da safra 2016/17".

Em nota, Alexandre Perazzo, vice-presidente de finanças e relações com investidores, atribuiu os baixos preços do etanol "ao alto volume de importações no primeiro semestre". O executivo disse ainda que "o cenário atual de câmbio e petróleo deve permitir uma recuperação dos preços da safra 18/19 em relação aos praticados na safra anterior".

Na safra passada, a companhia reduziu seu custo operacional, o que colaborou para seu lucro operacional saltar a R$ 132,2 milhões. Esse resultado operacional, porém, não foi suficiente para garantir o resultado líquido por causa da despesa financeira bilionária.

A dívida líquida total da companhia encerrou o ciclo com alta de 9%, totalizando R$ 9,379 bilhões. Apenas a dívida de curto prazo no fim da safra recuou 33%, para R$ 219 milhões. No entanto, o valor ainda superava o montante que a companhia tinha em caixa na mesma data (R$ 156,4 milhões). Ao longo da temporada, a Atvos consumiu R$ 81,9 milhões de seu caixa.

Nas notas explicativas do balanço, a empresa ainda informou ter comunicado seus credores da renegociação dos prazos de pagamento de seus débitos que venciam em breve em decorrência da paralisação dos caminhoneiros, que interrompeu a operação em diversas usinas. Informou ainda que "não espera efeitos significativos originários dessas renegociações". (Valor Econômico 28/06/2018)

 

VLI e Tereos firmam contrato de 30 anos para escoar açúcar

A VLI, concessionária de logística ferroviária e portuária, e a multinacional francesa Tereos, segunda maior produtora de açúcar do mundo, firmaram ontem um contrato de longo prazo, com duração de 30 anos, para escoamento de açúcar bruto do interior de São Paulo até o porto de Santos. O valor do contrato não foi revelado.

O acordo envolve um pacote de investimentos de R$ 205 milhões, valor que será compartilhado pelas duas empresas. Os recursos serão usados em novas instalações e na infraestrutura da VLI para garantir o transporte de 1 milhão de toneladas ao ano. A previsão é atingir esse volume a partir de maio de 2020, quando se dá o início da safra 2020/2021.

Do valor a ser aportado, neste e no próximo ano, R$ 145 milhões serão desembolsados pela Tereos na construção de dois armazéns. Um deles será em Guará, no interior de São Paulo, onde a VLI já possui um terminal voltado apenas para o carregamento de açúcar. O novo armazém terá capacidade estática de 80 mil toneladas.

O segundo armazém a ser erguido pela Tereos terá capacidade para armazenar 114 mil toneladas de açúcar e será erguido no Tiplam, o terminal da VLI no porto de Santos. O terminal já possui um armazém exclusivo para açúcar e outro que armazena tanto o adoçante como grãos.

Da parte da VLI, serão aplicados os R$ 60 milhões restantes do pacote de investimentos. O objetivo é melhorar sua infraestrutura ferroviária e de recebimento da carga de açúcar nos seus terminais, especialmente o de Guará, para poder atender o contrato com a Tereos.

As obras dos dois armazéns devem ser iniciadas até o fim deste ano e ficarem prontas no primeiro trimestre de 2020, informou ao Valor o diretor comercial da VLI, Fabiano Lorenzi. "Com esse contrato, vamos reforçar o peso do açúcar dentro de nossa operação de agronegócio, que já responde por 50% do total movimentado pela VLI", afirmou.

Atualmente, a empresa já transporta por ano 4,6 milhões de toneladas de açúcar, desembarcadas a maior parte no Tiplam, seu terminal em Santos, que foi ampliado nos últimos anos e tem um berço dedicado a embarque para exportação da commodity. Esse volume é quase um quarto do total da commodity exportado pelo porto santista.

As obras dos dois novos armazéns devem começar até o fim deste ano e ficarem prontas no 1º trimestre de 2020.

O negócio açúcar já representa hoje mais de 8% do total movimentado anualmente pela VLI. Na divisão de agronegócios, destacou Lorenzi, o produto já responde por 17% das 28 milhões de toneladas de transportadas em 2017. Essa fatia vai crescer com o contrato firmado com a Tereos.

A companhia francesa, que tem oito usinas no Brasil, pretende entregar tanto o açúcar fabricado em suas unidades como volumes originados pela Tereos Commodities, braço da multinacional de comercialização de açúcar. Atualmente, essa trading movimenta 1,4 milhão de toneladas de açúcar em todo o mundo. A entrega do açúcar das unidades produtoras até o terminal de Guará ficará sob responsabilidade da Tereos.

Para a companhia francesa, o acordo permitirá não apenas a redução dos custos com transporte de açúcar destinados à exportação - hoje realizado basicamente em rodovias - como também diminuirá a exposição da companhia à volatilidade e incerteza dos fretes rodoviários. Como a produção de açúcar é concentrada de abril a novembro - época de moagem de cana no Centro-Sul -, o momento para escoar a commodity coincide com o da soja e do milho, o que torna os fretes caros quando a exportação do adoçante está no pico.

A redução da dependência das rodovias deve diminuir a volatilidade desses custos, afirma Jacyr da Costa Filho, diretor da Região Brasil da Tereos. "É difícil saber [qual será a redução de custos] por causa da volatilidade atual do transporte com caminhões. Quando tem supersafra de grãos, o preço do frete pode subir enormemente", atesta.

Ainda segundo o executivo, essa parceria de longo prazo e o compromisso de investimentos são uma prova de como o Brasil é estratégico para a companhia francesa. "Mesmo com toda a volatilidade em que o Brasil se encontra, continuamos apostando no país. Pela participação no mercado mundial, o Brasil tem um caráter bastante importante", afirma.

