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Empresário do agronegócio lidera aporte no Indusval

O banco Indusval, atualmente com insuficiência de capital, vai passar por mudanças em seu controle acionário, ao mesmo tempo em que tenta mais uma vez reinventar seu modelo de negócios.

O empresário do agronegócio Roberto de Rezende Barbosa, que já integra o grupo que controla a instituição, vai bancar sozinho a maior parte do já anunciado aumento de capital que o banco receberá. Com isso, assumirá uma posição dominante, com uma participação entre 55% e 70% do capital votante. Manoel Felix Cintra Neto, presidente do conselho, Jair Ribeiro e Luiz Masagão, os co-CEOs, colocarão recursos em menor volume e serão diluídos na operação. Ribeiro e Masagão deixarão as funções executivas e ficarão no conselho, assim como Cintra Neto. A expectativa é que um novo acordo de acionistas seja assinado para refletir a preponderância de Rezende.

Juntos, os controladores se comprometeram a colocar R$ 245 milhões no Indusval. Desses, Rezende injetará R$ 195 milhões, enquanto Cintra Neto, Ribeiro e Masagão responderão por R$ 50 milhões. Se houver adesão de acionistas minoritários, a capitalização máxima poderia chegar a R$ 325 milhões. O Valor apurou que o fundo Warburg Pincus, maior acionista do banco, com grande posição em ações preferenciais, não deve acompanhar o aumento de capital.

Rezende ainda está disposto a colocar mais R$ 55 milhões na compra de letras financeiras conversíveis em ações que o banco estuda emitir e que também contariam como capital. Porém, essa emissão depende de aprovação do Banco Central (BC), dos acionistas e do conselho da instituição.

No último balanço público do banco, de setembro de 2018, o patrimônio líquido estava em R$ 95 milhões, após encolher mais de 70% em um ano devido a prejuízos acumulados. Na B3, a instituição é avaliada em R$ 184 milhões.

Roberto de Rezende Barbosa é um dos maiores acionistas pessoa física do grupo Cosan, que atua nos setores de açúcar e álcool, distribuição de combustíveis, energia e logística. Assumiu essa posição ao vender à Cosan, em 2008, a usina NovAmérica, uma das maiores do país e fabricante do açúcar União. O empresário também era dono do banco Intercap, incorporado pelo Indusval em 2013.

"Continuo sendo caipira, fazendeiro e acionista de banco. E quem vai tocar o projeto é essa nova equipe. Eu estarei no conselho para analisar o risco e a direção", disse Rezende, de sua fazenda, na sexta-feira, em conversa por telefone.

A equipe a que ele se refere foi reunida pelo assessor financeiro Pércio de Souza, da Estáter Gestão e Finanças, a quem Rezende conhece desde quando o executivo integrava os quadros do banco BBA. O empresário é primo de outro sócio da Estáter, Gustavo Lima.

"Eu confio totalmente no Pércio. Temos muitas oportunidades para reposicionar o banco daqui para a frente", completou.

A Estáter deve ter duplo mandato. Além de assessorar Rezende na operação, deverá ser contratada como consultora do banco para o novo plano de negócios.

Pércio de Souza diz que quer transformar o Indusval no "BBAzinho do século 21", numa referência ao antigo banco BBA, onde trabalhou por 11 anos. "Pesquisamos no mercado de bancos médios e não há hoje quem ofereça soluções de forma realmente customizada às empresas de porte médio", diz ele. "Os bancos médios ou são de nicho, como de consignado, ou apenas dão crédito para as empresas", completa.

Para fazer o BBAzinho, Souza foi buscar executivos egressos do BBA. Fernando Fergyveres, de 45 anos, está de saída do Itaú BBA para ser o novo diretor geral do Indusval. Alexandre Teixeira, que saiu da casa em dezembro de 2017, assumirá a diretoria de produtos e novos negócios. Ambos trabalharam com Souza nos tempos do BBA. Um terceiro executivo, ainda se desligando de outro banco, assumirá as áreas de risco e operações.

"Queremos entender as necessidades das empresas e usar o balanço não como produto final, mas como alavanca de solução", disse Fergyveres. Ele reconhece que, no Brasil, os bancos médios encontram dificuldade para se firmar e competir com os grandes. "Não há atalho, teremos que ser fiéis ao nosso plano."

O plano de negócios será detalhado nos próximos 60 dias. Uma ideia geral será apresentada ao conselho de administração na próxima sexta-feira, dia 29, dois dias depois da assembleia de acionistas que votará a proposta de aumento de capital, que também depende do aval final do Banco Central.

