Setor sucroenergético

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Usinas recorrem mais à emissão de CRA

As usinas em melhor situação financeira do segmento sucroalcooleiro, um dos ramos do agronegócio mais intensivos em capital, continuam a diversificar suas fontes de crédito. E um dos instrumentos que vêm ganhando espaço na carteira dessas companhias são os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que deverão bater o recorde de emissões este ano após um refluxo em 2018, segundo analistas.
Nestes primeiros quatro meses de 2019, as usinas já apresentaram ao mercado emissões de R$ 1,9 bilhão em CRAs, conforme estimativa do Rabobank. De acordo com o banco holandês, no setor de agronegócios como um todo as emissões chegaram a R$ 2,5 bilhões. Em todo o ano passado, o segmento sucroalcooleiro fez emissões públicas de R$ 1,7 bilhão dos recebíveis, de um total de R$ 5,8 bilhões, segundo o Rabobank. Dados compilados pela consultoria Uqbar mostram que, somando as colocações privadas, usinas de açúcar e etanol emitiram R$ 3,8 bilhões em 2018, 56% de um total de R$ 6,7 bilhões em CRAs emitidos.
Para 2019, a Vert Securitizadora estima que, apenas em emissões públicas, o segmento emitirá R$ 2,1 bilhões em recebíveis, dentro de uma expectativa de R$ 8 bilhões a serem emitidos publicamente por empresas ligadas ao campo. A consultoria FG/A, que tem atuado com estruturação de CRAs, prevê que as emissões totais neste ano, incluindo colocações privadas, podem chegar a R$ 15 bilhões, com o segmento sucroalcooleiro mantendo a lideranças das operações.
Victoria de Sá, sócia da Vert, acredita que os recebíveis ganharão espaço conforme diminuir a participação não só do BNDES no financiamento ao setor, que já despencou de 2015 para cá - mas do crédito rural subsidiado como um todo.
"A partir da 'PEC do Teto' se vê uma restrição destes recursos. Isso aconteceu em um momento de crescimento do agronegócio, em que a cana tem que competir com outras culturas, como soja ou algodão. E, agora, tem a visão do novo governo de desencorajar o financiamento público ao campo", diz.
Os recebíveis também têm conquistado espaço ante as debêntures, tanto por não pagarem imposto de renda como por atraírem mais investidores pessoa física, segundo Moacir Teixeira, sócio da securitizadora EcoAgro. Para ele, o crescimento das emissões deve acontecer principalmente na esteira da menor fatia de crédito rural subsidiado que se desenha para o próximo Plano Safra (2019/20).
Em geral, as emissões de recebíveis pelas usinas têm sido uma forma de substituição de instrumentos de dívida, afirma Pedro Fernandes, diretor de agronegócios do Itaú BBA. "O mercado de renda fixa tende a ser mais barato que o bancário de dívida, então as empresas com bom rating buscam esse mercado", afirma.
Emissões realizadas por usinas com melhores ratings têm garantido taxas abaixo do CDI, enquanto os empréstimos bancários no Brasil dificilmente conseguem competir nessas taxas. Juliano Merlotto, da consultoria FG/A, avalia que, diante da concentração bancária no Brasil, também há um limite de quantidade de crédito disponível a usinas que têm capacidade de captação com baixo custo, o que as empurra para fontes alternativas.
Já Manoel Queiroz, gerente de relacionamento do Rabobank, afirma que o aumento do interesse de usinas pelos CRAs tem gerado uma concorrência com o crédito dos bancos e que, por isso, já há uma redução do custo de dívida bancária para empresas com melhores ratings. "E, mesmo para os bancos, o CRA é uma oportunidade, porque também temos interesse em coordenar as emissões", ressalta.
Além de estarem ganhando espaço no mercado doméstico, os CRAs também têm se tornado uma alternativa ante financiamentos estrangeiros, aos quais as usinas recorriam com frequência até alguns anos atrás. "Após a crise de 2015, houve uma saída de muitos bancos estrangeiros do Brasil", lembra Queiroz.
Nesse mercado, os bonds também perderam o brilho, tanto em decorrência da perda de grau de investimento do Brasil quanto pelo fato de que muitas usinas passaram a não cumprir com pagamentos de títulos com a crise que se abateu sobre boa parte do segmento nos últimos anos. "O bond ficou mais caro que a emissão no mercado local, cresceu o risco cambial e a diferença de juros entre o mercado nacional e externo também não está favorável", diz Juliano Merlotto, da consultoria FG/A.
Apesar das vantagens, a participação dos CRAs no montante da dívida do segmento é limitada. Nas estimativas do ItaúBBA, os recebíveis de usinas atualmente no mercado representam 7% da dívida total das usinas do Centro-Sul, que o banco calcula que tenha ficado ao redor de R$ 92 bilhões na safra 2018/19.
Um fator limitante ao crescimento dessas emissões, avalia Queiroz, do Rabobank, é o nível de interesse de investidores. "As empresas precisam evoluir em governança para se habilitar e, paralelamente, o mercado de investidores tem que crescer".
Victória de Sá, da Vert, acredita que as emissões por parte de usinas cresceriam mais se o Conselho Monetário Nacional (CMN) regulamentasse as operações de recebíveis em dólar, travadas desde 2016. "Como é um setor que exporta muito, ter só dívida em reais e receita em dólar também é um desafio hoje", diz. (Valor Econômico 25/04/2019)
 