Sobre o acordo, Marcello Spinelli, presidente da VLI, comentou, em nota: "O anúncio com a Tereos enfatiza nossa missão de oferecer soluções logísticas integradas ao negócio de nossos clientes". De sua parte, Alexis Duval, presidente da multinacional francesa, afirmou que "o investimento fortalecerá a presença da Tereos no Brasil".

A VLI, criada em 2011, é controlada por Vale, Brookfield, Mitsui e o fundo FI-FGTS. A empresa opera duas ferrovias (FCA e Norte-Sul) e três terminais portuários próprios, além de terminais intermodais. Além de agronegócio, a empresa opera as divisões industrial (derivados de petróleo, celulose, minérios e outros) e siderúrgica (aço, carvão, gusa e calcário). No ano passado teve receita líquida consolidada de R$ 4,4 bilhões, com lucro líquido de R$ 314 milhões. (Valor Econômico 28/06/2018)

 

Açúcar: Correção técnica

A forte alta do dólar ante o real foi o estopim para uma correção técnica no valor dos contratos futuros do açúcar na bolsa de Nova York ontem.

Os papéis com vencimento em outubro fecharam a 12,05 centavos de dólar a libra-peso, recuo de 40 pontos (3,21%).

A moeda americana mais forte eleva as margens dos exportadores brasileiros, contribuindo para uma maior oferta do país no mercado internacional.

Antes mesmo da abertura do pregão, contudo, a consultoria Zaner Group já destacava a possibilidade de uma correção depois da recente alta das cotações em razão do elevado posicionamento vendido dos fundos.

No mercado interno, o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal negociado em São Paulo ficou em R$ 58,79 a saca, alta de 0,79%. (Valor Econômico 28/06/2018)

 

Açúcar bruto cai mais de 3% na ICE com fraqueza do real ante o dólar

Os contratos futuros do açúcar bruto caíram mais de 3 por cento na ICE nesta quarta-feira, pressionados pela fraqueza do real ante o dólar.

O contrato outubro do açúcar bruto encerrou em queda de 0,4 centavo de dólar, ou 3,2 por cento, a 12,05 centavos de dólar por libra-peso.

Os preços foram pressionados pela queda do real, o que encoraja os produtores a venderem, por melhorar os retornos na moeda local em commodities negociadas em dólar, como o açúcar, disseram operadores.

O declínio "apagou" os ganhos da sessão anterior, quando os preços tiveram um rali por dados que mostravam uma produção de etanol maior do que o esperado no Brasil, deixando menos cana-de-açúcar disponível para a produção de açúcar.

O açúcar branco para outubro recuou 8,10 dólares, ou 2,3 por cento, para 337,50 dólares por tonelada. (Reuters 28/06/2018)

 

Metas de descarbonização do RenovaBio: Reduz, mas aumenta

Semanas atrás, o governo anunciou uma meta de redução de 10% da intensidade de emissões de carbono do setor de combustíveis para o transporte no Brasil até 2028, o que resultaria, segundo as contas do Ministério de Minas e Energia, numa redução de 600 milhões de toneladas de carbono (CO2) nos próximos dez anos. A meta é parte do projeto RenovaBio, que visa a promover a ampliação do uso de biocombustíveis, em especial o etanol e o biodiesel na matriz de transportes brasileira.

Mas, olhando com mais calma os números que embasam o anúncio do MME, nota-se que, em vez de reduzir, as emissões de CO2 crescem de 289 milhões para 335 milhões de toneladas entre 2018 e 2028. A redução, na verdade, só ocorre se comparada com uma projeção de quanto seria a emissão em 2028 se a intensidade de emissões de carbono permanecesse a mesma de 2018. Como a meta de aumento de eficiência é de cerda de 1% ao ano, mas o aumento do consumo de combustíveis cresce mais de 2% ao ano, o resultado é o aumento do volume total de emissões.

No final do período de 10 anos, a participação dos biocombustíveis na matriz de transportes subiria de 20 para 28%, muito pouco frente ao potencial do Brasil, até porque mais de 74% da frota circulante já são flex, e deve chegar a mais de 90% em 2028, segundo projeção do MME.

A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) foi criada para ser uma grande alavanca ao uso de biocombustíveis e redução das emissões de gases de efeito estufa. Para operacionalizá-lo, um dos instrumentos principais são os Créditos de Descarbonização de Biocombustíveis (CBio). Quem produz biocombustíveis gera CBios, e as distribuidoras que vendem têm que adquirir uma quantidade predefinida de créditos. A demanda de CBios é dimensionada a partir das metas de intensidade de emissões do setor de combustíveis.

A definição das metas passou por uma queda de braço entre o setor de biocombustíveis, a sociedade civil, que propôs metas mais ousadas de descarbonização, e o setor de petróleo e gás (leia-se Petrobras), que sistematicamente bloqueou as propostas de maior ambição, propondo inclusive metas ainda menores que as aprovadas.

Para atingir a meta proposta, o esforço adicional ao que já é feito é mínimo, as metas seriam atingidas quase que por inércia. Se quisermos realmente baixar as emissões é preciso estabelecer metas mais agressivas de penetração dos biocombustíveis combinadas com eletrificação dos transportes (nossa matriz já é 80% renovável), o desestímulo ao transporte individual motorizado, o estímulo ao transporte público e promoção dos modais ferroviário e aquaviário para o transporte de carga.

Aí sim, podemos falar em real redução das emissões de poluentes do setor de transporte brasileiro. (O Globo 27/06/2018)