As condições do aporte são contestadas pelo minoritário Pedro Weil, que detém 6% do capital e é conselheiro independente do banco. Na sexta-feira, ele submeteu à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) um pedido para suspender a assembleia.

O contrato de consultoria da Estáter deverá ter prazo de cinco anos. No contrato com Rezende, a Estáter terá direito a participação na eventual valorização das ações do banco. Nos próximos meses, a sede do Indusval se mudará para o mesmo prédio da butique financeira de Souza, onde ocupará dois andares que já foram alugados.

A deficiência de capital do Indusval deveu-se, essencialmente, a problemas com a trading agrícola Ceagro, que em 2015 deu um calote nos bancos de R$ 800 milhões. O banco tinha grande exposição a créditos com a empresa e seus fornecedores e teve que provisionar centenas de milhões de reais.

"Estava difícil virar a página depois da Ceagro", disse Jair Ribeiro. "Mas agora estamos completando um ciclo. Eu, o Luiz e o Manoel plantamos algumas sementes que agora estão dando resultado", disse, referindo-se à venda do controle da corretora Guide para a chinesa Fosun e à criação do braço digital SmartBank, voltado exclusivamente para empresas. O Indusval ainda mantém 20% da Guide.

Segundo Pércio de Souza, com a capitalização o Indusval voltará a atender às exigências de capital feitas pelo BC, com um índice de Basileia (que mede a relação entre ativos e capital) entre 10% e 14%. A instituição encerrou setembro com o indicador negativo em 16,8%.

O aporte abrirá espaço para que a carteira de crédito volte a crescer, podendo chegar a R$ 3 bilhões - hoje está em R$ 450 milhões, após sucessivos encolhimentos. Nos primeiros nove meses de 2018, a instituição registrou receita de intermediação financeira de R$ 126,6 milhões, após queda de 53%. O prejuízo ficou em R$ 179 milhões. (Valor Econômico 25/03/2019)

 

Açúcar: Oferta apertada

Os contratos futuros de açúcar demerara subiram na sexta-feira na bolsa de Nova York, com a perspectiva de aperto na oferta na safra internacional 2019/20.

Os lotes com vencimento em julho tiveram alta de 1 ponto, fechando a 12,74 centavos de dólar por libra-peso.

Várias consultorias têm apresentado estimativas de déficit global no ciclo que começa em outubro, e na sexta-feira foi à vez do Rabobank.

O banco holandês previu déficit de 4,3 milhões de toneladas, diante da expectativa de recuo na produção da Índia, Tailândia e União Europeia, e apesar de um pequeno incremento na projeção para a safra brasileira, o que ajudou a sustentar as cotações.

No Brasil, o indicador Cepea/Esalq do açúcar cristal apresentou alta de 0,83%, para R$ 67,90 a saca de 50 quilos. (Valor Econômico 25/03/2019)

 

Etanol hidratado recua 4,57% e anidro cai 1,43% nas usinas

O etanol hidratado recuou 4,57% nas usinas paulistas entre segunda-feira e esta sexta-feira, 22, de R$ 1,8532 o litro para R$ 1,7686 o litro, em média, de acordo com o indicador divulgado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq).

Já o valor anidro baixou 1,43%, de R$ 1,8861 o litro para R$ 1,8591 o litro, em média. (Reuters 25/03/2019)

 

Usina Santa Terezinha, maior usina do Paraná, pede recuperação judicial

A Usina Santa Terezinha, também conhecida como Usaçúcar, entrou com pedido de recuperação judicial na quinta-feira (21) após um revés nas negociações com bancos credores. A companhia tem uma dívida financeira estimada em R$ 4,6 bilhões, a maior parte em dólar (US$ 900 milhões). A informação foi veiculada pelo site do jornal Valor Econômico no início da tarde desta sexta-feira (22). A Usaçúcar é a maior companhia sucroalcooleira do Paraná e uma das dez maiores do país.

De acordo com a publicação, a Santa Terezinha pediu recuperação judicial ao descobrir que o banco Votorantim, ao qual deve cerca de R$ 150 milhões, havia entrado com três pedidos de execução na Justiça. "Uma das ações, que pedia a execução de R$ 40 milhões, chegou a ser executada via BacenJud. A usina é representada no processo pelo escritório Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil Advogados. A execução da dívida pelo Votorantim pegou a empresa paranaense de surpresa, já que ela estava prestes a assinar um acordo de renegociação dos termos de sua dívida com 18 bancos credores, entre eles o próprio Votorantim -, após mais de um ano de negociações", relata a reportagem.