Tereos indica novos executivos em meio a dificuldades do setor de açúcar

O grupo açucareiro francês Tereos indicou uma série de novos executivos, como parte da reorganização global para enfrentar uma indústria em declínio.
Com efeito imediato, nomeou Alex Leite será diretor-executivo da divisão de trading de açúcar, Tereos Commodities Sugar, disse a empresa em comunicado nesta quarta-feira.
Dois outros novos executivos serão indicados sob uma nova estrutura corporativa que implicará em “uma clara distinção entre os registros de açúcar bruto e branco”, afirmou a companhia.
A Tereos, segunda maior produtora de açúcar do mundo, disse que Omar Al-Dahhan irá comandar a unidade de açúcar bruto, enquanto Pat Dean chefiará a de açúcar branco.
De acordo com o comunicado, a Tereos Commodities Sugar “chegou a tamanho e estágio que requerem focos adicionais para otimizar sua presença e resultados”.
A Tereos, que prevê queda no lucro deste ano por conta de uma redução nos preços globais de açúcar, tem conduzido uma grande reestruturação nas últimas semanas, que já contou, entre outras, com a saída de seu diretor financeiro.
A empresa afirmou nesta quarta-feira que Marcelo Escorel Filho, que havia sido indicado como chefe da filial brasileira da Tereos Commodities em julho de 2018, deixará a companhia, com Leite assumindo suas responsabilidades.
Leite, ex-diretor de desenvolvimento de negócios internacionais e de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), vai se reportar diretamente a Philippe Huet, que foi recentemente nomeado diretor de comércio, atividades e marketing da Tereos Commodities.
No Brasil, que representa a maior parte das receitas internacionais da Tereos, tanto o diretor financeiro quanto o diretor agrícola também estão de saída, disse a empresa no mês passado. (Reuters 25/04/2019)
 

Sem definição fiscal, venda direta de etanol aos postos afeta disputa de mercado, diz Sincopetro