Segundo o Valor, a Santa Terezinha acordou informalmente com os bancos o não pagamento de juros e do principal da dívida enquanto negociava a reestruturação dos pagamentos em 2018. Agora, com o pedido de recuperação judicial, as negociações terão de recomeçar do zero. "A dívida da Usina Santa Terezinha é basicamente com bancos. Segundo uma fonte próxima à companhia, praticamente não há pagamentos em atraso com fornecedores nem impostos vencidos, e atrasos com credores trabalhistas são pouco representativos. Nesse período em que não realizou pagamento aos bancos, a Santa Terezinha manteve seus investimentos em capital de giro e em bens de capital, segundo uma fonte próxima à empresa", destaca a matéria assinada pela jornalista Camila Souza Ramos.

A empresa vem enfrentando problemas com falta de cana para ocupar a capacidade de suas unidades de produção diante de adversidades climáticas em sua região de atuação desde 2015. "De suas 11 usinas, três não operaram na safra 2018/19. A empresa processou 14 milhões de toneladas de cana neste ciclo, mas já chegou a moer 18 milhões de toneladas na safra 2016/17. Para a temporada 2019/20, que terá início em abril, a Santa Terezinha também suspenderá a moagem na Usina Moreira Sales. A cana da região de atuação da unidade será direcionada para a Usina Tapejara. A companhia também detém o controle de dois terminais portuários (Pasa e Álcool do Paraná) e da CPA Trading", detalha o Valor Econômico.

O jornal lembra ainda que, recentemente, a Santa Terezinha realizou mudanças em sua estrutura de governança para profissionalizar, sobretudo, a gestão operacional. "Alguns membros da família Meneghetti, dona da companhia, saíram da diretoria e executivos de mercado foram contratados. Também foram formados clusters de produção, integrando as atividades operacionais de usinas geograficamente próximas", recorda a reportagem. A companhia já havia feito uma renegociação de dívidas em 2016, evitando na época o caminho da recuperação judicial em um momento em que várias outras empresas do segmento estavam trilhando essa via. (Revista Amanhã 22/03/2019)

 

Unica diz que aumento do etanol nos postos não está relacionado aos produtores

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) divulgou comunicado no qual defende que o recente aumento no preço de bomba do hidratado não estaria relacionado com variação no preço recebido pelas usinas de etanol, registrados por indicadores periódicos. “O aumento notado na bomba está sendo determinado por outros agentes que compõem a cadeia de comercialização de combustível”, informa a associação.

Segundo a Unica, cerca de 60% do preço do biocombustível pago pelos consumidores na revenda corresponde a parcela dos produtores. O restante do valor é estabelecido em função das margens de comercialização dos distribuidores, das margens de comercialização dos postos revendedores, dos custos de transporte, das alíquotas de impostos vigentes em cada período (no caso do ICMS, se destaca as alterações no PMPF utilizado para a substituição tributária pelo distribuidor), entre outros aspectos.

“A flutuação do preço do etanol faz parte da dinâmica do mercado. O valor final é construído pelos diferentes elos da cadeia. O que se pode ver é a estabilidade do preço pago ao produtor, o que aponta que a flutuação ocorreu em outras instâncias”, afirma no comunicado o diretor técnico da Unica, Antonio de Pádua Rodrigues.

“Conforme dados apresentados pela Unica, a recente perda de competitividade do etanol hidratado nos postos revendedores, evidenciada nas três últimas semanas, contrapõe a estabilidade dos preços pagos aos produtores de etanol no mesmo período que não apresentaram oscilação e já indicam tendência de queda de 2,5% nos últimos cinco dias, conforme indicador diário de preço do biocombustível”, afirma a entidade em nota, comparado levantamento nas bombas de todo o país, realizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e o indicador de preços diário de Paulínia, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq). (Agência Estado 25/03/2019)

 

Raízen, Ipiranga e BR vencem leilão de quatro terminais portuários em Vitória e na Paraíba

Consórcio formado pelas distribuidoras oferece R$ 219,7 milhões por terminais, onde serão investidos R$ 200 milhões.

Um consórcio formado pelas distribuidoras de combustíveis Raízen, Ipiranga e BR Distribuidora venceu o leilão de portos realizado nesta sexta-feira (22), em São Paulo, na sede da B3. O grupo arrematou os quatro terminais ofertados, três deles na Paraíba e um em Vitória, e deverá investir R$ 199 milhões nos próximos 25 anos. Ao todo, o consórcio pagará R$ 219,7 milhões de outorga à União.

O principal ativo do leilão era o terminal de Vitória, que receberá R$ 128 milhões de investimentos para ser construído. No entanto, ao contrário do que esperavam analistas de mercado, não houve competição, e a oferta do consórcio das distribuidoras, de R$ 165 milhões, foi a única apresentada.

O grupo ainda levou três terminais de combustíveis no porto de Cabedelo, na Paraíba, onde será investido R$ 71,5 milhões. Serão pagos R$ 54,7 milhões de outorga à União para expandir e operar por 25 anos três terminais, que já estão construídos.

Os ativos da Paraíba eram considerados pelo mercado menos atrativos, mas, no caso de dois deles, ainda houve concorrência de outro grupo, a Teapa (Terminais de Armazenagem Paraíba), um operador que já atua no porto.

Em uma das disputas no viva-voz entre os grupos, a proposta de outorga subiu de R$ 20 milhões para R$ 30,5 milhões.

O valor da outorga oferecida ao governo federal foi bem mais baixo do que nos últimos leilões de infraestrutura, quando os pagamentos chegaram na casa dos bilhões. No leilão desta sexta, o mínimo exigido era de apenas R$ 1,00, um valor simbólico.

O motivo é que foram priorizados investimentos nas áreas em lugar de uma arrecadação, segundo o secretário Nacional de Portos e Transportes Aquaviários do Ministério da Infraestrutura, Diogo Piloni. "No caso de portos, a modelagem é diferente [de outros setores]. Preferimos incluir mais investimentos, inclusive na área comum do porto, do que ter uma outorga mais alta".

O leilão desta sexta foi o primeiro de uma sequência de concorrências previstas na área de portos, afirma o secretário.

No dia 5 de abril, haverá uma nova rodada, que vai ofertar seis áreas no Pará – cinco em Belém e uma em Vila do Conde – com investimento previsto de cerca de R$ 400 milhões.

Além disso, há planos de lançar em abril o edital de mais três terminais, sendo dois deles no Porto de Santos e outro no Porto de Paranaguá, com investimentos de outros R$ 400 milhões.

O arrendamento de outros terminais ainda está em análise pelo TCU (Tribunal de Contas da União), como é o caso de terminais no Porto de Suape, ou em fase de estudos, em Santos e Itaqui.

Em relação à privatização de companhias docas, um plano já anunciado pelo governo de Jair Bolsonaro, os prazos são maiores.

O primeiro deles deverá ser a Codesa, no Espírito Santo. O BNDES deverá contratar nos próximos meses uma consultoria que fará os estudos de desestatização da empresa.

Em relação a outras companhias docas que poderão passar pelo processo, Piloni diz que já houve "alguma procura de governos estaduais" interessados em entrar no pacote.

No entanto, ele afirma que é preciso "ter pé no chão". A expectativa, segundo o secretário, é que dois ou três companhias sejam incluídas no processo. (Folha de São Paulo 22/03/2019)

 

Grupo Itaquerê entra com pedido de recuperação judicial

O Grupo Itaquerê entrou com pedido de recuperação judicial para reestruturar 482 milhões de reais em dívidas, segundo uma carta da diretoria vista pela Reuters.

Na carta datada de 21 de março, o grupo, sediado no Estado de Mato Grosso, culpou uma crise econômica prolongada, juntamente com condições climáticas adversas e oscilações cambiais, por seus problemas financeiros. A carta foi assinada pelo grupo, e não por nenhum executivo em particular.

Itaquerê e MLuz, nomeado na carta como consultor financeiro do grupo, não responderam aos pedidos de comentários ou esclareceram a quem a carta foi enviada.

O Itaquerê é um grupo diversificado do agronegócio que cultiva soja, milho e algodão em uma área total de 53.531 hectares, segundo a carta. O grupo também atua em armazéns gerais, concessão de rodovia e construção de pequenas centrais hidrelétricas.

A petição do Itaquerê está sob sigilo, mas uma decisão judicial relacionada à ela foi vista pela Reuters. Nessa decisão, um juiz da cidade de Primavera do Leste, onde o grupo está sediado, exigiu informações financeiras e operacionais adicionais para poder processar a recuperação judicial.