Regulação da comercialização sem distribuidoras foi discutida por representantes do setor em Ribeirão Preto, onde combustível teve alta mesmo após início da safra 2019/20.
Considerada uma alternativa para reduzir o preço do etanol ao consumidor, a venda direta das usinas para os postos, sem as distribuidoras, só vai funcionar quando houver uma definição de política fiscal por parte do governo, afirma o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado (Sincopetro-SP), José Alberto Paiva Gouvea.
O assunto foi uma das pautas de uma reunião da entidade realizada esta semana em Ribeirão Preto (SP), centro de uma das principais regiões produtoras do país do combustível derivado da cana, mas que tem tido alta nas tarifas mesmo após o início da safra 2019/20.
A medida chegou a ser aplicada durante a greve dos caminhoneiros para evitar desabastecimentos e bloqueios e foi aprovada pelo Senado em junho do ano passado, mas segue em tramitação na Câmara.
Em nota divulgada no final do ano passado, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) informou que não via impedimentos para a prática, desde que questões tributárias ligadas à incidência do Pis-Cofins e do ICMS fossem resolvidas.
O representante do Sincopetro argumentou que, não houver regras bem claras sobre a tributação a ser aplicada em cima do combustível, o cenário continuará parecido com o atual.
“Vai continuar sendo o seguinte: quem paga imposto vende por um preço, e quem não paga imposto vende por outro. E aí não é vantagem para consumidor nenhum comprar um produto sem qualidade, sem imposto”, afirmou.
Para o economista Edgar Monfort Merlo, tirar a distribuidora do processo de comercialização do etanol seria um passo importante para ampliar a concorrência e beneficiar o consumidor.
“Se você tiver os produtores fornecendo diretamente aos postos você põe um elemento a mais de pressão nessa cadeia de distribuição. Hoje, sempre que tem aumento acontece isso: fica esse jogo de empurra. A distribuidora fala que está com margem adequada, os postos falam que estão com margem adequada e na realidade o resultado é que o consumidor final paga aumentos”, analisa.
Alta no etanol
A safra 2019/2020 começou no final de março em 81 das 268 unidades produtoras do Centro-Sul e se elevou para 174 na primeira quinzena de abril, segundo informações da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).
Em vez de pagar mais barato, consumidores da região de Ribeirão Preto, onde se concentra grande parte dessa produção, têm enfrentado alta nas tarifas.
Nos postos de Franca (SP), o litro do combustível chega a R$ 3,19, segundo apuração da EPTV, afiliada da TV Globo. Valor que só não supera o de Cubatão (SP), onde o litro chega a R$ 3,26. Em Ribeirão Preto, a reportagem encontrou postos cobrando R$ 3,14.
“Com certeza o nosso salário não aumenta tanto quanto tem aumentado o álcool”, reclama a professora Fernanda Sakaemura, de Ribeirão.
A alta é atribuída pela Unica a fatores como o excesso de chuvas, que dificultaram o início da colheita. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP, em abril o etanol tem deixado as usinas a R$ 1,98, o maior valor da história nesse período na série histórica desde 2002.
A Unica, no entanto, também atribui a elevação à política adotada pelas distribuidoras de operar com estoques mínimos mesmo nos períodos de alta demanda. “Com um balizamento dessas compras e a manutenção de estoques maiores, seria possível reduzir a volatilidade, observada nas últimas semanas, do preço do etanol”, informou, em nota.
A entidade ressalta que com a retomada da moagem por parte das usinas os preços podem começar a cair, embora também estejam atrelados a custos de transporte, margens de distribuição e preços da gasolina.
“As unidades estão operando à noite e em feriados para evitar qualquer tipo de restrição à coleta do produto pelas distribuidoras. O restabelecimento da moagem deve gerar um aumento significativo da oferta nos próximos dias, com possível reversão dos preços”, completa. (G1 25/04/2019)
 

Bayer tenta provar à Justiça dos EUA que glifosato não causa câncer

A alemã Bayer recorreu da decisão da juíza Suzanne Bolanos do tribunal Superior de San Francisco, na Califórnia, de agosto do ano passado, que considerou que o Roundup, herbicida à base de glifosato, causou câncer ao ex-jardineiro Dewayne Johnson.
O herbicida e a semente resistente a ele foram desenvolvidos pela americana Monsanto, comprada pela Bayer em agosto de 2018. No caso, a múlti alemã foi condenada a pagar US$ 289,2 milhões, mas o valor foi reduzido para US$ 78,5 milhões após um primeiro recurso da companhia.
Agora, nessa apelação, a Bayer alega que estudos comprovam a segurança do produto e refuta que o câncer tenha sido consequência do glifosato.
“A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, um braço da Organização Mundial da Saúde (OMC), classificou o glifosato como um provável carcinógeno humano em 2015. Mas a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos considerou que é um produto seguro, e permanece legal nos Estados Unidos e na Europa”, aponta a Bayer na apelação. “O veredicto do júri e os danos concedidos não podem ser conciliados com a lei ou mesmo com a ciência”, continua o documento.
Em março deste ano, a Bayer sofreu outra derrota na corte de San Francisco e foi condenada a pagar mais de US$ 80 milhões a um residente local que teria desenvolvido câncer por causa da exposição ao herbicida. O tribunal considerou que a Monsanto agiu de forma negligente ao não alertar Edwin Hardeman sobre os riscos do produto.

Em 28 de janeiro, o número total de processos envolvendo o glifosato nos EUA somava 11,2 mil. Antes do caso de Dewayne Johnson, o número de processos envolvendo o herbicida somavam 5,2 mil. O banco de investimento Bryan Garnier destacou que, se for aplicado US$ 80 milhões de indenizações em cada um dos 11,2 mil casos que aguardam julgamento nos EUA, a Bayer terá de desembolsar mais de US$ 900 bilhões. (Valor Econômico 24/04/2019 às 16h: 46m)