As empresas brasileiras normalmente têm 60 dias para apresentar um plano de reorganização, uma vez concedido o pedido de proteção contra credores por uma vara de falências. O Itaquerê espera ter o pedido de recuperação judicial concedido em poucos dias.

O Itaquerê emprega 735 pessoas em Mato Grosso e Rondônia e espera fazer um acordo com seus credores para manter empregos e operações, disse a carta, sem nomear os credores. (Reuters 22/03/2019)

 

CIA considerou soja brasileira ameaça aos EUA

Legenda: Plantação de soja no estado de SP nos anos 1970; relatório da agência de inteligência CIA apontava que oleaginosa brasileira seria risco às exportações dos EUA

Documentos dos anos 1970, previam que Brasil seria único concorrente importante.

A soja brasileira é encarada pelos Estados Unidos como uma "ameaça" às exportações americanas há pelo menos 46 anos, segundo documentos produzidos pela CIA, a agência de inteligência daquele país.

Em 1973, um relatório afirmava no título que o grão brasileiro apresentava um risco concorrencial aos EUA.

Sob a inscrição "Brazil's Soybeans: An Emerging Threat to US Exports" (Soja do Brasil: uma ameaça emergente para as exportações dos EUA), o texto foi classificado à época como confidencial e, recentemente, liberado para consulta como parte do "Freedom of Information Act" (Lei de Liberdade de Informação).

O documento, consultado pela Folha, mostra os dados sobre a produção dos dois países no início dos anos de 1970 e destaca que a exportação de soja brasileira ainda não alcançara a exportação americana, "mas que ameaça seus lucros futuros".

O estudo, com 13 páginas, também afirma que, com um crescimento anual de 50% da produção do grão, naquele período, o Brasil já era o "único concorrente importante" dos Estados Unidos.

O histórico de concorrência na exportação de soja vem à tona quando os produtores brasileiros podem ter perdas estimadas em R$ 20,5 bilhões, caso se confirme a trégua comercial entre China e EUA.

A China teria oferecido aos americanos a compra de um adicional de R$ 111 bilhões em produtos agrícolas, o que diminuiria a demanda de similares brasileiros.

"Caso se confirme, vai haver um impacto inicial muito forte, o temor é esse", disse Luis Fernando Fucks, presidente da Aprosoja-RS (Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul).

Entretanto, Fucks relativiza o impacto a médio prazo, pois a China não poderia abdicar de importar a soja brasileira porque, mesmo comprando dos Estados Unidos, sua produção é insuficiente para abastecer todo o país.

A visita do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao Estados Unidos teria reforçado a aliança política e econômica entre os dois países, avalia Paulo Pires, presidente da FecoAgro-RS (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul), e uma parceria não pode impedir o Brasil de vender para o mundo todo, diz.

"Não pode ter ideologia de nenhum lado. Paulo Guedes [ministro da Economia] foi feliz na declaração", disse Pires. "Sabe quem tem mais investimento direto nos Estados Unidos? Os chineses. Então por que nós não podemos fazer comércio com a China e deixar que eles invistam no Brasil em ferrovias para transportar nossa soja?", disse Guedes, durante a visita em que acompanhava Bolsonaro.

O memorando de 1973 também previa o crescimento da exportação brasileira.

"É quase certo que o Brasil ganhará uma maior fatia da exportação mundial de soja no longo prazo", afirma o texto.

Além disso, a CIA entendia que uma eventual queda nos preços mundiais, naquele período, favoreceria o Brasil, já que os produtores americanos trocariam a soja pelo milho, enquanto os brasileiros permaneceriam com a soja, que é mais lucrativa.

O documento também dizia que o governo brasileiro estava incentivando os produtores com subsídios saídos de impostos e que o apoio ocorria também em nível estadual, como no caso do Rio Grande do Sul, que veiculava uma campanha publicitária sobre os números da safra.

Dez anos depois, a produção brasileira de soja continuava no radar da CIA. Em julho de 1983, a Diretoria de Inteligência da agência produziu outro documento, a pedido do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Além dos números recentes das safras brasileiras, o documento afirmava que, "diferentemente de Washington, Brasília intervém fortemente no mercado" e que os "preços são controlados, especialmente para produtos de soja".

O texto também ressalta que os produtores recebiam incentivos, crédito e auxílio em marketing.

Consta ainda a afirmação de que estatais brasileiras eram as principais responsáveis por acordos de vendas para a então União Soviética. O comunismo era outra preocupação dos Estados Unidos, na época, em Guerra Fria com os russos. (Folha de São Paulo 24/03/2019)